Truques da paquera – que tal sem truques?

Atrasada, eu sei. Podia ter pensado em escrever isso antes do carnaval, e talvez quem sabe este modesto post poderia ter ajudado a contribuir para a folia.

Bom, quem sou eu pra falar de truques da paquera. Logo eu. Casada há anos, apaixonada há anos, tão confiável que o Cris nem se importa se viajo só eu e um guia. E tenho essa cara séria, ou zen, ou de peixe morto, ou que causa desconforto – depende de quem olha, ou do meu estado de espírito.

Quem sou eu pra falar de truques da paquera?

Sou uma mulher que passou poucas vontades e tem poucos arrependimentos. Fiquei com vários caras com quem eu queria ficar. E com quem não fiquei, mas que eram importantes, a pessoa ouviu da minha boca, ou teve que ler uma carta minha, contando o quanto eu gostava dele, e como ele era importante pra mim.

Sou fiel de poder viajar sozinha, escrever sobre qualquer coisa, olhar sempre nos olhos do Cris. Fiel a ponto de uma vez a gente ter brigado e eu sonhei que ficava com um outro cara, no outro dia contei pra ele meio choramingando, e ele riu muito, e me falou que eu era uma boba. Sou fiel ao Cris e me mantenho fiel a mim, por poder sempre continuar externando meu carinho e admiração, por homens e mulheres – e deixando claro, espero, que não há nenhuma proposta sexual no elogio.

Nesse mundo maluco em que a gente vive, de vez em quando ouço histórias das cantadas mais mal sucedidas. Dessas que você leva a mão à testa e fala “Meu Deus! Por que ele/ela falou isso??”.

Por que as pessoas usam as abordagens mais bizarras pra demonstrar interesse por alguém? Alguns conhecidos acreditam que muita gente nunca saiu da 6ª série, e acham que o jeito de mostrar interesse por uma menina é colar chiclete no cabelo dela, esconder o estojo, falar que a blusa dela é feia. Entenda: todas as vezes em que você usa uma abordagem elaborada ou heterodoxa, é isso que você está fazendo.

Olha o exemplo: um cara que saiu correndo duas quadras morro acima, chegou meio sem fôlego, e foi perguntar pra moça, amiga de um colega de trabalho “eu queria saber: o que você tem no cabelo é californiana ou balaiagem?” Dizem que ele não é gay. Se você não é gay, que tipo de abordagem é essa?

Gosta do cabelo da moça? Gosta da moça? Veja o exemplo do Ralph Fiennes em O Paciente Inglês. Ele a sortuda da Scott Thomas dentro de um jipinho, ele contando histórias lindas sobre o vento no deserto – nomes do vento, um povo que declarou guerra ao vento etc, ela sorridente e feliz (mesmo eles estando em meio a uma tempestade de areia – quem não estaria, na companhia daquele homem?) e então ele estende o braço por trás do ombro dela e pega numa mecha de cabelo, com delicadeza, uma carícia.

A aproximação entre duas pessoas deveria ser algo sem truques. É uma dança, é claro, feita de movimentos delicados e lentos, que buscamos ser graciosos, e às vezes saem como tropeços ou pisões nos pés. Mas em geral é assim: um pequeno passo pra um lado, e você vê se a pessoa te acompanha. Se deu certo, você tenta um pouco mais. Se não deu certo, certifique-se de que seu movimento não foi discreto demais, vale tentar mais uma vez. Não deu? Deixa pra lá.

O que são os primeiros movimentos da dança? Olhar, encarar, sorrir. Encontrou receptividade?

Segundo movimento – aproximação física: você invade um pouco o espaço físico, um passo a mais do que a em geral desconhecidos deixam entre si, ou então se inclina um pouco na direção da pessoa, ou de vez em quando faz um breve toque no ombro, na mão, no braço. E repara na reação. A pessoa está relaxada e sorridente, e até retribui seu contato? A dança continua. A pessoa ficou tensa, não retribui nenhum dos seus gestos? Pisão no pé, volte, não toque mais até que ela demonstre que a opinião dela sobre você mudou.

O terceiro movimento é de quem se deu bem na dança preliminar. Se você vai partir pra beijos nas pontas dos dedos e nos pulsos, ou pra beijos avassaladores e pegação, depende de vocês.

E quando o primeiro encontro é por internet? Acho que hoje em dia a primeira ação é ver umas fotos da pessoa e decidir se você vai com a cara dela, em que se julga não só a aparência física, mas também o que ela externa por essas imagens. Cada imagem que postamos ou que deixamos postarem de nós é algo pra se considerar.

A maioria das pessoas tem um Facebook, ou um blog, ou um Flickr, ou um Twitter, e isso dá toneladas de informação sobre alguém. Muito pano pra manga pra conversar.

Interessou-se? Entra em contato e descubra se rola uma conversa, seja por bate-papo ou por e-mails. Pra ninguém achar que você é maluco de pedra, aja sempre com cautela* (mais informações sobre cautela no final do post). Comece com textos breves sobre assuntos seguros e inócuos, ou no mínimo uma abordagem inócua. Mas não seja insosso demais, não fale com a pessoa como se estivesse falando com um colega de trabalho ou um amigo de um amigo num café.

Provavelmente você terá pelo menos um pouco de informação sobre a pessoa, então comece falando pelos assuntos pelos quais a pessoa demonstra grande interesse, as pessoas adoram falar sobre as coisas de que elas gostam.

A outra dica é não parecer um serial killer: mesmo que você tenha estudado bastante o Facebook ou o blog da pessoa, e isso te deixou a par de muita coisa da vida dela, não demonstre que você já sabe tanto. Use seu conhecimento com sagacidade. As pessoas se expõem mas nunca esperam que alguém estejam lendo tudo atentamente.

