Sobre a chatice misantropa, e a necessidade de quebrar a imagem de autossuficiente

—– voltei pra este post umas horas depois e acrescentei um pedação no final. Sexta-feira 17h30, se você leu antes disso, talvez queira ver a nova versão, marquei com fúcsia (minha cor favorita por causa do nome tão legal).

Oi querida …, sempre gosto das suas perguntas. Pra variar vou responder pelo blog porque acho que pode ajudar outras pessoas.

Não imaginei que contar sobre minha irritação em ficar ouvindo “daí a gente viu a onça (…) e a onça” fosse render tanto. Quem primeiro falou do texto, a querida …, acho que a questão da chatice dela é… nem sei o que é, não consigo imaginá-la sendo chata. Ela não é misantropa, é só alguém muito sensível, ligada com a literatura, a música. E fiquei contente de pensar que posso ajudá-la a se expressar mais, a se preocupar menos em ser desagradável ou falar algo que os outros não vão gostar, a não ter medo do conflito.

Mas a chatice misantropa é outra história.

Não é certo deixar alguém querido e próximo, por exemplo, o namorado ou marido ficar falando “você é muito difícil, você é uma pessoa difícil”. Eu cortei essa do Cris porque isso é um caminho perigoso. Acredito de verdade que nossos pensamentos determinam o jeito como a gente vê as coisas e nossa realidade, e alimentar o “você é uma pessoa difícil” enfraqueceria nosso relacionamento, quem sabe levasse a uma separação. Então, pela saúde do nosso relacionamento eu falei “você não alimenta esses pensamentos sobre eu ser difícil, e eu não alimento os meus sobre os perrengues de você ser disperso, distraído, atrapalhado”.

Mas se nós misantropos somos chatos? Somos muito chatos. Essa história de pensar em tudo, de estar consciente de tudo, de perceber as intenções dos outros quando nem eles mesmos percebem o que transparece nas palavras, nas entonações… essa história de querer racionalizar tudo, inclusive presentes ou gentilezas, é uma chatice sim.

Minha mãe tem uma loja de roupas e ela sempre insistia pra eu pegar alguma coisa, mesmo eu falando que não precisava. Teve um fim de ano que limpei o armário e levei as coisas pra lá, ela tem conhecidas que recebem doações de roupas e sapatos pra bazar de igreja. Daí ela viu várias roupas que tinha me dado, com pouco uso, nessas sacolas, e ficou chateada. Mas também nunca mais insistiu pra eu pegar algo, e se o assunto surge, ela fala algo como “não, eu sei como você é chata pra roupa”.

Teve uma época que eu fotografava sempre com a câmera no tripé e, durante os passeios, os guias que eu contrato se ofereciam pra carregar minha câmera com tripé. Nunca deixei. Meu tripé é leve (mas as pessoas não sabem disso, elas só olham aquele trambolho e ficam aflitas), eu dizia “não se preocupe, meu tripé é leve, eu consigo carregar. No dia que não conseguir mais, troco de equipamento, mesmo que seja pra usar compacta). Num dos meus últimos passeios, eu levei o tripé, mas estava com a câmera numa alça no ombro, e o guia que estava comigo falou que levava meu tripé. Eu deixei. Porque era algo leve (diferente se fosse o tripé com a câmera), e porque eu sabia que ele queria fazer essa gentileza.

Você não faz gentilezas pros outros? Eu carrego sacolas pra minha sogra, abro e fecho porta do carro. Teve um passeio de barco que eu fui a primeira a descer, mas fiquei ao lado do barco, estendendo a mão pros outros. Ajudei um amigo meu e depois a noiva dele. Já escrevi sobre isso, adoro essa história, porque ela falou “obrigada. O Marcelo é tão cavalheiro, sempre me deixa pra trás”, e eu falei “sei como é”, e quando contei essa história pro Cris, ele falou “O QUÊ??? Eu não sou cavalheiro???”, e eu falei “não é”. E nas três semanas seguintes ele prestou atenção em mim, pra pegar sacolas da minha mão, chamar o elevador e abrir a porta (algo que sempre eu que faço). E depois esqueceu e voltou a ser como é 🙂

Fazemos gentilezas uns pros outros, e você devia aceitar a gentileza dos outros. Não é machismo, não pense que estão fazendo isso só porque você é mulher. Aceite. E retribua pro mundo, faça também.

Nossa natureza e tendência é de sermos pessoas tão racionais que é fácil ser dura, fria e desumana.

