Você sabe brigar?

Recebi um email de uma amiga contando que ela ainda estava digerindo o post, e que percebeu que todas as brigas que participou eram pra tentar mostrar que ela estava certa, e que ainda não sabia aprender e ouvir. Então percebi que o jeito como escrevi pode ter dado essa falsa impressão, por isso redigi alguns esclarecimentos no final do post.

Por que brigar é fundamental?

Brigar e discutir é errado, não é? São coisas que a gente deve evitar a qualquer custo. Briga, discussão, violência, tô fora, sou uma pessoa civilizada, acredito na racionalidade e no diálogo.

Ok. Racionalidade. E qual a diferença entre uma conversa, uma discussão e uma briga? Em geral tem a ver com temperatura. Assuntos inócuos, tranquilos e que não há confronto de opiniões são uma conversa. Se há algum confronto se torna uma discussão, que pode se tornar uma discussão acalorada e quando mexe muito com as pessoas pode virar briga. Briga de romper com o outro, ou até mesmo de saírem no tapa. Vou deixar de lado os extremos em que acaba em morte.

Claro, qualquer interação, desde o nível da conversa pode já começar alterada se há um ou todos estão sob efeito do álcool, outras drogas, ou da fome, do sono, do cansaço, de irritações e frustrações com outros temas (e assim muita gente desconta em casa os problemas do trabalho).

Se você é contra brigas e discussões, significa que no geral você só pode interagir com as pessoas quando elas estão num estado ótimo de humor, e vocês só podem falar sobre aquilo que não traz nenhuma divergência séria.

Dá pra fazer isso na maioria das vezes com colegas, amigos, e familiares. Em geral sempre é possível escapar pela tangente e não cair no terreno das discussões ou brigas.

Mas o que você faz com as pessoas que são muito importantes pra você? As mais próximas? A que você escolheu para compartilhar sua vida, ou a criaturinha que você tem a responsabilidade de criar até que se torne um adulto e, com sorte, um indivíduo pleno? Você também sempre escapa das conversas difíceis? Na verdade, pra muita gente a resposta é sim. E é desse jeito que temos tantos relacionamentos bocós, superficiais, amargos, com traições. E tanta gente sendo criada como crianças mimadas, que chegam aos primeiros empregos como primadonas que não entendem por que tudo que existe não está em função do prazer e bem estar delas.

Pintei o pior cenário, sei que nem sempre é assim, mas de uma coisa tenho certeza: se você não sabe brigar, no mínimo você engole muito mais sapo do que merecia ou deveria no relacionamento com seu parceiro (e em várias outras situações), e se você é pai ou mãe está correndo o risco de criar uma pessoa que não sabe limites. Ou talvez você coloque os limites, mas sem brigas ou discussões, e sim de forma totalitária. Isso não é uma discussão ou uma briga, é uma imposição em que você dá a carteirada de “faça isso porque sou seu pai/sua mãe e estou mandando”, e você pode ter filhos obedientes, mas que estão crescendo distantes de você.

Como a maioria das pessoas tem parceiros, e há vários com filhos, acho que deu pra entender que o argumento do “sou da paz e racional” não vai colar aqui. Se você quer uma vida melhor você precisa saber brigar.

 

O que é saber brigar, e técnicas para sobreviver às brigas

Quando a temperatura sobe muito em geral seus miolos param de funcionar. Raiva, frustração, excitação sexual – adeus cérebro. Não dá pra ter uma conversa nessas condições.

“Aha, ainda bem que você reconhece! É por isso que eu não brigo e não faço promessas no meio do boquete”.

Permita-me explicar. É tudo uma questão de graus. Quando a temperatura sobe muito, realmente não tem diálogo. Quando alguém está cego de raiva, a pessoa está cega. E surda. Às vezes fica até muda. Nessas condições não sai nada daí. Mas é possível e desejável conseguir falar, e saber conversar com as pessoas sobre assuntos que incomodam, ou irritam, ou doem, ou machucam – desde que não chegue no extremo da pessoa parar de ouvir e de pensar.

Reconheço que as brigas explosivas em que as pessoas se xingam, ou se batem, ou vão embora têm seu valor catártico e depois que as coisas esfriam em geral vem o pedido de desculpas e alguma melhora. Mas não são essas que me interessam. Qualquer um pode berrar um com o outro ou sair batendo portas, ou só ir embora, mas aqui a conversa é em outro nível. Quero te ajudar a ser uma pessoa civilizada que não tem medo de brigar e sabe brigar.

