The first stranger in a strange land – ainda nas reflexões sobre viagens – parte 2

Por que você viaja?

“For my part, I travel not to go anywhere, but to go. I travel for travel’s sake. The great affair is to move.” – Robert Louis Stevenson

Pro Cris, tem muito a ver com distâncias e movimento. For travel’s sake. Eu pensei que pra mim tem uma grande relação com beleza, penso que meu principal motivo de viajar é para ver belezas. Mas é claro que não são belezas no estilo turístico consagrado e gasto, um terreno baldio pode ter belezas na forma de insetos, flores silvestres, aves. Mas concordo com o Cris que a ideia da distância contribui para a aura da viagem, é mais difícil dar o devido valor a coisas que ficam perto demais de onde você mora.

O Cris acha que a frase do Stevenson sintetiza muito do que ele sente, e do que conversamos sobre viagens durante a viagem pra Argentina. Eu achei uma frase pra mim também, que não tem relação com a beleza, mas sim com outro aspecto que adoro das viagens: querer me sentir o primeiro estrangeiro numa terra estranha.

“I wanted to be like Lewis and Clark, like Marco Polo, like Neil Armstrong the first stranger in a strange land”. Do livro Illustrated Journey – Danny Gregory (uma coletânea de sketches e pensamentos de diversos viajantes. No Kindle Unlimited)

Como eu gosto disso. De ir pra um lugar e poder olhar pra tudo com olhos antropológicos, ou então pra um cenário ou bichos e esquecer das pessoas ao redor. The first stranger in a strange land. E nem preciso do The first, só de me sentir um estranho na terra estrangeira já é uma delícia.

Não totalmente estranho, não totalmente estrangeiro. Mas o suficiente para poder olhar com admiração e carinho os costumes dos povos, tanto bárbaros como romanos. E também um certo senso de mortalidade, finitude, efêmero. Olho pra pessoas que provavelmente nunca mais verei na vida, lugares para onde talvez nunca mais volte.

Viajo pra ver belezas, pra reafirmar o quanto o mundo é grande e diverso. Mesmo sendo o tipo de gente que até hoje nunca teve muito interesse em conhecer culturas locais, pra quem as viagens são principalmente pra conhecer natureza – ainda assim, qualquer lugar oferece oportunidades para se sentir o stranger in a strange land.

A diversidade de tons de pele, línguas, roupas de Nova York… o japonês tocando alguma suíte pra violoncelos do Bach na estação de metrô. As vozes femininas de funcionárias do Kruger, cantando algo que talvez fosse uma canção de amanhecer, ou o tom de voz com que o homem me perguntou “Where’s your husband?”, e não era cantada, era bronca por eu estar viajando sozinha. No Sul da França a alegria de ter que passar no queijeiro, no salumeiro, na padaria, na frutaria e na adega, só pra poder fazer um piquenique, na Patagônia o vazio, tanta terra, tanta beleza, e se perguntar “onde estão as pessoas?”, quem vivia aqui, por que agora só tem esses hotéis? No Peru minha primeira refeição sólida, depois de ter quase rachado de dor de cabeça por causa da altitude – um frango com arroz, ervas, castanhas, delicioso, comido frio de uma marmita, num salão de paredes cor de rosa e teto baixo, onde vários locais também pagavam só pelo uso da mesa. Mesmo num lugar como o Uruguai, ser a pessoa com roupas de gringo velho, chapéu, câmera grande, às 6h em Punta Del Este, em busca das aves da beira da praia, enquanto tantas pessoas bonitas voltavam da balada. Na Argentina se sentir tão feliz no banho de cachoeira, mas não gritar “Uhu” de braços abertos e nem ir pra ponta do barco, pra tirar foto com as cachoeiras ao fundo e fazendo joinha. Estar em Las Vegas e não querer aproveitar o tal parque de diversão pra adultos, e sim as aves de regiões áridas, me sentir em comunhão com pardais do deserto, sentada na areia, vendo-os forragear. Andar de bicicleta em Paris e se distrair com o cenário, passar por um farol que estava verde para os carros, cinco faixas, não levei nem uma buzinada, só me esperaram passar.

E nem precisa ser em outros países. Outros Estados, outras cidades, todos os lugares oferecem oportunidades para caminhar se sentindo um viajante espacial muito privilegiado. As pessoas se exercitando ao redor da praça em Maringá. As famílias na rua do Porto em Piracicaba, num domingo. As ruas estreitas de paralelepípedos de cidades pequenas, principalmente se for em algum lugar de Minas Gerais. O interior de São Paulo tem entardeceres incríveis, com cores que não parecem reais. Brasília é uma cidade que desceu de uma espaçonave, plantaram os prédios lá, esqueceram de desinfestar antes. A visão da praia de Natal à noite, o vento nas palmeiras, o vendedor de CDs piratas na rua tocando tantos rocks bons e vestido de travesti, com perucona vermelha pra chamar mais atenção. Um fim de dia na Praia de Bertioga em meio a um mundo que de repente ficou lilás, azul-marinho, cinza, rosa pálido. Navegar pelas águas de um lugar que talvez não exista mais daqui a um ano, o Tanquã. Carnaval em São Luiz do Paraitinga, que multidão de seres estranhos pulando e suando tanto e, no bloco do Juca Teles, lá estávamos nós também seguindo o carro de som. Uma praça bonitinha numa pequena cidade do Tocantins, era ou Araguacema ou Caseara, fazer um brake pra tomar sorvete, eu não quis experimentar os de frutas locais, fui de algo como chocolate. Ou estar em Jacutinga – MG num lugar com ótima comida caseira, um bar no meio de uma rua de terra, parada de caminhoneiros, a comida servida em tigelas enormes, que espero que voltassem pro tacho depois ou seria muito desperdício. Estar numa pousada no Pantanal brasileiro e ter que ouvir uma briga de duas mulheres por causa de uma garrafa d´água no quarto vizinho, mas também circular pelos rios e topar com o martim-pescador-da-mata, e o Geiser conseguir que todo mundo pudesse fotografar. Em Monte Alegre do Sul uma pousada com tantos beija-flores nos bebedouros, e aquela comida de fazenda com sabor de tudo-colhido-hoje. Em Glaura ser incapaz de não ficar virando pra trás pra olhar o homem que cantava ao vivo no nosso pequeno restaurante, e que depois fui comprar o CD. Vários covers de músicas famosas, voz poderosa, mas que provavelmente nunca será famoso. Início do dia em Itu, às margens do rio, maitacas pousadas, reparar nos vários bancos e mesas de pedra, pensar nas pessoas que chegariam lá mais tarde para fazer piquenique e churrasco. Um condomínio fechado em Guaecá, jardins gramados irrigados, mesmo assim acordar cedo e ir espiar o que eu podia ver e topar com uma saíra-sapucaia, ave que até então eu nunca tinha visto. Percorrer os mangues de Cubatão de barco, as favelas que de repente desapareciam como mágica pra dar lugar a uma paisagem quase intocada, se você pudesse ignorar as torres grandes, os dutos rasgando a paisagem, se perguntar “por que fora escolher um lugar tão bonito pra foder, por quê?”. Porto Seguro no Carnaval, e a gente com as tais roupas de gringo velho, felizes em ver tantas aves diferentes no meio da Mata Atlântica da Bahia.

Tantos outros lugares. A stranger in a strange land. Nem sempre lúcida o suficiente, mas em muitos momentos e cada vez mais olhando o mundo com o carinho de um viajante, de quem sabe que é tudo efêmero e belo.