Tem um samurai aqui dentro? E questões com a ayahuasca

— um dos posts antigos, do outro blog. Escrito depois de uma noite com pesadelos —

Na única vez que tomei ayahuasca chovia bastante, tenho certeza disso agora, apesar de ter passado muitos anos sem lembrar desse detalhe. Mas lembro de estar ajoelhada, olhando pro jardim, vendo a chuva lavar meu vômito, e pensar que pelo menos eu não precisava me preocupar com o quintal.

O dono da casa, um índio andino, o dono do chicote da alma, se abaixou perto de mim e colocou a mão no meu ombro. “Você é muito corajosa. Tem um um samurai aí dentro”.

Gosto de acreditar que o elogio à minha coragem não foi pela capacidade de vomitar no jardim dele, mas por algo que ele enxergou sobre quem eu sou. Esse índio andino era uma figura incrível, e durante a minha trip, que foi muito boa, eu o via com roupas não de homem branco, e sim com uma lança e um escudo, postado na entrada da casa, e sabia que ele nos protegia. Naquela noite havia outra pessoa no grupo que nunca tinha bebido ayahuasca, mas ele teve uma bad trip. E o índio depois nos falou que era porque ele não conseguia aceitar o que estava vendo, ficava lutando contra as visões.

Meu pai é espírita, então em vez de ir fazer o cursinho pra primeira comunhão eu ia pra um centro espírita aos domingos. Reencarnação, espíritos, tramas que transcendem vidas, nada disso me causa espanto.

Mesmo assim, hoje foi a primeira vez que pensei “e se a frase do R não tiver sido uma metáfora?”.

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A insônia depois dos pesadelos. Deitada na cama, de olhos abertos, pensando na frase do R. Nas situações em que a gente brinca de dizer que ajo como homem, porque tomo a iniciativa, falo claramente, não faço jogos, assumo o comando, não gosto de enrolação.

Penso em como desenvolvi minhas habilidades/armas no terreno feminino, naquilo que está ao meu alcance: não ter medo de conversas difíceis (seja DR, crise familiar, discussão de herança, feedback negativo, demitir alguém, bronca séria na empregada). A busca pela eminência parda. Poder sexual. Honra. Ser fiel aos meus amigos. Ser fiel ao meu amor. “Você faz coisas que não deixaria eu fazer” (como viajar pra outras cidades, sozinha, com homens que conheci pela internet, pra ir fotografar passarinho) “Porque eu me garanto, eu sou confiável” (enquanto o Cris tem a desvantagem de ser da raça das bestas burras que são capazes de cair em qualquer papinho de vaca-sereia. Hoje confio muito mais, mas no início de namoro ele me deu motivo pra poder xingá-lo por anos).

O quanto dou valor para a beleza do mundo, de todas as coisas. Algo típico não só de samurais, mas de muitos do Oriente.

E como sou fraca fisicamente. Como nunca tive fôlego, como nunca consegui desenvolver resistência. Fraqueza física, ser muito desajeitada.

Deixei de ser espírita porque de repente me vi discordando da ideia do mundo de expiação e provas dos espíritas taciturnos. E, como não há autoridade capaz de me provar qual é a natureza de Deus, decidi acreditar num Deus que é amor, e não punições e maldades, como na Bíblia.

Fui um samurai em outra vida?

Alguns espíritas diriam que fui muito orgulhosa do meu poder físico, e agora cá estou, uma mulherzinha frágil, pra aprender o que é bom pra tosse.

Meu Deus de amor poderia me dizer que nasci como uma mulherzinha frágil para ter a oportunidade de aprender coisas que só as mulherzinhas frágeis conseguem ver.

Se tem um samurai aqui dentro espero que, como eu, ele esteja se divertindo com a grande aventura de ser mulher nos dias de hoje. E o privilégio de poder registrar em imagens as belezas do mundo.