South Park, politicamente correto, sátiras e minorias

No artigo da Piauí, a mulher que tuitou “Indo pra África. Espero não pegar Aids. Brincadeira, sou branca”, comenta que se a frase estivesse no South Park, não teria problema algum. (post sobre o meu medo de linchamentos eletrônicos).

Fiquei um tempo pensando nisso. Gosto muito de South Park, mas só tinha assistido a uma seleção do Netflix (era muito boa, não sei por que tiraram). Achei um site que tem quase todos os episódios (http://www.superanimes.com/south-park), e fiquei ouvindo vários enquanto editava fotos. Também fui ler alguma análise sobre o desenho, e acho que minha impressão está correta. Ainda que eu discorde totalmente dos linchamentos eletrônicos, e ache errado uma pessoa ter a vida destruída porque publicou uma bobagem, a mulher está errada sobre South Park. Ou melhor, uma frase como a dela poderia estar na boca do Cartman, que é a representação da classe branca racista, mesquinha, cabeça-de-bagre.

No post sobre linchamentos eletrônicos, eu estava tentando me entender com o gostar de South Park, ter medo do politicamente correto, ser contra linchamentos eletrônicos. Parece que ficou assim:

– Valorizo muito o humor e a liberdade para fazer sátiras e falar bobagens. Acredito que o humor e as sátiras são uma das grandes conquistas das sociedades democráticas no melhor sentido da democracia.

– Ao mesmo tempo, parece que minha avaliação do que é engraçado fica diretamente subordinada ao “você acha divertido bater em quem é mais fraco que você?”, porque o fato é que eu não acho engraçado qualquer piada sobre negros, nordestinos, homossexuais – já que esses são grupos que sofrem discriminações reais e pesadas. Mas sou capaz de me divertir com piadas sobre mulheres (sobre mulheres dirigirem mal, não saberem ler mapas, liberdade sexual), sobre loiras, bêbados, portugueses, até algumas sobre judeus e japoneses. Porque me parece que nenhuma dessas piadas piora de verdade a vida da pessoa. Talvez haja loiras que se irritem com piadas de loiras, mas nunca soube de um um caso de deixar de contratar alguém porque a pessoa é loira, ou ter medo de passar perto dela porque ela é loira, ou achar que ela é mesmo burra só porque é loira.

– South Park tem muito palavrão, obscenidades, escatologia, absurdos, um pouco de pornografia. O episódio sobre a cientologia é muito engraçado, ainda mais com a frase piscando “não estamos inventando, tudo isso faz parte dos textos da cientologia”, e você vai ler e descobre que eles acreditam mesmo nos ETs. O episódio que mostra que Family Guy é feito a partir da escolha de peixe-bois tocando em bolas com palavras. Quando o Cartman mata os pais de um garoto que zoou com ele (vendeu pelos pubianos, como se fosse isso que significa ser adolescente e agora ter pelos) – Cartman mata os pais, faz chilli com os corpos, e faz o menino comer o chilli sem saber a origem da carne. O Eeek, a penis! , com aquele ratinho com o pênis implantado nas costas, correndo de lá pra cá e as mulheres berrando. Quando o Cartman engana os amigos e pega antes a embalagem de frango frito, come todas as peles crocantes (a parte mais gostosa), passa a ser ignorado pelos amigos que o colocam no gelo, e acha que morreu, virou fantasma e ninguém mais o vê (ele acha que morreu durante o piriri por excesso de pele de frango, porque ele passa a ser ignorado, ouve a mãe dele gemendo e chorando – mas é porque ela está tendo uma sessão de sexo grupal, mas ele não vê, só ouve, e também ouve a equipe que foi trocar o vaso sanitário da casa dele dizer “você viu só? O negócio estava todo entupido de pele de frango, e é como se tivesse explodido por dentro”, e ele acha que estão falando dele). O episódio que mostra que New Jersey está dominando os Estados Unidos, e o bordão “é coisa de Jersey”. São zoeiras como essas.

– Mas South Park não tem piadas contra minorias. Ou melhor, o personagem que está sempre falando mal das minorias é obviamente o babaca da turma, o querido Cartman. Ele reclama e age contra judeus, negros, mexicanos. E é mesquinho, medroso, traíra.

– Na escola da cidade tem um professor (o sr. Garison) que fez a operação pra mudar de sexo. Isso não é motivo de piada, e nenhum aluno o trata mal ou o discrimina por causa disso (talvez em algum episódio o Cartman possa falar mal, mas será sempre como a voz de branco racista). Há um episódio em que Cartman finge ser retardado, porque quer o prêmio das Paraolimpíadas, e na hora de competir perde de todos com deficiências.

– Acho que muita gente fica mal impressionada com South Park só porque tem palavrão o tempo todo e muita escatologia, mas o fato é que é um dos desenhos mais morais que já vi. Muita sátira às loucuras da nossa sociedade, e sempre uma lição moral sobre uma postura mais razoável, em geral vinda de uma das crianças, que são capazes de dar bronca nos adultos por se envolverem em redes de mentiras, por tratarem os velhos como retardados e incapazes, por aderirem a qualquer tipo de moda, por não serem capazes de conversar sobre sexo com seus filhos e acharem que isso é obrigação da escola, por criticarem os jogos de computador sem nunca terem jogado.

Por enquanto minha avaliação e esta: meu senso de humor não consegue se dissociar da moral, do “não bater nos mais fracos”, não piorar a vida de minorias. Estou muito longe do grupo que exige o “afro-americano” em vez de negro, mas não vejo graça nenhuma, nenhuma mesmo, em formas de humor que colocam o negro como alguém sub-humano, ladrão, burro, pobre, desonesto, associado a merda. Como aqui por exemplo: http://selecaodepiadas.webnode.com.br/piadas-de-pretos/

Não sou a favor do politicamente correto. Mas tampouco me divirto com o humor que contribui para perpetuar violência e humilhação.