Você é mesmo um misantropo?

Já ouviu falar de introvertidos e extrovertidos? http://claudiakomesu.club/misantropos-tem-uma-nova-palavra-para-se-identificar-introvertido-mas-nao-no-sentido-de-ser-timido-leia-que-voce-vai-gostar/

Acredito que a maioria das pessoas que pensam em si como misantropas não são casos patológicos de não conseguir conviver com ninguém. Eu, por exemplo, tenho alguns amigos pra quem não falo dessa história de misantropia, e uma amiga querida não me deixa nem eu me chamar de anti-social. Ela falou “não, se você fosse anti-social, a gente não teria se tornado amigas, não teríamos conversado quando nos conhecemos. Você é uma pessoa de poucos amigos, é diferente”.

Você que está interessado em saber mais sobre misantropia, seja por se achar misantropo, ou por querer entender um misantropo. Você ou a pessoa não suporta ninguém, ninguém? Melhor ir pra terapia, talvez pro psiquiatra. Porque a não ser nos casos de pessoas que fizeram uma escolha espiritual de isolamento (e mesmo esses não se sentem sozinhos – eles puderam fazer isso porque se sentem muito próximos de Deus), para os outros é errado viver totalmente isolado.

O mais provável é que você, como eu, não é alguém que não suporta ninguém. Você é apenas muito seletivo na escolha das suas companhias e no uso do seu tempo. Você gosta de ficar sozinho, não se sente desconfortável com o silêncio ou a ausência de vozes. Gosta de ler, de pensar, talvez de escrever ou desenhar, de ouvir música. Exaspera-se em alguns agrupamentos sociais em que você não se sente conectado nem com as pessoas nem com os assuntos, então não seria melhor estar em casa, sozinho, fazendo tantas coisas prediletas?

A solidão misantropa não é realmente uma solidão. Se você estivesse sentado sozinho numa caverna, no escuro, sem nunca ter lido um livro, talvez, e mesmo assim não tenho certeza, talvez as memórias do que se viveu fossem o suficiente. E nos dias de hoje ninguém está realmente isolado. Estamos o tempo todo dialogando com o que lemos, assistimos, discutimos, refletimos, escrevemos. E com internet, então, acho que eu nem poderia dizer que passo o dia sozinha, porque quando escrevo um e-mail ou quando teclo com alguém, obviamente não estou sozinha.

Que a pessoa que mora com você, ou seu vizinho, ou alguém que mora perto, ou o colega de trabalho também seja a pessoa com quem você gosta imensamente de conversar é um tremendo golpe de sorte. Quer dizer, supondo que seus temas de interesse sejam diferentes do que discutir com entusiasmo os enredos de novela, as notícias de jornal, o resultado do futebol.

Não os estou desprezando. Há temas que formam um caldo comum, a maioria das pessoas terá informação sobre esses temas e é possível conversar com o outro sobre esses assuntos. O problema é: e quando nada disso te interessa?

Quando nada disso te interessa, a internet ajuda muito a encontrar outras pessoas. Tantos fóruns de discussão, tantas oportunidades para ler e aprender, ou só exercitar retórica e tentar se exibir, ou pra xingar e pra brigar. Não precisa nem ser fórum de discussão: pra quem quer discutir, só a caixa de comentários de um artigo qualquer ou de um post do Facebook pode render muito, se você é do tipo que tem estômago pra ler as maiores merdas, tanto na questão de falta de educação, quanto no quesito “argumento sem o menor sentido”, ou “argumento totalmente moralista e tacanho”.

De vez em quando você topa com uma pessoa sensata, com quem é um prazer conversar. Tente não perder contato com essa pessoa, é sempre algo raro.

Bom, mas aqui entra uma complicação. Não é possível viver apenas de fóruns de discussão e caixas de comentário. Não somos seres puramente intelectuais, feitos de ideias geniais e a vontade de debatê-las com honra. Pelo contrário, somos mamíferos e precisamos de contato físico e carinho. Somos humanos e queremos nos sentir apreciados e valorizados. Qualquer nerd sabe: queremos ser apreciados e valorizados não pelo o que somos capazes de escrever, responder, resolver. Queremos ser valorizados pelo o que somos como pessoas, uma pessoa inteira, o que inclui nosso corpo, nossa aparência, porque tudo isso também faz parte do que somos.

