Timidez parte 2 — como dar adeus

A diversão dos títulos sensacionalistas.

Desculpem, não é fórmula mágica de efeito instantâneo,  mas vou tentar escrever algumas ideias que podem te ajudar com o tchau querida pra timidez. Tem tudo a ver com auto-conhecimento e amor próprio.

No post anterior falei que uma das principais raízes da timidez é o medo de ser julgado.

E por que você tem medo de ser julgado? Provavelmente porque você se sente inseguro sobre sua aparência, inteligência, desempenho, capacidade de divertir ou entreter ou seduzir alguém. Se você é ruim em matemática, a prova de matemática é sempre um pesadelo, certo? É mais ou menos por aí.

Felizmente relacionamentos não são provas. Ou melhor, não há o que estudar. Basta ser você mesmo. Quando as pessoas se conhecem, elas estão sim avaliando e julgando uns aos outros o tempo todo, mesmo sem ter consciência disso. Qualquer ser vivo faz isso, usando critérios diversos. Mas não é motivo pra se apavorar. Apenas seja você mesmo, enfie algumas ideias na sua cabeça, e você vai ver como a vida fica mais fácil. As ideias são estas:

1 – “Não gostou de mim, não presta pra mim”

Há casos em que depois de um tempo, as pessoas se conhecem melhor e acabam gostando um do outro. Mas de forma geral, você não devia se esforçar pra agradar ninguém, pra impressionar ninguém. Somos o que somos. Não há motivo pra esforço, ou pra fazer de conta que você é o que você não é.

 

2 – Você não precisa parecer um modelo, mas aparência conta muito

O cara ou a garota não gostou de você porque você não tem cara ou corpo de modelo? Pensa bem, que tipo de criatura coloca esse critério como nota de corte? Não, você não quer se relacionar com alguém assim. Se esse foi o motivo da pessoa não ter dado bola pra você, sorte sua que você nem gastou tempo com ela.

Veja, aparência de modelo é diferente de ser apresentável ou atraente. Ninguém precisa estar dentro do tal padrão de beleza. Mas a visão é nosso principal sentido. Uma aparência desleixada dá indícios de muitas coisas negativas sobre você.

Oscar Wilde, outro misantropo, já dizia “somente pessoas superficiais não se preocupam com aparências” — mas entenda que aparência não é sinônimo de padrão de beleza. Só pessoas burras e toscas acham que o padrão de beleza imposto pela mídia é a única beleza que existe.

 

3 – Não tem nada de errado em não ter experiências, não conhecer como determinadas coisas funcionam. E não é preciso ter medo de falar com funcionários ou autoridades — ainda mais nos dias de hoje, em que tudo pode ser denunciado e todo mundo tem que se preocupar em agir corretamente

Só gente besta vai te maltratar ou te esnobar por você não saber como funciona o restaurante tal, a loja tal, o serviço tal.  Não há vergonha em não saber, e não tem nada de errado em perguntar.

Por exemplo, em qualquer restaurante que você vá, você tem todo o direito de papear com o garçom e pedir indicações. Fazemos isso com frequência. O Cris pergunta qual é o carro-chefe. Em geral o prato mais pedido tem sua razão de ser.

Você também nunca deve ter medo de pedir informações pra funcionários. Quer dizer, talvez os guardas da Rainha não respondam. Fora isso, não tenha receio. Uma vez estávamos na região da Paulista na época da Copa, tinha uma quadra cheia de policiais, minha amiga falou “Acho que é aqui o hotel onde está hospedada a seleção, mas não tenho certeza”, “pergunta”, “tenho vergonha”. Daí eu fui até o grupo de policiais “boa tarde, moço. Este é o hotel da seleção?”, “é sim”, “obrigada”.

Voltei pro meu grupo e falei “é sim. E lindos olhos verdes, você devia ter ido”.

Se você chegar numa loja, numa empresa, num lugar de serviços públicos, qualquer lugar que você vá, fale com as pessoas sem medo, sem se sentir inferior (ou superior). Se você faz uma abordagem polida, em geral você recebe uma resposta polida ou até simpática.

Se alguém te maltratar, saiba que a pessoa é que está agindo errado, não há nada de errado com você.

Infelizmente no Brasil ainda é comum as pessoas julgarem pelas roupas, principalmente em restaurantes e lojas. Uma vez saímos pra passear num sábado, de bermuda, sandália, e na hora do almoço decidimos ir pro Epice, um restaurante nos Jardins. Garçons com jeito de modelo que nunca olhavam pra nossa mesa e dava o maior trabalho para conseguir falar com eles. Nunca mais voltei lá. Mas veja, a sensação certa é raiva, não vergonha, porque quem agiu errado em nos desprezar foram os garçons.

Está um pouco tenso em fazer a abordagem? É fácil. Respira fundo e sorria. Sorrir relaxa milhões de músculos no seu corpo e muda sua aura. Como dizia minha professora da cura prânica, sorrindo você fica bem melhor.

