A Marcha das Mulheres no 21 de janeiro – não se deixe enganar

Se você achou uma baboseira 2 ou 5 milhões de pessoas nas ruas, com gorros ridículos cor de rosa, este post não é pra você. Pode ir embora. Adjetivos como esses em geral significam pessoas com um pensamento cristalizado, e não tenho a pretensão de mudar alguém assim. Eu também tenho alguns pensamentos bem cristalizados, e não imagino algo capaz de mudá-los.

Coisas como acreditar que não é a cor da sua pele que diz quem você é. Ou que nenhuma pessoa tem o direito de humilhar, espancar ou estuprar a outra, só porque é mais forte. Ou me revoltar com quem fala “negros e nordestinos são pobres porque são vagabundos, todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Me revoltar com quem fala como se a História não fizesse nenhuma diferença, como se as ações da Inglaterra, Estados Unidos, França, Espanha, Portugal não tivessem ferrado, talvez pra sempre, as chances da América do Sul, América Central, Índia, Oriente Médio serem lugares prósperos com menos desigualdade social.

Não escrevo em resposta aos que falaram “isso não me representa”, “isso não muda nada”, “isso é coisa de vadias desocupadas, voltem pro tanque”, “eu consigo arrumar emprego e quem não consegue é um preguiçoso incompetente, “se a pessoa não tem dinheiro pra pagar um plano de saúde, ela é uma inútil fracassada e merece sofrer”, “só engravida quem quer. Políticas de planejamento familiar ou o direito de abortar são crimes hediondos contra inocentes”, “essas histórias de estupro e abuso são fantasia, essas feminazis são um bando de barangas que sonham em ser estupradas”, “Trump, vem ser presidente do Brasil”, “Bolsonaro 2018 – Vamos valorizar a tradição, família e propriedade!”.

Não. Não é com você que eu quero falar, e como pretendo compartilhar no meu Facebook, que tem a caixa de comentários, já aviso: não vou bater boca com ninguém.

Escrevo pra quem está se sentindo consternado com as reações de ódio à Women’s March, pra quem é do tipo que gosta ou precisa responder às críticas, ou pra quem simplesmente precisa sentir que o mundo não é feito de uma maioria de pessoas que pregam a leviandade e o ódio. Vou listar algumas reflexões que podem te ajudar a se sentir menos miserável em relação ao planeta Terra.

 

1 – Não se deixe abater pela quantidade de críticas às manifestações

Em qualquer assunto, o mais comum é ver as reações de quem é contrário ao tema. Porque aquilo incomodou o outro, então ele se dá ao trabalho de panfletar contra. Quem não é contra o tema pode ser indiferente ou a favor, e entre os que são a favor, é uma minoria as pessoas que se dispõem a se expor e se manifestar publicamente.

O fato de que, em qualquer post, parece haver uma quantidade muito maior de críticas do que apoio não significa que a maioria das pessoas é contra aquele tema. As pessoas que são contra sempre serão mais ruidosas e é assim que você chama a atenção. Uma porque você está bravo, outra porque o sensacionalismo sempre repercute mais do que o discurso ponderado. Nos anos que panfletei pela liberdade de fotografar a natureza, os cartazes mais compartilhados eram os que expressavam revolta.

Há mais energia para criticar e reclamar do que para apoiar. Fora isso, não é quantidade que importa. O que é errado continua sendo errado, não importa a quantidade de pessoas que concordam com aquilo. Se em 2018 Bolsonaro for eleito presidente do Brasil – um risco concreto, acreditem, não é o fato de que milhões de pessoas o validaram que vai nos impedir de dizer que é errado pregar violência e humilhação sobre mulheres, negros, pobres ou gays.

 

Vou listar algumas críticas comuns à Marcha das Mulheres, e lhe explicar por que elas estão erradas

1 – Donald Trump é um presidente eleito democraticamente. Essas pessoas não deveriam contestá-lo

Errado. Ser um presidente eleito não é ser rei, ditador, ou divindade. Um presidente ou qualquer funcionário público teoricamente está num cargo cujo objetivo é melhorar a vida de um grupo de pessoas. Se aquelas pessoas discordam do que esse funcionário está fazendo, ou anuncia que fará, elas têm todo o direito de contestar. A democracia pressupõe oposição, sempre. Senão é tirania.