Trocar longas cartas ou e-mails, ou se jogar como o Wolverine num fórum ou em caixas de comentários supre alguma diversão. Mas quem consegue se sentir feliz e completo vivendo só disso, se esse for seu momento top de interação social?

Somos seres humanos. Não nascemos pra viver sozinhos. Um monge que fez voto de silêncio e isolamento não está sozinho, está repleto da sensação de estar conectado e imerso na divindade.

É verdade que evito festas e grupos. Mas tenho o Cris, que é alguém com quem posso conversar sobre quase qualquer coisa (fora alguns temas muito etéreos, como questões místicas ou bobas demais em que a mente dele foge pra outro lugar, e ele só fica lá em silêncio), e é alguém capaz de olhar pra mim e saber se estou bem ou não e me faz falar quando não estou. Tenho o Daniel, que é aquela alegria intensa de criança feliz e falante. Tenho meus amigos de cores diversas, pessoas que não encontro com frequência, mas sei que se eu precisar de qualquer coisa estarão comigo. Tenho encontros frequentes com meus sogros, tenho meus pais, meus irmãos. Tenho meu trabalho voluntário de divulgação do birdwatching e da natureza, que me rende contato com várias pessoas.

De forma alguma vivo isolada do contato humano. E talvez esse seja um dos motivos pelos quais posso evitar encontros sociais no geral: porque me sinto bem assim, com o que tenho.

Esta é a questão: você ou o objeto do seu interesse ou amizade é uma pessoa que está satisfeita com a situação atual? Basta entender que alguém que não gosta de encontros sociais não é necessariamente alguém infeliz e com distúrbios, pelo contrário. Talvez ela tenha encontrado seu círculo de contatos pela internet, temas culturais, rotina, conhecidos, pelo menos um amigo com quem ela pode contar sempre, e se sente completa assim.

Mas se a pessoa não está satisfeita, se se sente solitária, isolada… bom, acho que isso tem pouco a ver com misantropia, é o inverso. É carência, e a pessoa deveria ir atrás de conhecer gente e estabelecer relacionamentos seja de amigos ou namorado que resolvam esse vazio.

Misantropia não tem a ver com vazio. Quem se sente vazio precisa ir atrás das pessoas e situações que resolvam isso, incluindo tratamento com analista. Misantropia é se sentir tão pleno que você não precisa fazer o que a galera faz.

Importantíssimo: o misantropo não é uma entidade de luz auto-suficiente acima dos outros seres. Eu, por exemplo, só posso passar vários dias sem nem sair de casa porque tenho marido, enteado, todos os dias tem e-mails ou conversas. Tenho blog, que é um diálogo consigo. Tenho a fotografia, que é uma outra forma de linguagem. Aceito vários convites pra almoços, encontros, chá da tarde, passarinhada. Mas não sou alguém que está sempre procurando programas com outras pessoas, não acho micado um fim de semana que passa só eu e o Cris, em casa, cozinhando, assistindo seriados, escrevendo, namorando. E gosto muito de fazer passeios pra passarinhar sozinha, ou com as pessoas que a companhia é tão bom quanto estar sozinha, como os pardais-gigantes-dourados.

Vivemos num mundo, especialmente por causa de coisas como o Facebook, em que às vezes podemos ter a impressão de que se não estamos o tempo todo badalando, indo a festas, saindo com grupos de pessoas, casais de amigos, fazendo viagens e passeios, indo a programas culturais e restaurantes, então não é vida. Mas isso não é verdade. Há muita alegria e diversão na rotina caseira, há muitas coisas que você pode fazer sem precisar sair de casa ou estar num grupo. Não ter gente em volta e se sentir sozinho não é misantropia, é carência, vá atrás de companhia. Não ter gente em volta mas não se sentir sozinho ou vazio é misantropia, e não tem nada de errado nisso.

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