Não se sentir tímida ajuda em qualquer situação. Uma vez eu estava em Paranapiacaba com duas amigas e um guia. A gente voltou do passeio e um dos pneus do meu carro estava murcho. Meu guia falou que podia trocar, mas eu não queria dar trabalho pra ele (e talvez eu tenha duvidado um pouco que ele sabia mesmo). Olhei em volta, escolhi o cara alto e forte e fui até ele “moço, furou o pneu do meu carro. Você sabe de algum lugar em que possam trocar pra mim?”, ele falou “eu troco”. E trocou com facilidade. Eu tentei dar um dinheiro pra cerveja, ele não quis aceitar. Teoricamente eu sei trocar pneu, e se estivesse sozinha tentaria. Enquanto o moço trocava o pneu ouvia a conversa da Aditi e da Nathalia (em inglês, a Aditi é minha amiga indiana), falando da minha tranquilidade, como eu tinha resolvido as coisas de um jeito tão fácil.

Quem tem boca vai a Roma. Não tenha receio de falar com as pessoas.

 

4 – Qualquer um tem chances com qualquer um. Os relacionamentos que valem a pena são aqueles em que você gosta de conversar com a pessoa, gosta da companhia da pessoa 

Nas relações profissionais, numa apresentação, sentir-se representando um papel facilita muitas coisas. Mas nos relacionamentos pessoais, de amizade ou amorosos, é simples assim: seja você mesmo. Mantenha em mente que não há nada de errado com você, que você tem chances como qualquer outro.

Você não parece um modelo? Você não é rico? Você não tem várias experiências internacionais? Você é ignorante sobre um monte de coisas?

Eu pergunto: você quer se relacionar com uma pessoa que acha que o padrão de beleza é a única beleza que existe, que acha que sua conta bancária é tão ou mais importante do que o seu caráter, ou que despreza quem não tem vivência internacional?

Imagino que não.

Então não há o que temer em buscar uma aproximação, em tentar conversar com a pessoa. Se vocês tiverem interesses em comum, o relacionamento vai avançado. Se não tiverem, você tentou e pelo menos não vai ficar te assombrando sobre o que poderia ter sido.

Na faculdade tinha um cara que fazia uma matéria optativa comigo. Ele era lindo, alto, cabelo ondulado, óculos fininho, todo culto e articulado, sempre fazendo contribuições boas pra aula. Na aparência eu era uma japonesa baixinha de cabelo curto, óculos, dentes tortos, roupas baratas. Por dentro eu me sentia uma mulher com chances como qualquer outra.

Um dia eu o vi no laboratório de computadores. Veja bem, isso foi há 20 anos, não existiam redes sociais. Cheguei perto dele e falei “oi”, “oi”, “me dá seu email?”. Ele fez uma cara de surpresa mas levou dois segundos pra falar “claro”, e escreveu num papel.

A gente começou a trocar emails, e ele se tornou um dos meus melhores amigos. Desses que você chama pra jantar na sua casa, ele chega, você está totalmente atrapalhada porque na verdade não tem nenhuma prática na cozinha, e é ele que faz o jantar.

Ah, e ele era gay. Um desses gays não afetados. Eu devia ter desconfiado que ele era limpinho a perfeitinho demais. Quando ele me contou, por email, sem saber bem como falar, eu já estava desconfiada “se o que você está querendo me contar é que você é gay, quero te dizer que isso não tem problema algum”, “ah, que alívio delicioso”.

Quanta diversão eu teria perdido se achasse que ele era bom demais pra mim, que eu não estava à altura dele, ou se ficasse com vergonha de ir pedir o email.

E hoje em dia é tãaaao fácil começar a papear com alguém por uma rede social. Não tem motivo algum pra não tentar conhecer a pessoa por quem você se interessou.

Espero que você tenha assistido a Hitch – Conselheiro Amoroso, com o Will Smith. Um ótimo filme, e é tudo verdade. Não existe essa de não estar à altura de alguém, e há sim muitas dicas que alguém experiente pode lhe ensinar, e também é verdade que você pode fazer tudo errado e ainda assim dar certo, principalmente se você estiver sendo autêntico, sendo quem você é.

 

5 – Saiba quem você é

Você é a pessoa que mais devia saber sobre você. Saiba quem você é, tenha orgulho de quem você é, e se você não tiver orgulho, mude o que você não gosta até você ter motivo pra se orgulhar.  Se conhecer e gostar de você te dão uma grande força interior, te tornam capaz de fazer qualquer coisa.

Veja: todo mundo queria ser rico. Mas infelizmente esse é o tipo de coisa que você não muda com facilidade. Mas não ser rico não é motivo pra você não gostar de você, ou pra alguém não gostar de você.

Já mentir, não assumir erros e deixar outros levarem a culpa, falar mal de amigos, fazer de conta que você sabe o que não sabe, que viveu o que não viveu, ou maltratar as pessoas, especialmente quem não tem capacidade intelectual ou física de se defender, apoiar discursos que incentivam posturas de segregação e ódio, tratar com leviandade questões sérias como a violência contra a mulher, o drama dos refugiados, a destruição da natureza — esses são motivos pra não gostar de si ou dos outros.