2 –“ Esse gorro é ridículo. As feministas não querem que rosa seja menina, azul menino, mas escolheram usar gorro rosa. Madonna disse que já pensou em explodir a Casa Branca. Por que ela tem o direito de ameaçar a vida do presidente?”

Essa é uma das táticas mais comuns, e sujas. Quando as pessoas estão protestando por algo, a oposição vai tentar pegar algum detalhe ridículo e martelar em cima daquilo, com o objetivo de desviar a atenção do que realmente importa. Isso é usado com frequência nos discursos contra o feminismo.

Por exemplo, mulheres falam de abuso, estupro, espancamento, assassinatos, mutilações, tortura, ameaças, ganhar salários menores só por ser mulher, viver com medo de andar à noite sozinha, não ter o direito de abortar e assim ferrar sua vida inteira (55% das brasileiras que tiveram filhos engravidaram sem querer. Em geral meninas pobres, jovens, negras, que têm que largar a escola pra cuidar sozinhas do filho. Gente sem dinheiro pra pagar uma clínica clandestina, ou que não teve coragem de ir pra um açougueiro e correr o risco de ficar estéril ou morrer). Mulheres falam sobre o direito de se vestirem como quiserem, sem que alguém diga que se a mulher estava vestida do jeito tal, o homem tinha o direito de estuprá-la. http://g1.globo.com/bemestar/noticia/mais-de-55-das-brasileiras-com-filhos-nao-planejaram-engravidar.ghtml

Quem condena as lutas feministas responde com: “essas feminazis são um bando de barangas mal comidas, são sempre feias pra chuchu, só querem chamar a atenção. Deveriam voltar pro tanque e parar de encher o saco, esse assunto já deu. Elas querem tornar o mundo um lugar mais chato. Elas falam de discriminação, mas não tem serviço militar obrigatório pra mulher. E mulher vive mais”.

É estupro-assassinato-injustiça x isso-é-chato-você-é-feia.

Outro exemplo: na manifestação de 21 de janeiro, Madonna falou “eu entendo essa raiva, sim, eu já pensei em explodir a Casa Branca”. E vocês sabem o que a oposição fez? “Madonna está ameaçando a vida do presidente. A Cia vai abrir um processo pra investigar Madonna”.

Madonna é a terrorista mais burra da historia do planeta, que decidiu anunciar pro mundo todo seus planos para explodir a Casa Branca.

Ela foi obrigada a publicar um comunicado no Instagram, explicando que não é a favor da violência, que aquilo é uma metáfora, que ela nunca explodiria nada. http://www.dailymail.co.uk/news/article-4146366/I-spoke-metaphor-Madonna-clarifies-Saturday-s-speech.html

Alguém realmente acredita que “Eu entendo, eu também já pensei em explodir a Casa Branca” significa que ela quer matar pessoas? Claro que não. Mas é o jogo sujo da oposição.

Eu sei como é. Se você não encontra algo que a pessoa falou, você distorce ou inventa. Quando eu estava trabalhando para ter uma portaria estadual pra acabar com a proibição à fotografia de natureza, uma das pessoas que era contra publicou “essa portaria vai obrigar todo observador de aves a contratar um guia sempre que quiser andar num parque”. Uma pessoa conhecida e respeitada. Perguntei “fulano, onde você leu isso, de onde você tirou essa ideia?”. Perguntei várias vezes, nunca me respondeu.

Na época da campanha presidencial, várias mentiras sobre Hillary foram disseminadas (inclusive dizer que ela chefiava uma rede de pedofilia que usava uma pizzaria como fachada), e algumas foram capazes de baixar a quantidade de pessoas dispostas a votar nela.

As pessoas más são capazes de truques sujos. E muitas pessoas desavisadas caem nessas armadilhas.

