The mask you live in

The mask you live in, documentário no Netflix, indicação da queridíssima-amada Juliana Diniz. Se você tem um pingo de interesse antropológico na raça humana, precisa assistir. A Ju foi humilde e falou que todos os pais de meninos deveriam assistir, pra ajudar a refletir sobre a forma como educamos os garotos. Mas como eu sou megalomaníaca, expando a recomendação. Digo que se você tem algum interesse em refletir sobre sociedade, violência, estupros, suicídios, você precisa ver.

É um documentário que analisa a sociedade dos Estados Unidos. Eles têm aspectos culturais típicos, como a questão dos esportes e das irmandades, mas pra mim encaixa bastante na realidade brasileira. A imagem do que significa ser homem, as mulheres como objetos, a ausência de diálogo entre os homens a partir de uns 15 anos, e que às vezes segue pela vida toda. Eles não falaram isso, mas suponho que tem a ver com a homofobia, o grande medo de você ser visto tendo uma conversa séria, íntima e intensa com um outro garoto, e serem taxados de bichas.

O documentário intercala depoimentos de psiquiatras, terapeutas, educadores, pessoas comuns vítimas de violência, um grupo de estudos numa prisão para homens que pegaram perpétua, um grupo numa escola pobre num bairro pobre e violento em que um professor ativista monta grupos para conversar com os garotos sobre violência.

O Brasil tem cerca de 58 mil assassinatos por ano, 4.700 de mulheres. Temos 47 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, o que faz com que esse número possa ser até 10x maior (nos casos notificados, 85% é de meninas, 70% de crianças e adolescentes –  um adulto denuncia. Imagino que quando acontece com uma mulher adulta, é comum ela decidir não notificar por medo e vergonha). E temos uns 12 mil suicídios por ano, dos quais uns 9 mil são homens que se matam (o país campeão de suicídios é a Índia, com 258 mil suicídios por ano, dá pra imaginar?).

Tanta violência. Na maioria dos casos cometida por homens. Homens contra homens, homens contra mulheres, homens contra si mesmos.

Depois de assistir ao documentário, tenho mais certeza ainda de uma coisa: a polícia moral, incluindo seus inúmeros representantes em formatos religiosos, causam um mal incomensurável à espécie humana.

Como falei, o documentário não fala isso diretamente, mas diz que uma forma fácil de provocar um bando de garotos é perguntar “quem é a menininha do grupo? Quem é a bichinha do grupo?”, e esse é um pavor que vai permear sua vida inteira. Você fará de tudo pra não ser identificado como o viadinho do grupo, inclusive parar de andar com garotos que antes eram seus amigos, mas que agora sobre quem paira o rótulo de viadinhos, e começar a praticar esportes másculos, ir a festas, beber muito, comer todas as gostosas que conseguir pra poder se vangloriar pros seus amigos. Se tornar um babaca. Se matar.

Nos Estados Unidos foram 40 mil suicídios em 2013. 31,8 mil homens e 8,8 mil mulheres. A estimativa é de que para cada suicídio bem sucedido, você pode contar 25 tentativas mal sucedidas.

Qual a relação das religiões com esse rio de sangue na forma de assassinatos, estupros, suicídios?

Repressão sexual. Mesmo nos países desenvolvidos em que os gays têm tantos direitos, o fato é que na maioria das escolas as crianças sobrem bullying se não se encaixam nos padrões. Chega na adolescência os hormônios ativam o interesse sexual mas sexo é um assunto sujo que você aprende vendo pornografia na internet – onde há um predomínio de encenações que envolvem violência.

Mesmo nos países desenvolvidos, há um pavor de você ser criança ou adolescente e ser taxado de bicha, viadinho. E provavelmente esse é o motivo pelo qual aos 14, 15 anos, os garotos perdem a relação de intimidade e confiança que tinham com os amigos. O psicólogo do documentário diz que entre os 10 e 14 anos você vê muitos grupos de garotos andando abraçados, rindo, mas a partir dos 14 isso acaba. E se alguém achar que vocês são viados?

Os garotos não têm mais com quem conversar. Muitos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, não têm uma figura paterna. No Brasil 37% dos lares são chefiados por mulheres – o que significa que não há nenhuma figura masculina fixa e estável para ser apontada como chefe da família.

O que nossas crianças e adolescentes têm como modelos do que é ser mulher, ser homem, e como as pessoas se relacionam?

Estamos mal. Não que a gente tenha piorado, pelo contrário, na história da humanidade a questão de direitos, tolerância e respeito à diversidade tem progredido muito – na perspectiva histórica. Mas ainda estamos longe de um cenário ideal, e a grande prova são os inúmeros casos de violência.

Um dos especialistas do documentário comenta isso: que até agora, a questão do gênero não tem sido abordada na análise da violência. Como se não importasse. Mas o fato é que historicamente e até hoje a maioria dos assassinatos, assaltos, espancamentos, estupros e suicídios são cometidos por homens. Isso não é a prova de que há algo muito errado no molde do que é ser homem?

O documentário tem vários trechos pesados e doloridos, principalmente pra quem tem revisitado os quartinhos fedorentos da infância. Tem alguns trechos que não consigo lembrar sem chorar, como aquele em que o pugilista de cabelo raspado conta que decidiu escrever uma carta para o pai (um traficante ausente que quando não estava na prisão espancava rotineiramente a esposa e os filhos), mas por algum motivo quis mostrar para o professor de redação antes de enviar. E o professor não tinha nem terminado de ler a primeira página e começou a chorar, chorar, e falou “eu te entendo tão melhor agora… essa sua necessidade de ser tão perfeito em tudo. Eu preciso te falar ‘você é bom o suficiente’”. Quanta gente não daria a alma pra ouvir dos pais “você é bom o suficiente”.

Mas também há vários momentos ensolarados, principalmente do rapaz, um pai solteiro (a mãe não queria a criança, ele assumiu), um jovem negro de sorriso lindo, que explica que tinha um pai ríspido e violento, e que ele não sabia bem como se relacionar com o filho, o que fazer, como falar, mas que começou a estudar muito, ler muito. Mostra os dois caminhando juntos, o garoto tem uns 6 anos, olhos doces, esse rapaz conta de uma vez que o filho falou “pai, eu sou sensível”, e ele disse “ok… vou tentar entender o que é ser sensível”, e o filho sugeriu eles criarem uma caixinha de recados em que eles podiam falar dos sentimentos deles, e eles passavam a semana deixando bilhetinhos um pro outro, e todo domingo eles abriam e liam juntos. O menino leu uma mensagem de carinho, mas imagino que também valia você colocar mensagens quando você ficou triste ou bravo.

O final do documentário também é emocionante, com um dos participantes do grupo de estudos dos caras que pegaram perpétua contando que antes ele vivia sempre com raiva, mas que agora que ele conseguia falar dos sentimentos dele, pela primeira vez ele se sentia uma pessoa completa.

Assista, vale a pena.

 

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/09/brasil-e-o-8-pais-com-mais-suicidios-no-mundo-aponta-relatorio-da-oms.html

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/04/10/brasil-tem-11-dos-assassinatos-do-mundo-diz-onu-norte-e-nordeste-lideram.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/10/08/brasil-registra-585-mil-assassinatos-em-2014-maior-numero-em-7-anos.htm (585 mil é 58,5 mil)

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/11/estudo-diz-que-brasil-tem-em-media-13-mulheres-assassinadas-por-dia.html

http://lostallhope.com/suicide-statistics/us-methods-suicide

https://afsp.org/about-suicide/suicide-statistics/