Sobre o grande erro da generalização. Especial para tímidos.

Nosso cérebro trabalha com padrões, categorizações, sentido, experiências prévias, faz parte da nossa fisiologia. Comento sempre sobre o livro da Lisa Barrett.

Categorizar é essencial pra poupar energia, mas isso na questão do funcionamento cerebral, de milhares de percepções instantâneas que acontecem a cada segundo. No campo dos pensamentos a gente não pode fazer generalizações toscas, aqui entra outro terreno em que não dá pra funcionar no automático, com base em pré-conceitos.

Por exemplo. Há uma grande quantidade de criminosos que são negros ou pardos, e não há qualquer determinismo genético, é puramente a marca horrorosa da nossa história e cultura. Gente que veio pro Brasil como escravos, pior do que gado, que depois foram libertados, mas nunca houve uma ação coordenada para inserir as pessoas na sociedade. E que lutam até hoje os horrores de viver na pobreza, miséria e violência perpetuada por argumentos pretensamente cristãos, mas que impedem uma relação sadia com o sexo, e faz com que tantas meninas jovens, negras e pobres engravidem, muitas vezes, e continuam alimentando o ciclo de gente vivendo na pobreza e violência, com os nossos 60 mil homens assassinados por ano, na maioria jovens pobres de periferia.

Porque há vários negros que roubam e matam, muita gente acha que qualquer pessoa com pele escura tem que ser tratada com desconfiança. Imagine. Você entra numa loja e começa a ser seguido pelos seguranças. Você aprende que precisa estar sempre muito bem vestido, ou no geral vai ser destratado e desrespeitado de um jeito que nunca fariam com uma pessoa de pele clara.

O racismo é uma realidade no mundo todo, inclusive no nosso querido país que tem tanto do que se orgulhar no quesito simpatia do povo, mas qualquer um que queira dizer que não existe racismo no Brasil é uma besta quadrada.

Outro exemplo comum da generalização, que sempre comento é do povo que fala “esses árabes, muçulmanos, são uns animais, deviam ser impedidos de sair dos países deles, e eles que se explodam por lá”. Bonito, não? Com algumas variações de tom, inclusive em tom comedido e pretensamente científico, já li esse argumento várias vezes. E sempre penso: “Esses brasileiros, esse povo é tudo corrupto, pra qualquer lugar que eles vão eles espalham corrupção, o pessoal fala que os outros países são amadores perto do Brasil nos esquemas de corrupção. Esses brasileiros deviam ser impedidos de sair do país deles, pra não estragar os outros países”.

Certo, imagino que até aqui dificilmente você está discordando de mim.

 

Mas o que talvez você não enxergue é que quando você fala “não consigo puxar conversa com uma garota num show” e que você fala uma outra língua, que já tentou puxar conversa e não rolou, e viu como o cara fortão chegou junto e facilmente ganhou a menina – bom, você está fazendo uma generalização.

Não é grave como nos casos que descrevi, mas é tosca do mesmo jeito e, pior, sempre auto-sabotagem pra você.

Você disse que tentou puxar conversa sobre a música, mas viu que ela não se interessou em continuar a conversa. Ok. Tudo bem. Você agiu certo, é uma abordagem correta. Mas ela olhou pra você e pensou que não estava muito interessada, e não alimentou a conversa. Tudo bem, direito dela.

“Mas daí eu vejo que nos shows, chega o playboy saradão e elas sempre vão ficar com ele”.

Ah, meu amigo, é idiota se martirizar com isso. Quem se encaixa nos padrões de beleza tem portas que se abrem instantaneamente. Quem está num desses padrões não precisa fazer nada pra rolar alguma coisa, o outro vê a pessoa como um prêmio, uma oportunidade, no mínimo pra se auto-vangloriar e pra poder contar pros amigos. Isso pra ficar com alguém. Namoro ou casamento é outra história, pra ter um relacionamento que presta é preciso mais do que um padrão de beleza.

