Somos todos material danificado

#TodoMundoTemAlgoPodreDentroDeSi

#WeAreAllDamaged

Todos.

Exceto talvez alguns monges e outras pessoas santas que conseguiram mesmo depurar tudo. Fora essas, todo mundo tem um quartinho escuro, podre e fedorento no fim de um corredor. Em geral as pessoas constroem a vida de forma a deixar esse quartinho o mais longe possível dos outros cômodos. Mas o quartinho existe, está lá. E às vezes não é quartinho, é quartão, é o porão todo, é algo que pega toda a base da sua casa, da sua vida e o cheiro da podridão afeta todos os outros cômodos. Às vezes de forma asfixiante, de um jeito que ninguém suporta conviver com você, às vezes de forma mais discreta – só uma sensação de que tem algo errado, mas sem saber exatamente o que.

Todo mundo tem um pedaço de si mal resolvido. Subdesenvolvido-mofado, ou apodrecido mesmo – podre, fedendo, e contaminando as outras partes da sua vida.

Em geral tem a ver com questões da infância e adolescência. Não se sentir amado. Cobrança demais. Ter que sofrer comparações o tempo todo. Exigências impossíveis. Achar que seus pais não gostam de você. Apanhar, às vezes apanhar muito, de ficar roxo, sempre, até você não ligar mais. Abuso sexual – sabem que a maioria dos abusos é por parte de um conhecido da família? Padrasto, namorado da mãe, amigo da família. Gente com quem sua filha (mais de 85% são abusos de meninas) deveria estar segura, só que não. Na adolescência tem o bullying, a dor por se sentir excluído, sem pertencer a nada, sem ser bom o suficiente, sem ser bonito o suficiente.

Às vezes é tanta dor que a pessoa não aguenta. Digita “suicídio jovens” no Google. Mais uma vez, o Brasil faz bonito: somos o 8º do ranking de países com mais suicídios. E nosso quartinho escuro e fedorento não causa danos só a nós mesmos, ele é capaz de machucar e matar os outros. Quem apanhava dos pais com frequência bate nos filhos. Muitos abusadores foram abusados. Um círculo maldito de violência.

Talvez você acha que esses exemplos não têm nada a ver com você. Sabenadainocente. Se você não sabe qual é o tema que se alguém conversar com você te faz chorar até soluçar você simplesmente não se conhece.

Todo mundo tem um pedacinho ou um pedação podre. E tudo bem, faz parte do que é ser humano. Mas o que a gente pode fazer é cuidar dele. Reconhecer quando precisamos de ajuda. Quando ele está empesteando todos os outros cômodos.

Acredito que a luta contra a parte podre não é uma luta sem fim. Se você visita o quartinho com frequência e coragem, uma hora aquele lugar não se torna mais uma ameaça aos outros cômodos. Acho que nunca vai deixar de doer, mas a dor pode ficar menor e, com força, coragem, ajuda do analista ou dos amigos (se você não pode pagar a terapia), um dia você entra no quartinho e ele é só um lugar feio, mas não é mais um lugar pra se sentir despedaçado.