Todo mundo gosta do inesperado

Claro, estou falando do inesperado do bem, não do inesperado do mal.

Um amigo da faculdade se dizia encantado como nos filmes você está na sua casa, de repente tocam a campainha e é um amigo te convidando pra ir passear, ou a garota que você secretamente admira, mas não tem coragem de falar com ela, vindo te pedir ajuda. E que esse tipo de coisa nunca acontecia com ele.

Obviamente.

Moramos em São Paulo, acho que é impossível mesmo. Mas quando eu morava em Limeira às vezes meus amigos apareciam na minha casa, desse jeito mágico. Sem ligar, sem ter avisado que iam. A pessoa simplesmente toca a campainha da sua casa e passa a tarde com você ou te convida pra fazer alguma coisa.

Sei que hoje em dia deve ser impossível alguém não mandar um WhatsApp pra confirmar se a pessoa está em casa, se quer. Mas, acredite, a era pré-celular tinha suas vantagens. O inesperado do bem é algo mágico.

Meu semideus das frivolidades internéticas, com quem passei um bom tempo bodeada pela desuminanidade e machismo, mas que está passando, já me imagino vendo-o de novo e na diversão de tentar extrair diálogos humanos dessa criatura, nos conhecemos há… talvez uns 10 anos, mas nos aproximamos porque um dia ele decidiu me fazer um convite. A gente nem era tão próximos, mas ele simplesmente me escreveu e perguntou “quer vir pro lugar tal, ver a ave tal?”. Era uma ave bem rara, mas o lugar ficava na PQP, aquelas coisas que exigem um voo e mais 4h num ônibus. Primeiro falei que ia. Depois falei que não ia, mas pedi por favor pra ele me convidar pra alguma outra coisa mais perto, que eu iria. Um tempo depois surgiu a oportunidade de ir passarinhar com ele num lugar que exigia só um voo curto,  ele ia me pegar de carro no aeroporto, então eu fui. Foi bem divertido e com momento mágico — poder fotografar um beija-flor incomum maravilhoso nos últimos minutos de luz do dia, o bicho de frente pra mim, com as penas iridescentes, aquela luz de fim de tarde e uma revoada de aleluias.

No feriado de 2 de novembro eu estava em Manaus, eu e o Cris, indo passarinhar com um cara que eu nem sabia qual era o rosto. Eu só tinha uma noção de reputação de gente competente, trocamos alguns emails e eu gostei dele a ponto de falar “você pode ser meu guia no feriado de 2 de novembro?”, e ele podia, apesar de estar nos dias finais da entrega da tese do doutorado. Devo escrever sobre a viagem, mas posso dizer que também foi mágico. Curou meu trauma da Amazônia brasileira (viagem traumática em 2011), o cara é uma pessoa incrível com uma tatuagem linda no braço à altura das coisas que ele viveu. E teve momentos pros meus diálogos silenciosos com a Mãe Terra e pra pensar nas visões da ayahuasca.

Umas semanas antes eu tinha ido pra …. passarinhar e conheci outro cara super-legal, desses que você consegue passar dias conversando. Um dos momentos lindos foi saber que ele era um pai esclarecido. Ele tem uma filha adolescente, linda, conheci a menina. Ele é separado, a filha mora com ele, a mãe nunca foi presente, mesmo quando ainda moravam juntos. Quando a filha fez 14 anos ele a levou numa ginecologista, e pediu pra ginecologista falar pra ela sobre sexo e DSTs, ele estava junto. E depois falou pra ela “você entendeu tudo? Eu não vou ser hipócrita de achar que você não vai fazer sexo, todo mundo faz. Mas você tem que se cuidar. Se você pegar uma DST, vai ser doído, e é você que vai sofrer. Se você engravidar, você é quem vai ter que cuidar do filho. Não vou te proibir de fazer sexo, só quero que você seja responsável”.  Eu tinha contado pra ele que sou feminista, e adorei saber dessa história, falei que o mais comum é pai ter ciúme, fazer de conta que a filha não cresceu, e que ele merecia os parabéns pela visão feminista.

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sou uma misantropa na torre e com ticket dourado. Mas sei que as pessoas são lindas e há beleza em todos os lugares, e que não é difícil se conectar com isso.

É fácil sair da torre, ir pro mundo, e não é pra ir pra festas ou outros tipos de tortura, mas pra passar umas horas ou alguns dias na companhia de pessoas de verdade, com histórias de vida incríveis.

E qualquer um pode fazer isso. Ir pro mundo e conhecer gente que vale a pena. Não precisa ser o amor da sua vida, nem o crush, nem mesmo um amigo — essas coisas dependem de muitas variáveis posteriores. Mas tenha certeza de que é fácil conhecer alguém e ter algumas horas (ou no meu caso, nos passeios pra ver natureza) alguns dias de conversas bem legais.

Entra na vibe.

Faça propostas inesperadas pras pessoas, e esteja aberto pra receber propostas inesperadas. Deixa a magia entrar na sua vida.