Por exemplo, eu tenho blogs em que falo de quase todas as viagens que já fiz. Não seria ruim conversar com uma pessoa que me diz “você gosta de fotografia de natureza”, mas se a pessoa me citar de cor todos os lugares pra onde eu já fui, vou sair correndo.

Você inicia e alimenta a conversa falando dos assuntos de que o outro gosta, e veja o que acontece. E no geral, faça perguntas diretas e francas, que mostrem que você está prestando atenção na pessoa e quer saber mais sobre ela “por que você gostou de tal coisa?”, ou por que não gostou, ou por que escolheu x e não y.

Se você é quem está sendo conduzido na dança, lembre-se sempre de não ser um mala. Não é errado falar com profundidade, seriedade, dar uma resposta completa ou detalhada, ou falar apaixonadamente sobre um assunto, mas não emende um assunto no outro. Um diálogo é uma situação em que dois conversam. Um monólogo é quando só um fala. Um relacionamento supõe diálogo. Então pode falar, mas se toque de não ser longo demais, e sempre encerre fazendo perguntas para o outro, do tipo “sua vez”.

Como saber se está sendo longo demais? Atenção aos sinais do outro. Olhe pro outro e veja se ele está olhando pra você, sorrindo, tranquilo. Ou se parece inquieto, se está olhando pras paredes, se parece entediado.

Lembre-se também que um diálogo é uma oportunidade maravilhosa pra saber mais sobre uma outra pessoa. Muita gente trata um diálogo como um momento pra reclamar ou se exibir.

Se o objeto do seu interesse não tem nenhum conhecido pra apresentar, vai você se apresentar. Numa festa ou num bar (ou num torneio de xadrez, como diria o Dr. Reid) você precisa estar atento ao ambiente, não andar com jeito de quem tem um objetivo e está sempre ocupada, olhar em volta, não estar o tempo todo cercada por um monte de gente. Vai falar com quem te interessou, e dê a chance da pessoa falar com você também.

Aqui tem algumas dicas básicas: http://mdemulher.abril.com.br/amor-e-sexo/nova/expert-em-paquera

E fora que hoje é tão mais fácil essa história de abordagem entre desconhecidos. Com Facebook, Tinder. 20 anos atrás a gente só tinha e-mail, mas teve uma vez que me interessei por um moço lindo, culto, todo articulado, elegante (sim, ele era gay, mas não desmunhecado nem afetado – pode rir porque hoje eu sei que quando é muita coisa, provavelmente é gay) que estava fazendo uma matéria optativa comigo. Estávamos no laboratório de computadores, pensei “por que não?”, fui até onde ele estava e falei “oi. Você pode me dar seu e-mail?”. Dois segundos de surpresa, e depois um “Claro”. Fomos amigos por um bom tempo. Ele também é o famoso que convidei pra jantar em casa, mas eu não sabia cozinhar, estava toda atrapalhada na hora que ele chegou, e foi ele que fez o jantar. Quantas coisas a gente perderia se não fosse a cara de pau…

Tá. Olhar. Dança. Movimentos lentos. Assuntos de interesse comum. Abordagens seguras. Tratar a pessoa como alguém especial. Sempre atento à reação do outro. Não ser mala.

E se eu ficar nervoso e fizer tudo errado, e falar as maiores bostas, e depois ficar me remoendo e me sentindo o maior idiota do mundo? Let’s try again, uai. Entra em contato e fala “oi! Gostei muito de ter te encontrado, mas fiquei nervoso/a, e quando lembro das coisas que falei dá vontade de enterrar minha cabeça na areia. Será que a gente podia se ver de novo? Vai ser diferente, prometo”. Quem não daria uma segunda chance?

Não é tão difícil. Sem truques. Seja você, seja sincero, se mantenha focado na pessoa. Não se sinta sob um julgamento, trate a pessoa como você trataria um amigo, alguém de quem você gosta, e você verá as coisas fluírem. Se não rolar, não rolou, tudo bem. Mas tem que tentar.

 

PS sobre a tal cautela: Estou aqui falando das coisas sensatas e seguras, mas tenho que confessar que em geral não é esse o meu caminho. Tenho uma tradição missivista desde que eu tinha uns 12 anos, que foi mais ou menos a idade que eu também decidi que seria franca sobre o que sinto, em especial pras pessoas de quem eu gostava. Aos 15 eu já era o tipo de gente capaz de chamar o garoto na minha casa pra falar “eu sei que você não gosta de mim, que você gosta da fulana, mas preciso ouvir de você que a gente não tem chances juntos, pra eu poder te esquecer, em vez de ficar pegando qualquer pedaço do que você fala e achar que é uma indicação de que pode dar certo”.

Sou velha. Peguei o início do UOL e das salas de bate-papo quando estava na faculdade. Como disse um cronista de jornal de quem esqueci o nome, me apaixonei por garotos de frases elegantes e vírgulas bem colocadas, várias vezes. Sem nem saber o nome, sem nem saber se era homem ou mulher, sem nunca ter visto uma suposta foto.

Em pouco tempo perdi a paciência pra abordagens sensatas e seguras. Quando estava no jogo, logo passei a lançar assuntos mais polêmicos logo de cara, e ver qual era a reação do moço, e é o que eu faria se fosse pescar agora. Pra logo de cara excluir moralistas, tapados, inexperientes, desconfiados.

Não tenho paciência pra coisas insossas e inócuas.

Contando isso só pra dizer que se em vez de seguir a receita de bolo, você quiser improvisar, aumentam os riscos de não dar certo. Mas é bem mais divertido.

 

PPS: eu sei que tipo de filme é Truques da Paquera.