3 – As pessoas que estão defendendo as manifestações são um bando de mimadas egocêntricas, que ficam falando da vida delas. Por que elas não estão marchando pra acabar com o sofrimento das mulheres na África ou no Oriente Médio?

Li alguns textos de pessoas defendendo as manifestações, explicando por que aderiram às marchas, e vários deles mencionam coisas pessoais – ou situações em que foram espancadas, estupradas, humilhadas, discriminadas, ou conhecer pessoas pobres que precisam do Obamacare, ou que engravidou e precisou largar a escola, imigrantes com medo de serem deportados.

E vários textos na caixa de comentários reclamavam sobre o egocentrismo do texto. Sabem por que? Porque não importa o que você viveu, ou o que você conhece em primeira mão. O que você sofreu ou vê não é nada comparado com o sofrimento das mulheres no Oriente Médio ou na África.

Outra armadilha suja, mas comumente usada em discussões: “você não devia reclamar porque seu chefe te chamou na sala e enfiou a mão entre suas pernas. Pelo menos ele não te estuprou”, “você foi estuprada, mas pelo menos ele não jogou ácido na sua cara”, “ele jogou ácido na sua cara, mas pelo menos não te matou”.

Vocês estão reclamando que um homem que já abusou de várias mulheres, e tem orgulho de falar sobre isso, tenha sido eleito presidente do país. Estão vendo os casos de abusos aumentarem, homens cada vez mais à vontade para xingar, tocar, agarrar, espancar. Provavelmente aumento dos casos de estupro, e já há um número altíssimo nos EUA – na faixa de 240 mil por ano e prevalência de impunidade. E não sabem como a personalidade do presidente vai influenciar em ações e políticas públicas. Há pelo menos uma ação grave que já está sendo discutida: a revogação do direito de abortar.

Vocês estão reclamando do quê?

As mulheres nos Estados Unidos têm motivos bem concretos para se preocupar com um político e eventuais políticas que tratam a violência contra as mulheres um assunto menor. A cultural do estupro não existe só na Índia e no Brasil. Nos Estados Unidos ela é particularmente disseminada em ambientes universitários e aumenta nos dias de jogos de futebol americano.

 

Mais informações sobre o medo do estupro nos EUA e por que cultura e política impactam

http://exame.abril.com.br/mundo/estupros-disparam-nos-eua-por-cultura-do-futebol-americano/ “Relatos de agressores universitários estuprando vítimas universitárias aumentam em 58 % em dia de competições locais de futebol americano. Registros de estupros em que a vítima não conhece o agressor aumentam em 61% no dia de campeonatos locais.”

http://radioagencianacional.ebc.com.br/internacional/audio/2016-06/estados-unidos-tem-alto-indice-de-impunidade-por-crimes-de-estupro “No caso de estupros, somente 32% são denunciados. O silêncio está ligado diretamente a cultura do estupro que alivia a culpa do agressor e impõe a responsabilidade pelo ato ao comportamento da vítima.”

http://www.bbc.com/portuguese/geral-36493966 Ponto de vista: ‘Ser mulher nos EUA não é tão melhor do que ser mulher no Brasil’ Mulheres americanas ganham 21% a menos que os homens ─ no Brasil, 30% a menos ─ e elas ocupam 19,4% dos assentos no Congresso – no Brasil, são 10%.

https://nicolascip.jusbrasil.com.br/noticias/332235343/como-as-leis-arcaicas-do-estados-unidos-punem-as-vitimas-de-estupro No estado de Oklahoma, o consentimento – em sexo oral – é aparentemente desnecessário quando seu potencial parceiro sexual estiver desmaiado. (…) O código criminal do estado reconhece estupro em casos de penetração vaginal ou anal em tais circunstâncias. Apenas não é conhecido quando se trata de sodomia oral. Isso pode ser chocante, mas a verdade é que vários estados do EUA ainda não tem suas leis de agressão sexual atualizadas. Ao contrário, previsões obsoletas culpam a vítima criticamente, ao invés de protegê-las.

