Sobre o extra-ordinário – parte 1

Escrevi, e acho que não postei ainda sobre o que faz uma pessoa ser interessante ou não (vou postar depois… ou talvez deixar pro livro que tem que sair até o final do ano, de alguma forma, e se não sair eu serei obrigada a pagar uma prenda horrível). Claro, é sempre o meu discurso sobre conteúdo, etc.

Mas estava aqui pensando que, assim como o principal de uma pessoa não é o que é visível, e sim o que se passa na mente, no coração, o principal de um lugar ou de uma situação ou de um cotidiano depende muito menos de arquitetura, estrutura, fatos… e muito mais do olhar de quem está vivendo ou observando aquilo.

Juro.

Juro mesmo.

Eu já andei pelas savanas africanas, pude observar os grandes predadores – leões, leopardos, guepardos, Martial Eagle – além dos elefantes, girafas, búfalos, rinocerontes, vi as geleiras da Patagônia, andei no Louvre, no MET, no Prado, na Alhambra, na Catedral de Sevilha, shows da Broadway e no Lincoln Center, em ruínas romanas do Sul da França, na Amazônia brasileira e peruana, já vi onça-pintada, casal de harpia, já fotografei mais de mil espécies de aves, já tomei banho de descarrego nas Cataratas de Foz do Iguaçu, já andei em florestas europeias, em praias espetaculares do Nordeste, em lugares lindos do Uruguai e da Argentina.

E em todos os lugares que fui eu vi zumbis que pareciam totalmente alheios à beleza do que estava em volta. Caras, que tristeza estar em Paris e ter que ouvir frases em português assim “ai, meu pé está doendo…” “o meu também” “falam tanto desse Louvre, mas não achei grande coisa” “é, eu também não”. Ou estar em frente ao Glaciar Perito Moreno e ser obrigada a ouvir as mulheres do meu lado falando sobre compras de supermercado, em espanhol. Estar na África e ver tantos carros que não ficavam nem 20 segundos em frente ao animal que estava lá na beira da estrada, que nem abaixavam o vidro, nem pra tirar a foto. Estar com snorkel numa praia do Nordeste vendo aquelas joias coloridas e ter que ouvir “ai, que horror, aqui tem muito peixe, vamos sair daqui”.

Juro.

Não importa pra onde você vai, não importa o lugar. Se você não tiver olhos pra ver, você não vê, e ponto final. Uma viagem só muda você se você já tem conteúdo, disposição, abertura, curiosidade. Mas pra muitos turistas a viagem só serve pra selfie-ostentação-Facebook-compras.