Você é feia. Mas não existe conversou, assunto encerrado

Você já deve ter visto o vídeo de Mark Gungor que explica a diferença entre os cérebros de homens e mulheres. Basicamente mostra que no cérebro do homem tudo fica compartimentado, e que a favorita é a caixinha vazia – os momentos pro homem fazer nada, pensar em nada, e que geralmente as mulheres não entendem. E mostra que no caso das mulheres, não existem compartimentos – tudo se conecta com tudo.

Minha internet está péssima, não consigo nem mandar mensagem no Facebook, mas parece que este vídeo aqui mostra:

Nessas repercussões do meu latido de esquilo, temos momentos assim. O Cris achando que se conversamos durante horas, então está tudo resolvido e assunto encerrado. Eu chateada porque a primeira coisa que ouço na manhã seguinte, depois de termos passado horas numa discussão feia, é uma frase rude quando eu fui acordá-lo 12h30 – porque ele costuma reclamar quando a gente toma o café da manhã sem ele (12h30… nas férias às vezes nossos horários ficam bem malucos).

Na manhã seguinte à manhã da patada passei um tempo ouvindo sobre as preocupações dele, questões sérias e angustiantes, eu sei… mas umas horas mais tarde, depois do almoço às 16h eu pedi pra gente conversar. Falei pro Daniel jogar um pouco sozinho, que voltaríamos em 10 minutos (claro que levou 50, e porque o Daniel foi lá nos buscar).

Em resumo expliquei que estava me sentindo pequena, sem importância. Que eu sabia que as preocupações dele são coisas sérias, difíceis, há anos lidamos com isso, e que eu acho que no geral sou uma pessoa compreensiva e que o apoia. Mas que nesses momentos, quando ele me machuca assim, eu não consigo deixar isso de lado e só pensar que ele tem preocupações sérias. Ele me falou que eu importo muito, mas que ele achava que nosso assunto estava resolvido porque a gente já tinha conversado. “É? Uma discussão que a gente teve dois dias atrás. Quanto você acha que é um tempo razoável pra que uma discussão desse nível esteja apaziguada? Algumas horas? Um dia?”, ele falou que achava que se conversamos sobre o ocorrido naquele dia, então em um dia tudo deveria estar de volta à normalidade.

Ai putaqueopariu. Os momentos em que a gente tem vontade de bicudar os homens honestos e burros que a gente ama, e suspiramos pelos canalhas malandros que sabem perfeitamente que não é assim que as coisas funcionam. Eu já expliquei isso muitas vezes, mas acho que o Cris se recusa a aceitar porque ele gostaria muito que o mundo fosse assim: você faz uma cagada, conversa sobre o assunto, e pronto, está resolvido instantaneamente, sem repercussões. Ele não que aceitar que tem ferida, tempo pra sarar, cicatriz, lembrança.

Os homens honestos e burros acham que conversou, acabou. Os canalhas, ou os honestos com um pouco mais de cérebro, entendem o funcionamento do cérebro feminino e a importância de rituais. Um presente com um cartão pedindo desculpas. Um jantar ou um passeio especial, em que de novo se pede desculpas. Qualquer coisa que demonstre que a pessoa não esqueceu ou já arquivou o assunto, que ela está pensando em você, tentando encontrar uma forma de diminuir sua dor, e isso faz com que as coisas sarem mais rápido.

Agir como se nada tivesse acontecido não ajuda a sarar. Ou perguntar num tom de voz frio e formal “você está melhor?” de longe, fazendo outra coisa, também é péssimo, se é só isso que você consegue fazer é melhor não falar nada.

Eu tenho guardado até hoje um bilhetinho que o Cris me escreveu uma vez, anos atrás, pedindo desculpas por uma vez que foi rude comigo e discutimos. Eu teria gostado muito de acordar no dia seguinte da discussão e encontrar um bilhete amoroso. Em vez de eu ter que acordá-lo 12h30, e levar uma patada.

As coisas estão se resolvendo. Não sinto mais a dor e ódio de antes. Verdade verdadeira mesmo é que fiquei pensando várias vezes nele me falando “porque a Tatá tem essa cara feia natural”, ou “a mulher ficou olhando tanto porque não entendia como o Daniel podia ser tão bonito, se ele fosse seu filho” – sim, ele falou coisas desse tipo, e tem coragem de dizer que é tudo brincadeira, no mesmo nível de “a Tatá não sabe fazer contas”, e que se eu fico chateada é só porque eu tenho esse calcanhar de Aquiles com questões da minha aparência.

Eu sei que eu tenho. Mas eu também sei que o que ele falou não se fala pra ninguém, muito menos na frente da família, dos pais dele, do irmão. Numa dessas vezes a esposa do irmão dele chegou a falar “caramba! Que é isso, Cristian? Vai dormir no sofá. Sofá, sofá, sofá”. Tinha meus sogros e crianças à mesa, e eu realmente fiquei sem reação. Mas talvez o certo fosse no mínimo falar no ouvido dele “você é um cretino filho da puta sem coração, vai tomar no seu cu, e vai ficar um mês sem sexo”.

Você é feia, as pessoas de Okinawa são feias e atarracadas então sua família é feia, você é feia, minha família é bonita. O Daniel sendo tão bonito assim nunca poderia ser seu filho, ou seja, minha ex-esposa é bonita, e você é feia. Sua amiga que tem a mesma idade que você parece muito mais jovem, caramba que surpesa descobrir que vocês têm a mesma idade, eu nunca imaginaria isso.

Claro que essas são as exceções, que 99% do tempo ele me fala que me ama muito, que sou o amor da vida dele, que tem muito tesão por mim, que não vive sem mim, que mudei a vida dele, que por minha causa ele é uma pessoa melhor.

Mas estou aqui analisando as coisas. E não vou comprar a história dos atenuantes. De que falamos muitas coisas em tom de brincadeira, e que essa era apenas mais uma. Que só caiu pesado assim porque eu tenho essas questões com a minha aparência. Que ele fala muitas coisas sem pensar, sem intenção de machucar, e que é imperativo que eu entenda que ele não falou com intenção de machucar.

Eu expliquei que isso é pior. Que pra mim é melhor pensar que tem algo podre dentro dele que faz com que desde criança ele goste de falar coisas pra machucar, e que ele quer resolver isso. Do que só pensar que ele é burro-idiota-cretino e que acha que não tem nada demais em falar frases como aquelas.

Você é feia. O Daniel é lindo e nunca poderia ser seu filho porque você é feia. Você tem essa cara natural feia, então é fácil pra você fazer caretas e ganhar o concurso de alce-feio. Doeu como o latido do esquilo. Mas eu estou lidando com isso, processando, e encontrando formas de me proteger, de ficar mais forte, de não deixar você me machucar mais assim. Você é o amor da minha vida, não tenho intenção de me vingar, mas não posso ter essa fragilidade, ainda mais com alguém que diz que sempre fala coisas sem pensar e que é tão chato que as pessoas não te entendam.

Você vai ficar de saco cheio e irritado de ter que ficar ouvindo ou lendo sobre essa historia. Não sei por quanto tempo. Ao vivo provavelmente não vou mais falar nada com você, mas vou blogar sobre o assunto sempre que der vontade, e você merece todos os xingamentos que eu escrever.