Xenofobia, e o inocente “Uma visão alemã sobre o islamismo”, do dr. Emanuel Tanya

Hoje recebi um desses textos de corrente, que em geral eu apago, mas parei pra ler porque veio de uma pessoa que eu respeito. Putaqueopariu. É a prova de como pessoas do bem podem ser enganadas. O texto estava em português e não vou colar aqui. Se quiser ler, veja neste simpático site bíblico: http://bibleprobe.com/Emanuel-Tanay.pdf

Em resumo, o autor, que não é o Dr. Emanuel, e sim um blogger canandense, diz que o Estado Islâmico chegou onde chegou porque os muçulmanos do bem não estão agindo. Ou seja, que as ações truculentas dos Estados Unidos no território não têm naaaada a ver com a situação, e que agora que o negócio está estourando, o tempo todo, quem tinha que resolver a trolha era a população. Porque se é verdade que a maioria dos muçulmanos são pessoas pacíficas e do bem, por que elas não estão lutando contra os fanáticos? Juro. Calhorda filhodaputa.

O pior de tudo é ver textos como esse se tornarem virais, um monte de gente compartilhando e dizendo “olha que interessante, olha que visão esclarecida, olha, e não é que é verdade?” Pelo amordedeus, como é que as pessoas caem tão fácil em discursos idiotas como esse?

Eu li o texto encaminhado pra mim e mais 21 pessoas, escrevi uma resposta, e só no final tive curiosidade de googlar Emanuel Tanya, que na verdade é Tanay, e havia vários posts falando da farsa.

Tudo bem, acho que teria escrito de qualquer jeito, e já fica o comentário sobre o bullying contra japoneses em Brotas. Mandei o texto abaixo pro meu amigo e pros outros 20 da lista.

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Meu nome é Claudia Komesu. Sou neta de japoneses, meu pai e minha mãe são filhos de japoneses. Meu marido é filho de judeus vindos da Romênia, minha irmã é casada com um muçulmano nascido no Marrocos. Meu cunhado tem parentes que moram em Paris.

Nasci e cresci no interior de São Paulo, na cidade de Limeira. Na minha infância eu me sentia triste por ter esta cara, por não ser uma pessoa normal, e houve uma época em que eu voltava da escola em zigue-zague, porque se eu via alguém com jeito de que poderia mexer comigo, eu atravessava a rua. No interior de São Paulo é comum as pessoas mexerem com japoneses. Vai de gritar “Banzai”, “Arigatô!”,”Japoronga!”, “Gohan, nééee???” ou ficar andando do seu lado, puxando o canto dos olhos e falando coisas que eles acham que soa como japonês.

Moro em São Paulo há 20 anos, e uma vez que conversávamos sobre bullying, contei da minha experiência e meus amigos paulistanos ficaram muito surpresos porque parece que esse tipo de coisa não acontece aqui.

Semana passada fui pra Brotas no feriado do 7 de setembro. Fiz o rafting, caiaque. Meu marido perdeu o voucher de um dos passeios, ele estava numa fila de atendimento, eu voltei pra agência onde a gente tinha comprado o passeio pra pedir a impressão de outro voucher. A moça que nos atendeu no dia anterior não lembrava de mim, mas ficou perguntando se eu estava em excursão de japoneses, porque tinha muitos por lá, e ficava puxando o canto dos olhos enquanto falava. Meu enteado estava do meu lado e me falou baixinho “você está sendo trolada”.

Durante o passeio, uma hora cruzamos com outro barco, e nosso condutor gritou para o outro (que estava com japoneses no seu bote) “Olha, a gente pode trocar”, “É, podemos, é tudo igual. Pior que se cair na água a gente não sabe qual é qual”.

Como todos sabem, japonês e caminhão de melancia é tudo igual.

O passeio foi comprado de uma agência grande, certificada, e os condutores eram pessoas gentis, experientes. Eu fiquei triste, não quis falar nada pra não estragar o clima do resto do passeio. Mas fiquei quieta, e acho que ele percebeu que tinha feito algo errado, e tentou puxar conversa comigo.

