Talvez eu não queira mais ser alguém que escreve batendo

Tenho passado vários dias em que nada que escrevo presta. Não que eu não escreva: tento, mas nada presta, não consigo encontrar o tom.

Por exemplo, um dos assuntos que me interessa no momento são as questões culturais que culminam nesse deserto que é a percepção das pessoas sobre o que é uma boa foto de natureza.

Tem tantos pontos que me irritam e me frustram, e já tentei escrever isso de várias formas. Ao mesmo tempo, acreditem ou não, tenho pensado se devia ser uma pessoa menos agressiva. Na volta do voo da Espanha, talvez tenha recebido um desses recados que costumo receber durante filmes, livros, músicas, quando ouço ou leio algo e penso se é pra mim, ou às vezes penso que é pra mim mesmo. Gandalf já me explicou que a batalha contra o mal não é só em grandes guerras, e sim todos os dias, pessoas comuns, fazendo tarefas banais. E um episódio de Girls, uma cena com a garota Borderline, ela falando a verdade sobre as pessoas, tão sagaz, mas as pessoas reclamando do quanto ela era agressiva.

Sabem como sou a favor de verdades importantes, por mais que doam, porque em geral elas são bem libertadoras. Mas também fiquei pensando como equilibrar isso com a vontade de não ser sempre agressiva.

É bem possível que isso realmente seja um recado, porque ontem estava conversando com uma das minhas amigas mais queridas, ela pergunta “o que você acha de fulano?”, respondi, depois ela falou “eu sei que ele é muito inteligente, fala de coisas muito importantes, li o texto tal, concordo com tudo que ele falou… mas… como posso dizer. Ele é agressivo. Tem gente que escreve batendo, sabe?”, “Sei. Muitas vezes eu sou assim. O Cris me falou que eu poderia atrair muito mais gente se eu deixasse isso de lado, como por exemplo a história do 3×4-Sensação, que eu poderia ter falado só 3×4, sem a provocação do Sensação. Mas falei pra ele que eu sofro muito na vida, que tenho que ler e ouvir muita bobagem, e que precisava me divertir um pouco”.

Ser agressivo e provocativo é divertido, libertador, faz você se sentir compensando um pouco os momentos em que teve que ler ou ouvir tanta bosta, e vocês sabem como as merdas proliferam, ainda mais se você costuma ler caixas de comentários em portais.

É divertido. É capaz de me fazer passar a tarde sorrindo, a ideia de que irritei as pessoas pelos motivos que considero corretos (no caso das fotos de aves, se a pessoa não enxerga a hegemonia e o ridículo desse padrão repetido ao infinito, pra mim era nota de corte, não quero falar com você e tudo bem se você ficar bravo comigo porque não me importo). Mas estou errada, todo mundo importa.

É divertido, mas não é o mais eficaz. Se eu quero uma mudança social, tenho que agir como um ser social e compensar de outro jeito.

Não tenho certeza disso, mas acho que cada vez menos quero ser a pessoa que escreve ou fala batendo. Acho que eu quero poder rir e xingar muito, entre as pessoas especiais em quem confio, de quem gosto tanto. Mas nas ações públicas, talvez o certo seja sempre pensar no que é mais eficaz.

Sei que deve parecer muito óbvio, mas sabem como não é fácil deixar de fazer o mais gostoso pra fazer o mais correto.