Uma passarinhada não é feita só de passarinhos

Nossas lembranças são uma teia de associações. Somos mais ou menos influenciáveis, dependendo do quanto você é fresco.

Para temas mais primitivos, como paladar e olfato, é algo que você tem menos controle. Sua lembrança de um alimento raramente é uma lembrança de um puro sabor: geralmente ela estará associada com suas memórias de momentos importantes em que você apreciou aquele alimento. É um dos motivos pelos quais não se encontram equivalentes de seus pratos favoritos feitos pela mãe ou avó.

Uma experiência vivida, como um passeio, viagens, férias, também é composta por diversas associações. Você pode ter ido com o objetivo tal (fazer um curso, visitar um museu, conhecer um parque, fotografar aves), mas tudo que compôs sua viagem – trajeto, companhia, condições climáticas, alimentação, trilha sonora, momentos alegres ou tensos, tudo isso fará parte do seu mosaico de referência do que foi aquele passeio. E dependendo do quanto você é fresco.

Eu, uma flor de frescura – no mau sentido, sou altamente influenciável pelas pessoas presentes no meu sagrado momento de lazer. Claro, sou capaz de fazer um passeio passarinheiro só pelo social, para papear. Mas se estou indo para ver aves e fotografar, melhor só do que mal acompanhada. Tenho os guias em quem confio, tenho pessoas de quem eu gosto, mas ter alguém impaciente, listeiro, fominha no grupo é algo capaz de estragar tudo.

Sou capaz de colocar a harmonia acima de qualquer coisa, até acima dos avistamentos. Numa das viagens pra África, o Cris leu sobre um guia ornitológico bem recomendado, que ficava num dos campos. Achou que eu ia gostar da ideia, e combinou um passeio com o cara. Quando eu soube, (uma flor de frescura), chorei e pedi pra ele cancelar. Um ano em que eu tinha passado por muito estresse no trabalho, e estávamos lá, nas minhas férias favoritas, não só pelo lugar, mas pela imersão romântica e harmônica: só nós dois, nosso carro, nossos horários, nosso roteiro, nossos silêncios, nossa contemplação da vida selvagem.

Sei que é muita frescura, e que esse meu horror à gente é bem ridículo e às vezes quase patológico.

Mas vocês sabem o que são momentos perfeitos de contemplação, na companhia de pessoas que estão na mesma sintonia?

Este post é de 2012. Em 2014 encontrei um grupinho de pessoas assim, perfeitos. Já tinha feito passeios com muita gente boa, mas o que rolou com os pardais-gigantes-dourados é como se fosse prece atendida :o)