Uma autora agradecida

O que é a felicidade? Não vou entrar em nenhuma discussão conceitual, farei uma descrição de sensações físicas. Sem depender de nenhuma substância química, você tem alterações na percepção da luz: você olha ao seu redor, pra sua casa, pras pessoas, e tudo brilha de um jeito que é quase como se fossem aquelas imagens em slow motion nos filmes, mas sem qualquer apreensão de que o slow motion é sinal de que aquilo vai acabar.

Também aparece um calor morno irradiando de dentro do peito.

Seu corpo é leve, você tem disposição e energia, e também serenidade, paz de espírito.

Esse é o tipo de felicidade que tenho vivido, e hoje pensei que uma parte dela tem a ver com você.

Você me mandou um email que tinha como título “Um leitor agradecido”, mas sou eu que agradece.

Não é do seu tempo, mas talvez já tenha ouvido falar de um desenho animado que passava no Show da Xuxa, chamado A Caverna do Dragão. Um episódio em que roubavam os chifres dos unicórnios, e havia uma frase meio enigmática, provavelmente daquele velhote baixinho careca demoníaco, o tal Mestre dos Magos. A ideia de que o destino de um é o destino de todos, e no final essa frase ajuda-os a entender que se eles conseguirem devolver o chifre pra um dos unicórnios, os outros também vão recuperar.

Bom, com certeza esse conceito aparece com outras palavras, em referências mais sérias, mas é dessa imagem que eu gosto de lembrar quando penso que às vezes a gente só precisa de um sinal. Uma pessoa. Um acontecimento. Uma coincidência. Uma, só uma, e nossa alma será salva.

Você se deu o trabalho de procurar meu email. Eu sei que é fácil achar, mas todo dia vejo pessoas que são capazes de perguntar coisas que com uma linha do Google elas achariam. Não é só a questão do email: foi a decisão de me escrever, pra me falar de coisas pessoais e importantes.

Sua mensagem chegou num dos momentos mais tempestuosos pra mim. Faz 8 anos que sou birdwatcher, faz 6 anos que me questiono o tempo todo se sou mesmo birdwatcher (por não me identificar com a necessidade de lifers e badalação, e que tipo de birdwatcher não se importa com sua Life List?). Faz 4 anos que saí do trabalho numa consultoria econômica e dediquei muito do meu tempo livre pra divulgar o birdwatching, por acreditar que mais birdwatchers significariam mais pessoas defendendo a natureza. E faz anos que o tempo todo vejo sinais de que estou errada…

Nestas últimas semanas, (talvez você tenha passado os olhos em alguns dos vários posts aqui no blog), graças ao poder do Facebook ajudei a movimentar discussões com as autarquias que cuidam dos parques nacionais e estaduais do Brasil. Dezenas de horas escrevendo, panfletando, pensando em formas de influenciar as decisões, de fazer os gestores enxergarem que a população não pode continuar sendo tratada como infratores por princípio.

Uma das formas de fazer a decisão pesar a favor da liberdade seria se centenas ou milhares de birdwatchers se manifestassem. Mas eles não se manifestam. Como classe, como grupo, meus colegas são um bando de cretinos-acéfalos-idiotas-filhos-da-puta-calhordas-imbecis. Eu xingo. Ah, como eu xingo, todos os dias, quando passo pelo post do sr. Maretti e vejo que não há uma enxurrada de manifestações lá. Sei que milhares de pessoas, provavelmente mais de 4 mil, sabem que a discussão com ICMBio e Fundação Florestal está acontecendo. E menos de 100 pessoas apareceram no post.

Ok. Eu não sou ninguém. Sou uma misantropa metida que não faz social com ninguém, por que as pessoas se importariam com qualquer coisa que escrevo? Mas o fato é que muita gente compartilhou meus posts, e depois o próprio Reinaldo Guedes, o fundador do Wikiaves, escreveu uma convocação pedindo pras pessoas se manifestarem no post do Maretti. Quantos apareceram? Há até vários conversando dentro do fórum, mas menos de 5 foram ao post do Maretti demonstrar apoio público ao debate.

Desculpe pelos parágrafos compridos sobre esse assunto chato. É porque isso é o que tem me consumido nestas semanas. E eu tenho raiva, muita raiva. Fico pensando no best case scenario, em que as mudanças vão acontecer, e isso vai beneficiar meus colegas imbecis, tenho vontade de poder apontar o dedo pra um por um, dos que não se deram o trabalho de ajudar, e dizer “não, não… você continua sujeito ao guardinha que vai te exigir autorização pra fotografar… e você não vai poder publicar suas fotos também sem ter que passar por um calvário burocrático”.

Eu sou má, eu sei. Eu entendo que a gente precisa da participação de todos, que nunca faria sentido diminuir a quantidade de pessoas que podem ajudar na divulgação da natureza. Mas eu tenho raiva, e tudo que pode me consolar é imaginar situações surreais como essa.

Mas eu não tenho apenas raiva.

Além dos momentos de raiva, descobri que têm sido cada vez mais frequentes os momentos de me sentir bem feliz. Tenho uma amiga muito querida morando na Europa, que sempre me escreve sobre coisas pessoais e importantes que me enchem de alegria, de esperança pela humanidade. E também aconteceu você, Lucas.

No meio da massa burra, que não consegue reconhecer o que é um momento de ação política, em que poderíamos conseguir tanto com tão pouco, tão pouco, bastam uns minutos pra escrever uma mensagem no Facebook e mesmo assim você não faz nada, no meio dessa lama de gente que não entende nada sobre o significado de sermos seres que vivem numa sociedade

Apareceu você

Que foi capaz de me escrever com franqueza, sem máscaras, sem pose. E de coração.

Você foi meu chifre de unicórnio.

Eu continuo pensando mal dos meus colegas birdwatchers. Continuo olhando pra minha Intuos Pro e pra minha Silhouette Cameo, as duas zeradas, meus livros de artes plásticas, e pensando “logo, logo, minhas queridas, deixa só eu sair desse buraco onde me meti”. Continuo pensando que provavelmente não sou mesmo birdwatcher, mas que isso não é motivo para não agir numa oportunidade como esta.

Mas você me fez voltar a acreditar em unicórnios. Você existe, e eu volto a pensar que outros existem, que o mundo é muito mais bonito, mágico, misterioso, brilhante – do que eu sinto quando estou com meus pensamentos sombrios sobre a burrice dos meus colegas.

Você me ajudou a me reconectar com essa sensação de alegria grande, luz difusa linda, calor morno no peito.

Obrigada. De coração, obrigada.

 

  • Duas colunas
  • Celular
  • News
  • Alternative
  • Banner
  • Featured
  • Plain
  • Condensed