Você tem que saber quem você é. Saiba de cor. Escreva sobre quem você é. Descreva-se. Pense nas suas qualidades, seus defeitos, seus valores.

 

6 – Não ser tímido não significa ser extrovertido

Eu não sou tímida. Mas também não sou extrovertida. Sou séria, quieta e reservada, mas não sou acanhada. Quando preciso ou quero falo com quem eu quiser, interajo com quem eu quiser.

Deixar de ser tímido não significa se tornar uma pessoa extrovertida, não quero que você mude de personalidade. Meus textos e incentivos são sempre a mesma historia: um desejo de que as pessoas assumam o controle das próprias vidas, da própria historia, que elas se sintam no comando e que atuem pra ter uma vida mais plena. Que suas dores sejam porque você tentou e não deu certo, não porque você nem tentou porque achou que não era capaz ou digno de algo ou alguém.

Procurando uma imagem do Hitch pra capa do post, achei este quadrinho:

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Num relacionamento amoroso ou de amizade é essencial ser autêntico, nunca tentar se passar por quem você não é. A timidez que te paralisa não é algo legal, ninguém devia ter medo ou vergonha de falar com os outros.

A frase do Will Smith me dá um certo nó na cabeça porque eu fiquei pensando “se você é tímido, e continuar sendo tímido, você não faz nada, você não age porque é tímido”. Quando você age você venceu a timidez. Mas pra vencer a timidez não precisa ser um extrovertido. O que faz sentido pra mim é “se você é tímido, vença a timidez e aja, mas sendo quem você é, sem precisar agir como se você fosse outra pessoa”.

 

Dúvidas, perguntas, conselhos? Escreva pra mim. Meu email é banal como o vento.

 

Adendo – Quem é sociopata enrustido???

Olha o verbete da Wikipedia sobre timidez:

[terceiro tipo] “Timidez “proposital”: um termo que designa a misantropia. Neste caso a timidez vira um “Sociopatismo enrustido”. Seria um radicalismo na timidez, `isolação social é pouco`. Um tímido legítimo tem vergonha de si mesmo, um misantropo tem vergonha da sociedade e por isso não se socializa. Alguns misantropos querem ser antissociáveis; então, tenha sempre paciência ao conhecer algum.”

Só a preguiça me impede de consertar isso. Eu teria que fazer alguma pesquisa pra escrever algum texto mais consistente pro verbete todo. O pior é digitar “sociopata enrustido” e ver o verbete multiplicado por aí, queimando o filme do termo misantropo.

É verdade que o verbete tem o tal disclaimer “Este artigo ou secção contém fontes no fim do texto, mas que não são citadas no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações.”, mas está na Wikipedia e é copiado e citado, sem nem falarem a fonte.

“Alguns misantropos querem ser antissociáveis; então, tenha sempre paciência ao conhecer algum”?? Que tipo de afirmação é essa? Não há misantropos que querem ser antissociáveis e outros que não querem: ser misantropo significa não gostar de oba oba e agrupamentos, e escolher com bastante cuidado quando e com quem você vai socializar. Quem a gente gosta, encontramos sempre. Multidões e small talk a gente passa.

“Tenha paciência ao conhecer algum”. Meu Deus. Paciência pra quê? Pra ver se aparece a cura misantropa? Se o misantropo se interessou por você, gosta de você, ele sempre vai querer te encontrar, como um amigo normal (e talvez mais fiel, mais querido). Se ele não gostou não tem o que você fazer.

Você se interessou por um misantropo? Você tem que dar o melhor de si para demonstrar que há assuntos em comum, que vocês têm sobre o que conversar. Mas é uma questão de se mostrar e dos santos baterem, não de paciência. O misantropo te vê e te analisa bem rápido. Sua aparência, o que você quer parecer, o que você fala ou deixa de falar. Ele sabe muita coisa sobre você logo de cara. Ele decide se quer se relacionar com você ou não. E se ele não quiser, não é paciência que vai mudar isso, é só se você mudar.

Paciência com misantropo é algo totalmente inútil. Não tenha paciência com misantropos. Somos o que somos e não temos intenção de mudar.

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PS: Quem não me conhece ou não viu alguma foto minha por aí deve ter ficado curioso, então respondo: não fiz a cirurgia que serra seus ossos pra te dar uns centímetros a mais. Mesmo que fizesse, continuaria sendo baixinha 🙂 Ainda sou uma japonesa baixinha que usa roupas baratas. A diferença é ter deixado o cabelo crescer, ter operado a miopia e não precisar mais de óculos, ter ido ao orto e alinhado os dentes. E usar roupas baratar por escolha. 

E olha só, descobri que quando você digita meu nome na pesquisa de imagem do Google a maioria das fotos que aparecem na primeira leva de imagens são minhas. Fotos de natureza ou coisas do blog. Mas também minha pobre entrevista pro Clicando e Andando em que estou gorda e com cabelo do Cebolinha. O lado bom disso é os leitores poderem pensar “essa criatura é assim e não tem medo de nada, pode falar com qualquer um, e antes de casar se relacionou com vários caras e não passou vontade. Por que eu deveria ter medo?”