Um putaqueopariu pra todas as flores que foram enviadas, recebidas e entregues no dia das mulheres

sei que estou devendo respostas de emails, posts (aqui e no Virtude). Mas nesta semana saí pra passarinhar, aconteceram coisas mágicas que eu quero contar, mas e a necessidade de editar as fotos do passeio antes de escrever, antes de pagar as dívidas, antes de falar sobre magia?

Mais forte do que isso: e a vontade de poder escrever, aqui no club, um grande putaqueopariu pelas flores, fotinhos ingênuas e textos baunilha que circularam no dia das mulheres.

Participo de alguns grupos, recebi mensagens dos grupos, de pessoas, tentaram me entregar uma rosa no supermercado, não falei “putaqueopariu, enfia a rosa no cu”, claro que não, só falei “muito obrigada, moça, mas não posso levar, estou indo pra um lugar onde ela iria murchar (perto do meu ser), é melhor entregar pra alguma pessoa que possa cuidar bem dela”.

Putaqueopariu.

O Cris entende. De presente de dia das mulheres, logo depois que ele saiu me mandou uma mensagem contando que tinha dado nota 1 pra um motorista de Uber que xingou mulher motorista. E depois me contou como tinha ficado revoltado com o cartão da empresa de dia das mulheres, que tinha uma foto de uma moça loira num campo florido e alguma mensagem insípida, e que ia falar com o diretor da área como aquilo era antiquado.

ah, pode me chamar de feminazi, não me importa.

Só dói.

É só a dor de se sentir no palco, no centro de comemorações tão hipócritas, tanta cegueira e hipocrisia, tanto de homens como mulheres, eu vejo essas flores e mensagens bocós e só consigo pensar na quantidade absurda de notícias sobre mulheres que foram assassinadas, espancadas, queimadas, mutiladas, estupradas, assediadas, ameaçadas, xingadas.

Não me doem as minhas histórias, elas são tão leves comparadas com as das outras, e penso nelas, não doem mais — fora de vez em quando chorar pelo bullying por ser japonesa, mas isso não é coisa de machismo, não é por ser mulher.

Mas dói as histórias das outras, de tantas outras, e essa sensação de pesadelo, de como é possível a gente ter tanta consciência sobre o problema, e ao mesmo tempo tanta ignorância e descaso.

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Há algumas notícias boas pra comemorar o dia das mulheres

  • aquela que eu já postei, sobre o PSOL ter protocolado o pedido pra ampla descriminalização do aborto até 12 semanas. Sei que provavelmente não dá em nada agora, mas por algum lugar tinha que começar.
  • não participei, mas dizem que no carnaval de São Paulo vários blocos divulgavam mensagens contra assédio, que as mulheres se organizaram pra prestar atenção ao redor e se aproximar de outras mulheres que parecessem estar passando por algum problema. Dizem que um cara foi expulso de um bloco por assédio.
  • esta é mais antiga, mas também é boa: acho que foi na rede do CSGO, um jogador assediou uma garota de 15 anos, ficaram sabendo porque as mensagens dele vazaram de algum jeito, ele foi expulso, não pode jogar mais CSGO por mil anos.
  • a notícia que o Tinder vai expulsar usuários machistas e racistas. http://veja.abril.com.br/economia/tinder-diz-que-vai-varrer-porcos-machistas-do-aplicativo/

 

Dá pra combater machismo, sexismo, xenofobia. Basta a gente sempre falar que está errado, basta punir quem age assim. O mal se propaga na certeza da impunidade.

Só o que não podemos fazer é ignorar, fazer de conta que o problema não existe ou que é pífio, que há muitos problemas mais graves como a fome na Somália ou as pessoas que morrem de câncer.

Não vamos ignorar. Não vamos fazer de conta que a mulher é só a mais linda flor do jardim. Ignorar problemas graves é imoral, e os abusos que as mulheres sofrem, só por serem mulheres, são muito graves e absurdos.

Nos ajude. Não faça de conta que não existe problema.