Eu não me sinto brava com ele. Pensava “estou no interior de São Paulo, é assim que as coisas são”. Quando chegamos em casa, meu marido comentou “caramba, como esse pessoal zoa com os japoneses! O tempo inteiro ficam enchendo o saco. Por que será que isso acontece? Será que é porque o Japão era inimigo na segunda guerra?” – claro que não, Itália e Alemanha também foram. Eu falei “não. É porque somos minoria. Temos essa cara diferente, e somos pequenos, baixinhos, fracos, pacíficos, sorridentes. Se fôssemos grandes, agressivos e a gente socasse cada imbecil que vem zoar, isso não aconteceria”.

Sabem o que é bullying? Eu sei. E a irmã do Ali, meu cunhado, e os sobrinhos dele também sabem. Ainda mais depois que a onda de violência dos fanáticos começou, as pessoas xingam, hostilizam, e batem em muçulmanos. Minha irmã costumava viajar pra Paris uma vez por ano, pra eles visitarem a irmã do Ali. Neste ano não foram, falaram “não venha, o clima aqui está muito hostil, é melhor vocês não virem”.

Então a situação está nesse pé de guerra porque a maioria silenciosa de muçulmanos pacíficos não está lutando contra os fanáticos?

Qualquer um que acredite nisso, ou acredite que o nazismo poderia ser evitado se as pessoas comuns tivessem se levantado contra o insurgente movimento, ou que a sanha bélica do Japão poderia ter sido barrada pela população, qualquer um que acredite nisso, eu desafio a você reunir as pessoas por uma causa e fazê-las lutar por isso.

Acho que as pessoas que escrevem esse tipo de texto não têm a menor vivência ou experiência com seres humanos. Não sabem o que é bullying, não sabem como piadas contra um povo, ou comentários jocosos, ou declarações sobre a apatia alimentam a hostilidade contra essas minorias. Vocês leem caixas de comentários e sabem quantos comentários imbecis e agressivos aparecem. E vocês leem notícias de jornal e sabem como essa hostilidade às vezes se manifesta em agressão física e até assassinatos.

Eu desafio: tenta fazer um grupo de pessoas lutar por uma causa. Ao mesmo tempo, com intensidade, de maneira organizada e eficaz, e todo mundo pelos mesmos ideais. Ah, e detalhe: a iniciativa vem do próprio grupo, o financiamento das ações vem do próprio grupo, e toda a violência que o grupo inimigo prega, e diz que vai atacar contra quem se mostrar contra eles – e eles já deram grandes provas das atrocidades de que são capazes – o grupo tem que ser corajoso e passar por cima desses medinhos.

Espera: deixa eu trazer as coisas aqui pro Brasil. Vocês já ouviram falar que o Brasil tem casos absurdos de corrupção, lavagem e desvio de dinheiro? Já ouviram falar que a população paga uma quantidade louca de impostos – 5 meses por ano se trabalha só pra pagar imposto, e que isso não se reverte em educação, saúde e segurança? Já ouviram falar que propositadamente o Estado não investe realmente em Educação porque povo ignorante é mais fácil ser massa de manobra? Claro, todos sabem. Corrupção não é assassinato, mas devia ser tratado como crime hediondo. Não é uma bala, mas é toda uma estrutura que para minar as chances das pessoas crescerem intelectualmente, porque elas têm que se manter atarefadas o tempo todo só pra sobreviver.

Mas os apáticos brasileiros são incapazes de tomar uma atitude e acabar com esses sanguessugas que vão drenando todas as nossas riquezas e a chance de sermos um país com menores desigualdades sociais. Ah, sim, os brasileiros fazem umas manifestações de vez em quando, e sou a favor delas. Mas quantos já ouviram ou já criticaram pessoalmente o quanto essas manifestações são desorganizadas, que as pessoas nem sabem direito contra o que estão protestando, etc etc?

Quer outro exemplo brasileiro? Nos parques públicos é comum as pessoas serem proibidas de fotografar se estiverem com uma câmera grande. “Seu equipamento é profissional e você precisa de autorização”, juro, os baguás acham que só profissional pode ter uma câmera grande. Um monte de birdwatchers já foi barrado, ou teve que ir até a administração do parque assinar um documento dizendo que você não vai vender as fotos — porque como todo mundo sabe, fotógrafo de natureza ganha rios de dinheiro.

Pois bem. Em meados de julho a gente conseguiu a atenção do presidente do ICMBio, o sr. Cláudio Maretti, que abriu um posto no próprio Facebook. Tem milhares de birdwatchers no Brasil. 30 mil cadastrados no Wikiaves. Pelo contador do meu blog e compartilhamentos do Facebook, eu sei que pelo menos umas 4 mil pessoas estavam a par do assunto. O fundador do Wikiaves, Reinaldo Guedes, colocou uma chamada na home do site, pedindo pras pessoas irem se manifestar no post do sr. Maretti, e suponho que foi visto por milhares das 200 mil pessoas que visitam o site mensalmente.