Saber brigar significa:

– não ter medo do mal estar de uma discussão;

– ser capaz de continuar argumentando com lógica e coerência mesmo quando você irritado;

– ser capaz de continuar ouvindo o outro e levando em consideração o que o outro está falando mesmo quando você discorda ou está bravo;

– conseguir dissipar sua irritação ou raiva de forma cada vez mais rápida e eficiente;

– saber que se desculpar e fazer as pazes é fácil e gostoso.

Falar é fácil. Mas como é que se aprendem essas coisas?

Primeiro você precisa estar convencido de que não é errado discutir ou brigar. É claro que devemos evitar brigas e discussões fúteis (falou a criatura que já discutiu a cor do leite condensado), mas deveríamos ser capazes de discutir e brigar sobre tudo que é importante. Se é algo importante na nossa vida, se machucou, se continua machucando, se foi errado o que o outro fez – você tem que saber falar e eventualmente brigar. Esse é o passo mais importante: mudar sua programação mental de que sempre é errado brigar ou discutir, porque não é. A gente precisa entender que errado é sempre se omitir ou se anular.

Segundo: aja sempre com inteligência. Se você está lendo até aqui tenho certeza de que você é inteligente e se orgulha da sua inteligência, então use-a. Isso significa que você vai aprender a dominar as temperaturas, sua e do outro. Não podemos só conversar quando estamos sob condições ótimas, mas se você ou o outro estão irritados demais, também não sai nada. Todo mundo é O Médico e o Monstro. Não há diálogo com o Sr. Hyde. Você precisa trazer o Dr. Jekill de volta, mesmo que seja um meio descabelado e tenso. Técnicas:

– se o outro está se irritando e subindo a voz, você diminui o volume da sua, fala um pouco mais lentamente, pra deixar claro que você está adotando uma postura de apaziguar, mas não com um tom de quem está falando com retardado, não é pra provocação. É só um pouco mais lento e baixo, e com um tom de carinho e compreensão. Isso faz a pessoa perceber na hora que ela estava falando de forma alterada e em geral ela se envergonha e se acalma um pouco.

– a mudança no tom de voz também te ajuda. Se você estava começando a se irritar, ou já estava irritado, falar manso também te ajuda a te trazer de volta pra racionalidade. Falar de forma ríspida ou gritar tem o efeito oposto.

– você adota uma linguagem corporal amigável. Se incline, ou se aproxime, olhe-a nos olhos, se possível coloque a mão no ombro, ou suas duas mãos no ombro dela. Se é alguém com quem você tem intimidade você pode tentar abraçá-la, mesmo que ela não te abrace. O objetivo é mudar de sintonia. Se é uma pessoa próxima você pode falar “está tudo bem, sabe que eu te amo”. O objetivo sempre é não deixar a temperatura subir a ponto da pessoa se fechar e parar de racionalizar. Ou, se ela está nesse ponto, trazê-la de volta. O carinho e amor em geral têm esse efeito em gente desembestada.

– se a conversa é com alguém com quem você não tem essa intimidade, em vez de amor, carinho e abraços você diz que está tudo bem e faz algum elogio, tem o mesmo efeito. Minha diarista é ótima, mas é uma pessoa muito sensível a críticas. Sempre que eu preciso falar pra ela que algo não estava bom, ou que precisa ser feito de forma diferente, eu tenho que minimizar bastante o problema ou a repercussão, garantir que está tudo bem, que da próxima vez eu só peço que ela faça de tal forma. Senão ela surta, para de me ouvir e começa a fazer sugestões extremistas. Você pode dizer que é porque ela é só uma diarista com medo de perder o emprego. Mas muita gente age dessa forma: como se a relação com o outro fosse tênue, sempre sob o risco de ser demitido.

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Quando não brigar

Evite ter conversas complexas se as pessoas estão com fome, cansadas ou pilhadas com outros assuntos. Se você fizer isso elas vão descarregar em você coisas que você não merece. Mas se for inevitável, porque às vezes é inevitável, ou porque você não sabia que a pessoa estava com fome ou pilhada com outros assuntos, enfrente a discussão. Nessas situações, quando você fala e a pessoa overreact, eu pergunto se a pessoa está com fome, ou se teve algum problema durante o dia. Geralmente ela nega, diz que está tudo bem, o problema sou só eu enchendo o saco. Se é possível adiar a conversa, eu falo que a pessoa não está em condições de conversar e que a gente conversa depois. Às vezes a pessoa está tão pilhada que ela quer conversar, na verdade ela quer brigar com você pra descontar as frustrações do dia. Mas eu não quero brigar, não quero levar lambada por coisas de que não tenho culpa.

Essas situações eram recorrentes com o Cris. No geral a gente sempre discutia e brigava, mas quando ele acalmava eu podia jogar na cara dele que foi ele que quis brigar, que eu sabia que ele estava cansado e irritado com outras coisas e que descontou em mim e ele reconhecia que era verdade. Depois de um tempo, milagrosamente ele desenvolveu uma tolerância muito maior a fome e cansaço. Ou talvez ele tenha descoberto que aguentar a fome e cansaço era melhor do que ter que ouvir bronca minha.