Você falou que o que mais pega é ser magro, que você queria ser fortão (já que os fortões conseguem tudo). Meu amigo, entenda que se apegar a esse aspecto seu é bobagem, uma ilusão. Muita gente transforma o corpo pra poder se encaixar em algum dos padrões de beleza — mesmo que tenha que se mortificar pra isso, ou tomar substâncias que vão aumentar o risco de ter aneurisma ou ataque cardíaco, tudo pra poder ter essa sensação de alta taxa de sucesso e babação.

Mas eu acho que seu caminho não é esse. Que você não precisa ter uma grande quantidade de garotas dizendo o quanto você é lindo e gostoso, que você está em busca de uma garota legal. Uma. E essa uma tem que ser alguém que te enxerga como pessoa, que o fator de corte não é o tamanho do seu bíceps ou sua conta bancária.

Ou seja, é auto-sabotagem achar que ser magro é o que está te impedindo de encontrar alguém. O que te impede de encontrar alguém são os seus quartinhos fedorentos, achar que tem algo errado com você. E fora isso, tem que sempre lembrar da taxa de sucesso da pescaria, e que eu só vou aceitar você dizer que está difícil depois de sair com 30 mulheres.

Você tem que parar de achar que é inferior porque não é fortão ou porque tem pouco dinheiro. A insegurança transparece no tom de voz, no jeito de olhar, na postura corporal, você percebe na hora que o cara é inseguro. É o quartinho fedorento causando estrago. Num show em geral você não quer começar a conversar com um cara inseguro. Se a pessoa te conhece em outros ambientes, então ela poderá saber mais sobre você, o quanto você é legal, etc, e sua insegurança não vira fator de corte. Mas num ambiente como num show ou num bar, pra um desconhecido, em geral é fator de corte.

– Uma mulher não querer conversar com você num show não significa que qualquer mulher que você tentar conversar não vai querer conversar com você. Isso é generalização tosca.

– Mas enquanto você não se livrar da timidez e insegurança, é bastante provável que você receba vários nãos, e não tem nada a ver com você ser muito magro, e sim com o que você emana.

 

Não gostou das aulas de teatro. Tudo bem. Mas vai ter que ter outro plano pra se livrar da timidez. E eu tenho que te perguntar umas coisas sobre as aulas. Qual foi o problema? Se sentiu exposto? Se sentiu fazendo coisas idiotas? Ficou pensando o que os outros iam pensar de você? Mexeu com a sua zona de conforto?

Não imagino qualquer ação pra se livrar da timidez que não passe por isso. Se livrar da timidez é se livrar do grande juíz que fica te falando “o que vão pensar de você? E se ela rir de mim? Se tirar sarro de mim? Se me ignorar?”

Você tem que saber o tempo todo quem você é, que você é uma pessoa incrível, você precisa ter essa fortaleza porque quando a gente tem essa fortaleza (que alguns resolvem com a religião, o tal ter Jesus no coração), é muito mais difícil se abalar com adversidades. Ela não se interessou por você? Azar dela, não sabe o que está perdendo. Ou então, bom, não era pra ser mesmo, devemos ter valores bem diferentes. E nada de “ela não se interessou por mim? É porque eu sou magro demais, eu não sei puxar conversa, eu nunca vou conseguir ficar com ninguém num show, eu nunca mais vou tentar puxar conversa com uma mulher num show”.

Você tem que aprender a ligar o foda-se. Fortaleça todos os dias as certezas sobre o quanto você é bom, e enfraqueça todos os dias os pensamentos de que o que os outros pensam (no sentido de fofoca ou comentários levianos) importa, ou que receber um não significa que você não presta.

É a sua vida. A sua, a que só você pode viver. Você é quem paga suas contas, você é quem sabe das dores e delícias de ser você, você não deve satisfação pra ninguém e não devia ficar pirando sobre o que os outros vão pensar, ou se você está fazendo algo ridículo ou estranho.

Livre-se da sua timidez. Aceito que não queira fazer aulas de teatro, mas qualquer coisa que você vá fazer vai exigir trabalho duro, vai exigir se expor. Dentro da concha é seguro e tranquilo, mas ao mesmo tempo que a concha te protege ela também te impede de viver aventuras.

Pare de se preocupar com o que os outros vão pensar.

Pare de achar que um não determina todas as outras situações.

Vá puxar conversas com estranhos, vá se expor ao ridículo, mate sua timidez.