Somos essas criaturinhas ridiculamente previsíveis?

Filmes de Youtube pra se ver enquanto faz esteira ou ergométrica. Não que eu fique 1h30 na labuta, é coisa pra se assistir em três pedaços. Já assisti a Arn (e guardei como referência estética a cena com as últimas palavras dele), comecei a ver o Injustice – Gods Among Us porque o Daniel joga no Ipad, e foi engraçado ouvir o Coringa dizer que detesta gente que tenta segurar a vela, mas esse acabei não voltando, e agora vi Roubar é uma Arte, que no Youtube completo e dublado (dublado) está como A Arte de Roubar, um sessão da tarde bobinho, mas com algumas coisas pra considerar. E lá vem os spoilers.

Você passa o filme todo achando que o Kurt Russell é o irmão corno, ingênuo e mané, até que no fim são revelados os estratagemas para se vingar do irmão mau caráter, Matt Dillon. Certo, muitos filmes fazem isso. Mas a forma como foi feita tem tudo a ver com um assunto que tenho pensado nesses dias, sobre as situações em que você planta uma ideia na cabeça de alguém, seja por uma frase, uma insinuação, ou mesmo declarações bem explícitas como no Casamento Grego e tcharam: de repente a pessoa vem te falar de uma ideia genial que ela teve.

No Roubar é uma Arte eles fazem isso de formas diversas, não só por insinuações, mas por apostas num padrão de comportamento. O Matt Dillon em vários momentos tem que convencer o Kurt Russel a fazer alguma coisa, ele diz que não quer, que não vai etc, depois acaba cedendo, e no final do filme você vê que tudo fazia parte do plano.

Como num jogo de xadrez, você vai movendo suas peças e prevê o que o outro fará, o que ele vai dizer, o que você vai responder.

 

Funcionaria comigo?

Temo que facilmente eu cairia como um pato. Claro que pra desconhecidos você não baixa a guarda, você desconfiaria de alguém que chegasse falando as frases certas, mas pra familiares e amigos basta a pessoa me falar coisas como “eu não sei quem eu sou, não sei qual o sentido da minha vida, preciso descobrir o que eu quero”, e eu já estou lá toda derretida pra ajudar a pessoa. Como já aconteceu.

E pra desconhecidos também funciona, não pela empatia, mas pela previsibilidade das minhas fraquezas. Não suporto gente desonrada. Não suporto, não consigo lidar. Se fosse um samurai como uma espada, acho que só cortaria a cabeça da pessoa. Como vivemos em outra era, não consigo fazer nada além de ferver de ódio e em geral me afastar.

Dediquei centenas de horas, há anos, e com muita intensidade no segundo semestre de 2015 pra esse assunto da liberdade pra fotografar e divulgar a natureza brasileira. E agora estamos perto de conseguir, bem perto, na prática já está bem melhor em vários lugares.

Mas não suporto gente desonrada. Não suporto mentira, omissão, gente que só quer defender os próprios interesses e foda-se se outras pessoas têm sofrido restrições absurdas como ser proibido de usar binóculo, ou ser autuado por um fiscal do ICMBio porque você está fotografando aves numa RPPN (Reserva Particular de Patrimônio Natural), com o consentimento do dono da Reserva.

Estou afastada do mundo passarinheiro. Há pessoas, especialmente duas pessoas muito boas, boas de coração, puras, competentes, admiráveis. E com muito mais estômago do que eu, que estão tocando as coisas, e me perdoaram por eu precisar dar um tempo.

Não sou insubstituível e felizmente há muitas pessoas boas trabalhando a favor. Mas fico pensando que se eu fosse mais engajada, que se a defesa da natureza fosse algo maior ainda na minha vida, se ganhasse proporções a ponto de incomodar ou atrapalhar pessoas poderosas, eles nem precisariam gastar uma bala comigo. Sou uma fresca frágil que não tem estrutura pra lidar com gente desonrada.

 

Arrumei a casa. Comprei computador novo. Estoquei o freezer. Vou organizar os arquivos e backups. Vou aprender a fazer estampas. A vida é boa. Mas eu sou uma criaturinha ridiculamente previsível que não quer ter que lidar com gente sem honra.