http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/literatura/livro-missoula-mostra-como-uma-cidade-se-transformou-na-capital-do-estupro-0lmunagnrg5t604mb92gvcnpl “Alguns eventos descritos por Krakauer são perturbadores. Em especial, quando demonstra que os autores dos estupros, muitas vezes, contam com uma vasta rede de proteção. Que vai da conivência da polícia à pressão politica sobre o poder judiciário. Culpando as vítimas: A Justiça e a universidade, não raro, fazem vistas grossas aos testemunhos das vítimas. Nos crimes sexuais, parte da sociedade se volta contra as vítimas ou tenta desacreditá-las assim que as denúncias vêm a público.”

Nunca deixe alguém desmerecer seus argumentos porque há pessoas em situação pior. As reivindicações da Marcha das Mulheres têm vários argumentos pesados de defesa. Mas em qualquer situação, não se deixe enganar por falácias argumentativas. Mesmo em temas que parecem tolos, falácia ainda é falácia.

Uns anos atrás Luciano Huck foi assaltado no Rio de Janeiro, levaram o Rolex dele. Ele contou a história num Facebook ou Twitter e teve muita gente que o criticou, falou que era frescura. Não tenho nenhum apreço por essa figura, mas veja o erro de dizer que alguém rico não pode sentir medo, revolta, ou reclamar de ter sido assaltado.

Ou quando atrizes de Hollywood denunciam filmes em que elas tiveram papel tão ou mais importante do que um colega homem, mas depois descobrem que ganharam um salário menor. Estamos na casa das dezenas de milhões de dólares. Por causa disso não se pode falar do assunto? Jennifer Lawrence contou que não queria aderir a temas feministas pra não ser vista como alguém que gosta de modismos, mas que tem mudado de opinião. Inclusive pra ser capaz de se expressar mais. Ela falou que ganhar menos do que os colegas tem a ver com não saber negociar direito, que os colegas conseguem ser mais duros na negociação. Ao mesmo tempo, ela vê que se um homem fala mais duro, tudo bem. Se a mulher fala mais duro ou altera o tom de voz como os homens falam, ficam todos alarmados como se você estivesse sendo uma histérica. A mulher tem a difícil tarefa de falar coisas difíceis num tom adorável e ser sempre querida por todos.

http://www.forbes.com/sites/maddieberg/2015/11/12/everything-you-need-to-know-about-the-hollywood-pay-gap/#490a84ef1fe5

http://us11.campaign-archive1.com/?u=a5b04a26aae05a24bc4efb63e&id=64e6f35176&e=1ba99d671e#wage

 

“Você é uma mimada que está reclamando por nada”.

Nunca deixe alguém te calar com um argumento desse tipo. Expresse seu descontentamento ou revolta, e provavelmente você encontrará outras pessoas com questões semelhantes. E se vocês se organizarem e se unirem, há uma chance de mudar o mundo.

 

E por que o post tem esse banner de amor & revolução?

Para propagar a ideia de que o amor precisa ser atuante. Que devemos nos expressar e lutar pelo o que acreditamos que vale a pena. E mais uma vez, pra louvar a Madonna.

Não sou fã da Madonna. Vi o vídeo do discurso dela em Washington. Algo lido, com pouco carisma, sem aura. Plateia não empolgada. Mas não era filme, era vida real. E ela teve coragem de ir lá, dar a cara pra bater, ter que se sujeitar depois a pedir desculpas por coisas ridículas. Madonna foi, Scarlet Johansson, Ashley Judd. Meryl Streep teve coragem de fazer discurso, Robert de Niro em apoiar. Muita gente acha horrível as coisas que Trump fala e sabe que isso repercute em ações de violência contra minorias. Mas as celebridades ainda não conseguiram formar um bloco mais consistente de repúdio a esses valores retrógrados.

Espero que as ações do dia 21 inspirem mais gente a mostrar que não queremos um mundo com cada vez mais violência e intolerância, e sim com cada vez mais amor e combate às injustiças.

 

Gostou do pussyhat do cabeçalho? Eu que desenhei. Pode usar se quiser, o png é este: