Somos mamíferos

(e precisamos de contato físico)

O que eu queria? Foto de um bando de filhotinhos de leão ou de Wild dogs amontoados. Ou um bando de gatinhos ou de cães, de preferência não uma ninhada, mas um grupo de amigos.

Não tenho.

Por favor, não ria, só aceite por ora minha foto de um bandinho de capivaras. Nem de longe os mais carismáticos ou fofos. Mas mamíferos.

Tudo isso não passa de distração e chacota, porque a ideia não precisa de foto. Quero ver você negar que é gostoso ficar amontoado junto com as pessoas de quem você gosta.

Algumas pessoas descobrem isso com a família desde cedo. Eu descobri na adolescência só, com amigos, e na alegria da grande mistureba de sentimentos e sensações que essa fase vulcânica traz.

O Daniel cresce de outra forma. Ele era bebê, eu era o táxi dele. Carregava-o de um lado pro outro. Ainda não sei o que fiz pra merecer tanto, mas o fato é que ele sempre gostou de mim, estava sempre me chamando, me puxando.

Ele cresceu mais um pouco, tentaram acabar com o grude “chega, você já está grande pra ficar no colo dela”, “para de ficar puxando ela, deixa ela terminar de jantar”, mas eu não deixei. Eu dizia “não. Deixa ele aqui. As crianças crescem rápido, logo isso acaba”. E eu ficava lá, sendo puxada e amassada, me sentindo com a resignação da leoa que tem os filhotinhos pulando em cima.

Ele está com quase 11 anos. Como um ritual, depois do jantar sempre vem sentar no meu colo por alguns segundos. Às vezes em sofás também. Nos dias que eu quero tirar sarro dele, conto essa história e enfatizo o “logo isso acaba”, pra completar com “você já tem xx anos, e nada disso acabar, você acha que vai me amassar até quando??”, e claro que só falo isso porque adoro tê-lo no colo.

A moda atual é o PVZ pra Xbox. O nosso não é o Xbox 1, então só ele joga, mas eu fico do lado, me esforçando pra fazer os comentários mais ridículos sobre nomes, perseguições, coisas non sense, às vezes a alegria do áudio em que ouvimos uns pedaços de frases e inventamos o resto. Ficamos no sofá, meio amontoados um em cima do outro, cabeça com cabeça, ombro com ombro, às vezes meio deitados um em cima do outro e sei que essa parte faz parte da alegria do jogo. A ponto de às vezes ele nem levar o Xbox pra casa dele, “não tem graça jogar sozinho”.

O contato físico com as pessoas de quem gostamos, ou no mínimo com quem simpatizamos, é uma coisa gostosa. É bom, é gostoso, faz bem pra pele e pra alma. Mas em geral, não é praticado. Na maioria das vezes nos movimentamos e interagimos com os outros mantendo o cordão de isolamento dos tais xx centímetros que as pessoas não podem ultrapassar. Certo. Com desconhecidos, concordo. Em filas acho bem irritante o pessoal que ultrapassa e fica esbarrando ou quase esbarrando, e não é homem querendo encoxar, geralmente são senhoras sem noção.

Intimidade e carinho. Conversar com o outro, passar um tempo com o outro, aproveitando o prazer do contato físico, sem que isso tenha conotação de sedução. Só porque é uma forma de linguagem, só porque é gostoso, só porque somos mamíferos e gostamos de nos amontoar, tocar (lamber é melhor não), quem a gente reconhece como do nosso bando.

Mas vivemos esse mundo de miséria sexual, e há mil maneiras de ser mal interpretado, então vivemos na segurança dos xx centímetros de don’t touch. Ainda assim, pratico sempre que posso.