Sobre o fim dos blogs: não acho preocupante

http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/o-fim-dos-blogs-15419098?topico=pedro-doria

Então aqui vou eu, mais um prego no meu caixão. Pessoa querida me passou o link, li e me deu vontade de responder longamente.

Conclusões do artigo de Pedro Doria

“Mas há outra questão não declarada. Para fazer grandes audiências, hoje, blogs precisam curvar-se ao que é viral nas redes sociais. Viral é tudo aquilo de fácil assimilação. É o sensacional. É o que causa impacto. É a emoção rápida: pode ser indignação, pode ser um riso. Mas é inevitavelmente raso.

Blogs não foram derrotados pela imprensa tradicional. Foram derrotados por seu sucessor na própria internet. Blogs não acabaram, tampouco acabarão. Mas o esforço de torná-los uma plataforma que reunia reflexão, a possibilidade de mudar de opinião, conversas profundas, ao mesmo tempo em que alcançavam gigantescas audiências, ruiu.

A internet, afinal, ainda não está pronta. É uma pena.”

É um bom artigo. Mas me vejo obrigada a colocar algumas opiniões bem elitistas (os tais pregos adicionais), pra explicar por que não considero o assunto preocupante.

A maioria das pessoas não sabe pensar. Não têm cultura, não têm lógica, não têm articulação, não são muito inteligentes, não têm originalidade, não têm profundidade, não têm compaixão, não conseguem pensar por si, são medrosas, são moralistas, são tacanhas, agem como manada. Sempre foi assim.

(não vou neste post discutir os motivos disso, não é o caso. Só queria deixar claro que tenho em mente as imensas deficiências do sistema de ensino, especialmente no Brasil. E que sou o tipo de gente que acha horroroso os comentários jocosos contra pessoas que cometem erros de gramática, como se escrever sem erros fosse a coisa mais importante da vida).

Tente fazer uma amostragem numérica. Talvez em alguns cursos de algumas universidades haja uma porcentagem maior, em alguns setores de museus ou de livrarias. Mas de forma geral, é um número muito baixo.

Blogs que reúnem essas pessoas podem acontecer de vez em quando, mas não espero que tenham vida muito longa, nem que sejam uma tendência.

Mesmo entre as pessoas que sabem pensar, é difícil esperar fidelidade por muito tempo a algo como um blog, por exemplo.

Por quê? Porque os interesses de cada um são muito diferentes, e mudam o tempo todo. Porque há opções demais de entrenimento, leituras, sites, filmes, livros, vídeos, passeios, viagens, programas. Há concorrência demais pelo tempo das pessoas, e nenhum motivo para se manter fiel a algo, ainda mais algo como a leitura de um blog.

Não sei se sou pessimista demais na minha visão da humanidade, mas no fundo nunca espero grande coisa dos seres humanos. Não é pra nunca me decepcionar, mas é porque os indícios gerais, se você considera quantidades de manifestações, frases ouvidas ao acaso na rua ou num restaurante, comentários feitos em redes sociais ou caixas de comentários sobre qualquer assunto, mostram que estou certa.

“ôh mulher esquisita, então por que raios você dedica tanto tempo ao seu blog?”

Porque eu blogo sem precisar de audiência. E porque gosto de escrever, e escrever me ajuda a pensar no mundo.

Claro que eu olho minhas estatísticas. E claro que fico pensativa quando elas estão baixas, no que isso significa, no quanto sou chata. Mas não fico fazendo campanhas frequentes pra divulgar os posts, divulgo de vez em quando, quem gostou e quer mais, toda semana tem coisas novas, quem leu mas esqueceu que existo, deixa pra lá.

Mas não espero grandes números, porque tenho como premissa que são poucas as pessoas que se interessam por textos longos, que os assuntos que trato nem sempre são os mais interessantes – pelo contrário, mas a escolha é feita com base no que me interessa no momento, e não no que vai dar mais audiência.

Não preciso de quantidade.

Se o que escrevi ajudou uma pessoa a ser mais franca, mais honesta, mais intensa, ou se aceitar melhor, ou buscar mudar o que não gosta em si, pra mim já vale.

Além disso, o blog diz muito de quem eu sou, de como penso. Sei que sou um bicho estranho. Mas o blog fica aqui, e considero-o como propaganda e anzol. Talvez em algum momento ele atraia outro bicho estranho como eu. Também espero que o blog ajude quem às vezes se sente um pouco estranho, desenquadrado.

Mas tudo isso só porque o blog é mero hobby, não preciso ganhar nenhum dinheiro com ele. O artigo de Pedro Doria fala de blogs em outro patamar, pessoas que precisam de audiência, de cliques, de patrocínio. Se você precisa fazer dinheiro, então tem mesmo que migrar para águas mais rasas.