“Vai ter shortinho sim e se não gostar a gente vai de calcinha mesmo” 

Não sei se vocês já perceberam, mas o G1, com todas as falhas que um grande portal de notícias pode ter, é um site feminista. Tem um direcionamento nele. Sempre há espaço para as notícias sobre violências diversas contra as mulheres, e eles são capazes de fazer uma matéria legal como esta:

http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2016/03/dia-da-mulher-ativistas-comentam-hashtags-sobre-poder-feminino.html

Cinco feministas foram convidadas a falar sobre suas lutas. Uma delas é Ana Carolina Nunes, uma das criadoras da campanha contra o assédio no metrô de SP. Vocês já viram? É linda, fez aumentar o número de denúncias, e tem um cartaz como este:

assedio-4

A BBC fez uma reportagem bem legal contando da luta da Ana Carolina Nunes (24) e Nana Soares (23). Elas se mobilizaram, entraram em contato com o metrô, fizeram várias reuniões, enfrentaram o estranhamento e o machismo inerente à sociedade, e venceram:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151015_campanha_abuso_metro_rm

Também é bem legal ler e ouvir a Jéssica Tauane falando sobre o #vaitershortinhosim. “O Brasil é um país onde faz um calor desgraçado, e as meninas não podem ir de shortinhos porque distrai os colegas e professores?” ah vá, faça-me o favor.

A Jéssica também diz “e se não gostar a gente vai de calcinha mesmo”, e ri gostoso. Achei ótimo.

Muita gente reclamou nas caixas de comentários, falando que isso é uma indecência, um absurdo. Mas pra mim não parece descabido não. Os países desenvolvidos têm o No Pants Day. Em geral os críticos reclamam que é uma idiotice, mas não tem gente falando que é indecente.

Olha só: http://www.dailymail.co.uk/news/article-3393138/New-Yorkers-lose-trousers-15th-annual-No-Pants-Subway-Ride-took-place-worldwide.html 

Fotos dessa matéria do Daily Mail:

Digite “No pants day” no Google, é bem divertido.

Mas o Brasil é um país subdesenvolvido, com céleblos subdesenvolvidos. O comentário mais curtido da reportagem do G1 é dessa criatura aí:

 

Esse é o tipo de leviandade típica dos comentários brasileiros. A sensação é de que os caras são realmente muito burros, muito. Com certeza não leram nada da matéria, só passaram os olhos pelas fotos e se ofenderem por mostrar mulheres que não estão dentro do padrão de beleza da cabeça de bagre deles. Qualquer coisa relacionada com feminismo é pichada de feminazis.

Feminazi é o pessoal que fez um tribunal pra julgar caras, por picuinhas, e fizeram bullying em cima de outros caras obrigando-os a participar, sob a ameaça de que se não participassem eles seriam os próximos no banco do réu. Mas sabem o que as mulheres dessa reportagem do G1 defendem, e com isso foram tachas de feminazis e barangas?

– o direito de não ser bolinada no metrô

– o direito de ir de shorts na escola

– o incentivo a denunciar as situações de assédio

– o direito de não ser xingada e humilhada só porque seu cabelo não é liso, ou porque você é negra

Agora vejam o nível de resposta ou reclamação sobre as campanhas feministas, comentários colados da caixa de comentários do G1:

“- essa feiura gerou a revolta com os homens, eles não querem nem chegar perto delas…kkkk

– LESBICAS,, QUEREM SER HOMENS ,,, USAM O MOVIMENTO PARA PEGAR AS MULHERES.

– querem igualdade né dona feministas?! Então vamos lá… quando furar pneu não chame nenhum “homem opressor” pra ajudar, já que todos nós somos “estupradores” em potencial pra vossas senhorias… querem salários iguais?! Que tal trabalhar mais horas, trabalhar a noite, trabalhar em empregos perigosos e insalubres, assim todo mundo ganhar “adicional” de forma igualitária…

– Só vejo um bando de I N U T E I S que fazem mimimi por causas banais. Bom hoje homenageei minha querida esposa e também minha querida mãe no cemitério, essas sim mulheres que eu admiro.

– Essas feministas são iguais a Jandira Feghali, são feias mas vivem dizendo que sofrem assédio. Deveriam agradecer se alguém se interessar por vocês…

– Querem igualdade, mas entrar nas fileiras do exército para sujar a unha e o cabelo na lama ninguém quer…

– FIU FIU??? essas loca são tão horríveis que quando passam por uma obra os pedreiros VOLTAM A TRABALHAR!!!

– o hashtag do shortinho é de lascar, as meninas não querem sexualização mas querem andar com as coxas e metade da bunda de fora, aí eu pergunto, faz sentido? ou elas pensam que estão em um mundo de assexuados? fosse dessa eu escola eu abria petição pra ir de samba canção pra escola só de zoas.”