Nem sempre uso a técnica da mudança do tom de voz, contato físico, frases carinhosas. Ou melhor… às vezes eu tento tudo isso, e não dá certo, daí eu passo pra técnica de destruição. Ou, quando é alguém com quem já briguei muitas vezes meu nível de tolerância é bem menor. Então eu sou xucra. Se o Cris banca o arrogante comigo, eu nunca sou compreensiva: eu solto fogo pelos olhos e pela boca, ou até largo ele falando sozinho, e ele entende que fez besteira.

Uns dias atrás briguei com uma pessoa querida, com quem tentei falar manso, abraçar, falar de forma carinhosa – e nada, a pessoa continuava na posição defensiva do “foda-se, fique longe, você não sabe o que eu sinto”. Então eu apelei, falei “ok. Você diz que não tem o que comemorar, que hoje é uma data que não significa nada. Então eu vou embora”. A pessoa querida era meu pai, no dia dos pais, e eu teria ido mesmo embora se não fosse pela minha mãe, que deu alguma bronca nele, não sei o que, e ele veio se desculpar. Quando contei pro Cris ele perguntou se tinha sido só golpe, “Você teria mesmo coragem de ir embora no dia dos pais?”, falei “teria. Ele ficaria puto e talvez passasse umas semanas sem querer falar comigo, mas depois faríamos as pazes. Mas o que ele estava fazendo era errado, não tinha outro jeito de eu demonstrar isso pra ele a não ser dizendo que eu ia embora antes do almoço”. Amo o meu pai, meu pai me ama, não é uma discussão que vai acabar com a gente, pelo contrário: engolir sapo é que corrói as relações. Não tenho medo de discutir com meu pai, de dar bronca na minha mãe, porque a gente se ama, eu sei do que somos feitos.

Várias vezes vejo situações erradas e falo pras pessoas que elas têm que falar com fulano sobre tal coisa, e me dizem “não podemos, vai criar uma situação desagradável”, e eu quero morder, bater. “Desagradável?”. Pelo receio de se sentir numa saia justa, desconfortável, você fecha os olhos pra alguma situação grave, que a sua intervenção poderia fazer diferença na vida de gente que não sabe se defender?

Reconheço que tem situações muito difíceis porque as pessoas com quem você teria que falar são cabeçudas. Você pensa nelas e sabe que é altamente improvável elas aceitarem a ideia de que deveriam agir diferente, ou você já tentou falar com elas e não adiantou. Nesses casos há pelo menos duas ações possíveis: o confronto de forma passiva, em que você fala e age professando seus valores – que contrariam os valores do outro, na frente do outro, mas sem falar que o outro está errado – e ele que ligue os pontos, ou então falando em particular com a pessoa afetada. Por exemplo, outro dia fiz um post defendendo os Youtubers porque num almoço a família do Cris estava debochando de Youtubers, blogs, etc. Eu não tinha a menor intenção de contar que tenho um blog, escrevo com frequência, recebo mensagens do tipo “obrigado por me ajudar a ver que não sou errado no mundo”, ou lembrá-los que o Daniel é gamer e acompanha diversos canais. Depois que a gente foi embora do almoço, fiz questão de falar pro Daniel que tinha achado errado os comentários no almoço, que você pode aprender muitas coisas, que tem muitos vídeos divertidos, que não é errado gostar dos Youtubers. E escrevi aquele post. Mas não falei e nem vou falar com a família do Cris. Simplesmente porque eles não querem saber.

E é por isso que raramente debato ou discuto alguma coisa com as pessoas, fora o Cris, o Daniel, às vezes alguma coisa com a família. O debate pela liberdade de fotografar natureza nos parques brasileiros foi uma exceção, uma campanha que me exauriu. Mas no geral o que eu sei é que as pessoas não querem saber. São raras as pessoas dispostas a ouvir, aprender, fazer perguntas sinceras.

Todo mundo sabe que o Daniel adora jogos, se eles tivessem o mínimo de conhecimento saberiam que quem adora jogos também assiste a um monte de vídeos no Youtube. Se eles quisessem aprender alguma coisa em primeira mão eles tinham a chance de ter perguntado pra alguém querido, da família, “por que você assiste aos vídeos? O que tem de legal neles?”, e ele poderia ter contado quantas coisas ele aprende e como ele se diverte. Mas quem está disposto a ouvir o outro e aprender algo novo que pode fazer você mudar seu ponto de vista?

