Um bater de asas de borboleta

Cada pequena ação que fazemos – mesmo que seja leve como uma batida de asas de borboleta, muda o cenário, às vezes muito mais do que imaginamos. Não acredito em destino irremediável, em fatalidades. Há vários caminhos possíveis entremeados como uma teia, e vamos pulando de um lugar pro outro.

Gandalf disse que não eram só as grandes ações heroicas que faziam a diferença, que cada pequena ação contava, e que cada vez mais ele acreditava que são os pequenos gestos, de pessoas comuns, todos os dias, que impedem que o mal triunfe. Esse é um pensamento bem reconfortante… ainda que às vezes eu me veja obrigada a pensar que o oposto também pode é verdade, pequenas ações que parecem muito tolas na hora podem ter consequências terríveis. Como twitar uma bobagem e ter sua vida destruída.

Em Madrid estávamos andando numa praça e de relance me pareceu que algo caiu do bolso de um rapaz na minha frente. Um papel da Hertz, o comprovante do aluguel do carro. Me senti tímida, desajeitada, e incapaz de pegar o papel e correr atrás dele pra falar em inglês ou português que ele tinha deixado cair o papel. E também não falei pro Cris. Só titubeei por alguns segundos, e de repente o moço tinha sumido na multidão da praça, assim como o papel.

No dia seguinte estávamos na Feira do Rastro, um mercado de pulgas que acontece desde a Idade Média. Não sabia bem como seria, mas o mercado de pulgas do Upper West Side de Manhattan é incrível, cheio de bijuterias legais e até gravuras de aves do século 19. Queria muito ver o mercado. Chegamos cedo, estávamos lá há menos de 5 minutos e de repente o Cris vem me dizer que perdeu a carteira. Olhamos em volta, no lugar onde descemos do táxi, mas nada. Tivemos que voltar pro hotel e passar 2h torturantes pra falar com banco e operadoras de cartão de crédito.

Pode me falar que é algo de culpa cristã, mas pensei que aquilo estava relacionado com minha incapacidade de correr atrás do moço e devolver o papel da Hertz. Eu falei pra mim que nem tinha certeza se tinha mesmo visto cair do bolso dele, que talvez não fosse dele, que as locadoras de carro nunca causam rolo, que ele nem ia precisar daquilo. Mas não muda o fato de que eu podia ter feito uma boa ação e inventei desculpas pra não fazer.

O filme Fora de Controle. Ben Affleck tem pequeno acidente de carro com Samuel L. Jackson, que está indo pra corte ter uma reunião sobre a custódia dos filhos. Ben Affleck está indo protocolar um papel de uma transação de milhões de dólares. Ele consegue um táxi, mas nega o pedido de Jackson pra dar uma carona pro tribunal, mesmo Jackson implorando e falando como ele não pode perder aquela reunião. Affleck naquela postura de “foda-se, eu não me importo”, e o que ele faz? Esquece em cima do carro de Jackson a pasta com os papeis que precisam ser protocolados. E daí já viu.

Em proporções bem diferentes e sinistras, tem a historia de um primo de uma prima que morreu num acidente de carro. Um garotão bem querido mas também mimado, uma vez ela me contou sobre um acidente de carro que ele tinha feito de propósito, só por diversão, porque ele tinha seguro, não se importava se aquilo ia causar transtornos pro outro motorista. No dia que eu soube da morte dele lembrei na hora da historia do acidente proposital, e me deu um frio no estômago de pensar que por algum motivo maluco as duas historias estavam ligadas.

Há muitas historias da mitologia, ou historias antigas e populares, ou mesmo contos de fada, em que tanta coisa acontece por um acaso. Heróis gloriosamente salvos ou torturados e em apuros porque ajudaram sem querer ou pisaram no calo sem querer de alguma criatura muito poderosa.

Não acho que precisamos viver noiados ou numa busca maluca de agradar todo mundo, mas acredito de verdade que cada pequena ação nossa pode ter consequências estrondosamente grandes, para o bem ou para o mal. É preciso saber quais são nossos valores, o que é importante, e andar sempre no fio da navalha. Não como se fosse uma penitência ou uma tortura, mas sim porque agir com justiça, honra, honestidade e bondade é algo a ser buscando incessantemente.