Eu até pensei em ir lá comentar também. Admiro muito quem tem coragem, mas acho que não consigo. É baixaria e ruindade demais. Tinha pouca gente defendendo, acho que as pessoas se sentem como eu, totalmente desanimadas em falar com gente tão tosca.

 

“Vai ter shortinho sim e se não gostar a gente vai de calcinha mesmo” parte 2

“Vestida ou pelada eu quero ser respeitada”, esse é outra frase da campanha das meninas que escandalizou o povo.

E quando você vê os comentários gerais é tão desanimador, tão desanimador… nos joga na cara o quanto o machismo está impregnado na cabeça de tanta gente, homens e mulheres, que falam sobre decência, atentado ao pudor, a importância de se respeitar regras, o direito do colégio em impor regras, como a educação brasileira degringolou, reclamam que as meninas de um colégio particular estão protestando porque sofrem fiscalização constante, têm que se levantar, esticar os braços ao longo do corpo, e mostrar que o shorts vai até a altura das pontas dos dedos esticados quando estão em pé, e se não estiver têm que trocar de roupa ou irem embora da escola, e em vez de protestarem contra isso deveriam estar protestando contra a queda de qualidade nas escolas públicas (juro que li isso também).

Um dos principais argumentos do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, é dizer que o problema é que os shorts curtos causam distração para colegas e professores. Sério.

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colegio-gaucho-vira-palco-da-revolta-do-shortinho-99jcc00cqqadzhakpiky2mrni

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O machismo e a violência e o abuso contra mulheres existem em todos os lugares Nos países desenvolvidos também tem violência doméstica, mas na vida pública há várias conquistas:

– em Nova York no verão as mulheres andam de shortinho sim, desses bem curtos. E ninguém nem olha.

– em vários países da Europa, especialmente esses em que o verão é curto, basta sair um solzinho e o pessoal vai pros parques e pras ruas, tiram a roupa pra tomar sol, as mulheres fazem top less e nada disso é indecente ou obsceno.

– e tem no No Pants Day.

Já nos países subdesenvolvidos, como nós, a mulher tem que estar sempre alerta para que nada do seu vestuário, comportamento ou palavras atice a cobiça dos tarados. E quando acontece, é sempre culpa da mulher, com certeza ela fez algo que provocou. Se um cara tira o pau pra fora e bate punheta do seu lado, como já aconteceu comigo enquanto eu comia um lanche no Mc Donald’s, ou com a moça que estava num ponto de ônibus e contou sua história no Chegadefiufiu, a culpa é sempre da mulher.

“Se você está andando sozinha à noite e ouve passos atrás de você, é um alívio olhar pra trás e ver que é uma mulher e não um homem”. Quer demonstração maior de mundo machista do que essa? E pergunte pra qualquer mulher se isso não é verdade.

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A mulher precisa sim, muito, ter o direito de mostrar a pele sem receio de ser estuprada ou assediada. Os homens precisam se acostumar a ver o corpo da mulher sem começar a pirar ou se masturbar só porque viram um pedaço da cocha, o início do contorno do seio. A gente precisa muito de um mundo menos uga-buga.

Quantos estupros acontecem numa praia movimentada? Tem um monte de fio dental, biquíni cortininha, muita pele exposta. Os homens vão lá se esfregar nas mulheres que estão tomando sol? Colocam o pau pra fora e começam a bater punheta no meio da areia?

Por que o respeito pela pele exposta não pode se estender pra outras situações? É só pele exposta, é só um corpo, é só coxa, todo mundo tem coxa, é só peito, toda mulher tem peito, porque é preciso ter tanta fantasia que envolve ações de violência?

“Vestida ou pelada quero ser respeitada”, as meninas estão certas. Muita gente reclamou da frase, disse que é indecente, obsceno, mas o fato é que nada justifica a violência contra a mulher. Quem discorda disso acha que se você encontrar uma mulher com pouca ou nenhuma roupa você pode fazer o que quiser com ela?

Um rapaz da equipe brasileira tetratacampeã de rafting estava me contando da viagem pra Indonésia. Um lugar com alto índice de estupros. A organização do evento pediu pra as mulheres não saírem sozinhas de jeito nenhum. E nas praias, os homens podiam usar shorts ou sunga, mas as mulheres só podiam passear usando roupas que as cobrissem inteiras, inclusive braços e pernas.

A gente precisa muito de movimentos e discussões como o #vaitershortinhosim.

Meninas, lamento muito que vocês tenham que ler e ouvir tanta bosta, tantas críticas idiotas, tantos comentários burros. Mas vocês são nossas heroínas. Obrigada por comprarem essa briga. Vai ter shortinho sim, e a gente tem que conversar sim sobre o controle que a sociedade tenta impor ao corpo da mulher.