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Em geral as pessoas só querem falar e fazer pose, não vale a pena discutir com gente assim. Mas se são as pessoas especiais, você tem que discutir e brigar sobre tudo que é importante. Não se omita, não tenha receio do mal estar ou de situações desagradáveis.

E quer saber mais? Sabe o que acontece depois do bom combate com pessoas queridas? Depois do bom combate vem as pazes. Depois da tempestade aparece um arco-íris duplo, com um unicórnio saltitante num campo florido. Aparecem coelhinhos fofos flutuando como se fossem pétalas de dente-de-leão. Porque depois do bom combate, em que você teve a coragem de lidar com um assunto difícil e espinhudo, mas que era fundamental pra ajudar uma criança a se tornar uma pessoa melhor preparada para a vida, ou uma conversa que fez você e seu parceiro se conhecerem melhor, vem a sensação de alma leve, coração radiante, dever cumprido, sobreviventes sortudos e abençoados de catástrofes. Seus laços ficam mais fortes, vocês se sentem mais unidos ainda, com mais amor transbordando.

Não estou exagerando. Fazer as pazes, eventualmente ter que se desculpar, dar um bom abraço são coisas pra lavar a alma, pra te deixar cantarolante e orgulhoso de si o resto do dia, às vezes por dias. Então escolha suas brigas, identifique os diversos casos em que não vale a pena brigar, mas com as pessoas especiais, as que você quer compartilhar sua vida com intensidade, as com quem você tem responsabilidade moral de ajudar a se tornarem gente: com essas brigue sempre.

 

Adendo: sobre o tal ouvir e aprender

Desculpem se não expliquei direito.

Minha amiga falou que percebeu que todas as brigas em que ela se envolveu é porque ela queria mostrar que estava certa, e que ela tinha dificuldade em ouvir e aprender.

Todas as brigas e discussões em que me envolvi também foram porque eu tinha certeza de que estava certa, e não tinham nenhum objetivo de ouvir e aprender.

Acho que as brigas e discussões têm o objetivo de expressar sua discordância de algo. Contar que você não gostou, não aprovou, que algo machucou, que o outro agiu errado, ou foi insensível, ou que está sendo tapado, egoísta, idiota, egocêntrico ou qualquer coisa do tipo.

Brigas e discussões servem pra você se expressar. E depois dessa escaramuça ou luta sangrenta, em geral você e a pessoa com quem você discutiu se conhecem melhor, se gostam mais ou no mínimo se respeitam mais.

Ouvir e aprender é algo que precisa de um estado de espírito muito peculiar, que é o de se abrir pro mundo. A capacidade de fazer uma pergunta sincera, na posição humilde de quem quer entender. Isso não acontece numa discussão. Um debate, por exemplo, nunca serve pras pessoas aprenderem e mudarem de opinião, nunca vi ninguém mudar de opinião num debate. O debate é um circo pra impressionar os expectadores. Todas as discussões públicas de que já participei nunca tiveram o objetivo de fazer meu oponente aprender algo, e sim de influenciar a opinião de quem está acompanhando o assunto.

A história que contei da crítica aos blogueiros e youtubers não era uma discussão, era small talk. Ninguém estava debatendo o assunto. O que lamentei foi que as pessoas presentes não sacaram que elas perderam a oportunidade de perguntar pra um fã “por que os Youtuber são legais?” — em vez disso ficaram falando coisas como “o sucesso dos youtubers é a expressão da mediocridade brasileira”.

Ouvir e aprender é algo realmente raro, mas as oportunidades estão por aí em qualquer lugar.

Engraçado que quando você topa com alguém de outro país, ou se encontra com uma pessoa que viajou pra um destino meio inusitado, é comum as pessoas assumirem a postura de ouvir e aprender, fazendo várias perguntas sobre costumes, comida, religião, motivos, família, ou por que eles fazem tal coisa.

Mas se você acha que os sucesso dos youtubers é uma expressão da mediocridade brasileira, e encontra alguém próximo e querido que é fã de youtubers, nem sempre você percebe que é a mesma situação, é a sua oportunidade de conhecer um outro país, uma outra cultura.

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Fiquei pensando nas coisas que eu critico, e por que raramente faço perguntas. Acho que é porque raramente considero algo inexplicável. Mesmo a minha consternação mais frequente, que é por que homens inteligentes em tantos campos, quando chega no feminismo agem como bestas idiotas, eu sei a resposta, e de qualquer forma não é o tipo de pergunta que dá pra fazer pra qualquer um, talvez só se a pessoa fosse melhor amigo. Como é que se pergunta “por que você acha que as coisas idiotas que mulheres fazem sob a bandeira feminista têm mais peso do que milhares de estupros, assassinatos e abusos?”. Ofensivo. Ele vai me responder o quê?