Um colecionador obcecado e fanático de desilusões

“Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como o vício dominante da sua vida, pois então ele compreenderia, com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

E não são apenas as desilusões em relação aos outros ou às circunstâncias que deveriam importar. Quando descobrimos e assumimos as desilusões como caminho que nos aproxima de nós mesmos, estaremos ávidos por experimentar em que medida estamos desiludidos com nós mesmos: desiludidos sobre a falta de coragem e de honestidade intelectual, por exemplo, ou com os limites terrivelmente estreitos impostos aos próprio sentir, sentir, agir e falar. O que foi que esperamos e desejamos então de e para nós próprios? Que fôssemos ilimitados, ou totalmente diferente daquilo que somos?

Alguém poderia ter a esperança de, através da redução de expectativas, se tornar mais real e de se reduzir a um núcleo duro e confiável, estando imune contra a dor da desilusão. Mas como seria levar uma vida que se proíbe qualquer expectativa ousada e imodesta, uma vida em que somente houvesse expectativas banais, como a espera pelo próximo ônibus?”

Trecho do livro “Trem Noturno para Lisboa”, de Pascal Mercier

 

Teve filme com Jeremmy Irons e o diretor de A Casa dos Espíritos, lançado no final de 2013. Se não viu, não tente ver. Pelo menos não antes do livro. O livro não tem a elegância dos grandes autores, mas há trechos interessantes como  este. Imagino que se você ver antes o filme, o livro passa a ficar estragado pra sempre. Contaminação. Tem visual de novela da Globo!! Eu assisti a uns pedaços no youtube e me arrependi.