Quantas pessoas foram gastar 2 ou 5 minutos do seu tempo para colocar uma mensagem a favor da liberdade para fotografar e publicar? Não estou falado de lutar por uma guerra, estou perguntando quantas pessoas se dispõem a gastar alguns minutos para escrever uma mensagem num post do Facebook sobre um problema absurdo e ridículo que ou elas já enfrentaram pessoalmente, ou sabem que estão sujeitas?

E nem todas eram mensagens de apoio, algumas eram só para linkar o nome de outra pessoa, e algumas era só pra dizer que é preciso ter ética, ou pra dizer que aquela conversa não era pra neófitos.

Não estou dizendo que os muçulmamos são santos, ou que se fechar em guetos não traz repercussões negativas. Ou que não há nada pra fazer ou discutir. Só quero dizer que a próxima criatura que tentar dizer que as pessoas pacíficas e do bem precisam agir, e que tais e tais problemas acontecem porque as pessoas não agem, eu vou perguntar qual é a experiência dela com seres humanos, com trabalhos em grupo, com grupos de voluntários e associações, e provavelmente vou descobrir que ou é uma pessoa totalmente mal intencionada, ou que ela nunca teve que lidar com um grupo.

Neste ponto eu ia dizer que só queria mandar o Dr. Emanuel Tanya tomar no cu por ficar propagando essas merdas que só alimentam posturas de ódio, quando tive curiosidade de googlar o nome dele, e descobri que teria xingado o Dr. injustamente.

O Dr. Emanuel Tanya, na verdade Emanual Tanay, era judeu, não nasceu na Alemanha, fugiu da Segunda Guerra, foi pros Estados Unidos, faleceu no ano passado e nunca escreveu esse texto. Esse texto é antigo, está rodando na internet há anos, vários sites explicam como é uma farsa, e que provavelmente foi escrito por um blogger canadense, desses que apoia os sites de ódio aos muçulmanos.

http://lompocrecord.com/news/opinion/editorial/commentary/valley-view/a-time-when-lies-quickly-outrun-the-truth/article_f9841c28-e7a7-11e3-837c-001a4bcf887a.html

Eu comecei a ler o artigo e senti que era merda. Mas se você não sentiu isso desde o começo, ou se ficou impressionado com os argumentos, o autor deste post se deu o trabalho desmascarar os argumentos do pilantra:

http://www.wideasleepinamerica.com/2010/08/peaceful-majority-report-rejoinder-to.html

“However, the writer doesn’t take any time to mention the imperial infrastructure of 1,000 military bases and installations worldwide or an economic strangle-hold that keeps entire continents malnourished and dependent on aid. The writer believes we should all be mighty fearful of the evil Muslims rampaging through the streets, converting or killing the infidels, and corrupting our youth. That’s where the danger lies, he tells us, not in invasions and occupations by conquering armies; not in ethnic cleansing and garrison-colonialism; not in F-16s, Apache helicopters, nuclear submarines, aircraft carriers, remote-controlled machine gun turrets and Predator drones; not in sieges, blockades, and collective punishment; not in white phosphorous, flechettes, depleted uranium, cluster bombs, or DIME; not in undeclared and unmonitored stockpiled nuclear weapons; not in checkpoints and watch-towers and Apartheid Walls; not in land theft, water theft, oil theft, or the privatization of other people’s resources; not in assassinations, kidnapping, torture, black sites, indefinite detention, the dismantling of both constitutional and inalienable rights, the disregard for international law and human rights; not in the diplomatic, financial, and military support of dictatorships, war lords, and ethnosupremacists.”

Ao receberem mensagens desse tipo, façam um ato responsável: jogue o nome do autor no Google, se é farsa em geral já aparecem posts.

Ou se você simpatizou com as atitudes que alimentam o ódio contra os povos, seja muçulmanos, judeus, japoneses, alemães, tente ter um momento de humanidade (link pro post “É fácil não falar coisas babacas”) e pensar que em vez de um muçulmano qualquer, é uma pessoa querida que está sendo alvo desse ódio coletivo alimentado por textos desse tipo.