Como falei, hoje não cultivo nenhum relacionamento. Mas sou casada, não trabalho mais em empresa, tenho 40 anos. Eu tenho o ticket dourado misantropo, vocês não. Só por serem novos vocês ainda não têm esse direito de ficarem na torre. Vocês têm que se experimentar muito e se relacionar com as pessoas, faz parte do nosso aprendizado como ser humano, pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

O cara de que você falou, por exemplo. Acho que não é uma questão de cultivar ou de paparicar, mas, você tem interesse nele? Chama ele pra sair e descobre se vocês se interessam um pelo outro. Não precisa ser jantar romântico, aliás, os primeiros encontros é bom que seja de dia, algo despretensioso, fácil de encerrar se vocês sentirem que não rolou. Café, exposição, passeio, sorvete. Convide-o. Pelas coisas que você contou, ele tem bons motivos pra achar que você não tem interesse nele. Houve os azares, e fora isso, sempre leve em conta que os homens morrem de medo de serem rejeitados. É preciso um nível (ou vários níveis) a mais de coragem pra paquerar e tentar algo com um misantropo, então se você tem algum interesse, dá uma força, ajuda a começar.

Nas outras situações que você falou, exceto com a sua colega (já falo dela), acho que você tem que desenvolver alguma forma de se relacionar mais. Deixa eu tentar explicar.

Nossa tendência é de sermos rígidas, duras, sem traquejo e sem charme social. A maldição de ser racional demais. Nós temos direito de sermos o que somos, de sermos misantropos, de sermos exigentes e seletivos sobre o uso do nosso tempo. Mas também somos inteligentes, e eu sempre vou usar o argumento da inteligência pra mandar meus leitores misantropos queridos fazerem alguma coisa :), e uma delas é reconhecer que a interação com as outras pessoas é essencial pro nosso desenvolvimento. Pra ter uma vida mais rica e com mais significado.

Viver só se aprende vivendo, e o vivendo significa relacionar-se com o outro. Mas o relacionar-se com o outro não significa ter que ir pra festas, baladas, shows e outras situações que em geral trazem muito sofrimento pra quem preza tanto o silêncio e a tranquilidade.

Olhe pra você de fora.

Pensa nas coisas que você me contou.

Não é fácil alguém se aproximar de você, certo? Porque no geral misantropos têm esse jeito de eu me basto e não preciso de ninguém. Isso é verdade a maior parte do tempo… Mas quem ainda não tem o ticket dourado tem uma parcela do tempo em que isso não é verdade. Somos humanos, somos mamíferos e precisamos de contato físico, de carinho, de nos sentirmos queridos.

Eu não vou te falar que existe um jeito certo de se fazer isso, ou mesmo que você é obrigada a fazer isso. Mas posso lhe dizer que sua vida será mais fácil se você desenvolver algo pra combater a dureza e o jeito de gente fria.

Por exemplo, eu cultivo um carinho por seres humanos que demonstrem um quinhão de busca. Me fale uma frase que mostra que você está falando algo que é mesmo importante pra você, algo de pessoal, e você tem minha atenção. Eu acho as pessoas lindas, se pudesse ser invisível, adoraria fotografá-las e mostrar pras elas o quanto elas são incríveis. Você sabe o quanto eu gosto de fotografia de natureza, mas quando entro nessa vibe de pensar no quanto o ser humano é algo espetacular, até penso que trocaria a fotografia de natureza por street – se eu pudesse ser invisível. Mas não gosto da ideia de incomodar ou de chamar a atenção, então fico na natureza mesmo.

No meu trabalho ninguém desconfiava da minha misantropia, eu era muito simpática com todo mundo, e não de forma falsa. Pessoas boas, com quem você encontra, dá um abraço ou beijinho, sorri olhando no olho, pergunta algo sobre a vida da pessoa, retoma alguma conversa.

Reparo nas pessoas que têm bondade e simpatia genuínas, e tento aprender alguma coisa com elas. Num dos livros do Patrick Rothfuss, o protagonista (que é de um circo) conta que existe um tom de voz e determinados gestos que impelem o público a aplaudir. Fiquei pensando no quanto existe de tom de voz e gestual das pessoas que fazem você pensar que aquela pessoa é gente boa, confiável. Reparo nas pessoas e tento aprender.

Por exemplo, eu sei chegar numa festa, entre desconhecidos, e ser uma pessoa legal. E é tão fácil: basta contar alguma história curta de bebedeira, ou algo tosco, vexatório ou atrapalhado que você fez, e logo isso cria um clima ótimo de pessoas contando das suas próprias histórias.

Quando há um pouco mais de clima, mesmo pra gente recém-conhecida, posso falar de momentos que me fizeram chorar ou que me comoveram – em geral com alguma encenação cômica e mudança no tom de voz, uma imitação de mim mesma sendo dramática, e isso também cria boas situações.

A gente tem esse jeito de gente que se basta. É nossa obrigação mostrarmos que somos humanos, que somos gente de carne e osso. Eu sempre tenho algo ridículo pra falar sobre mim, e isso sempre é útil pra deixar as pessoas à vontade.

Numa das visitas pra consultoria onde eu trabalhava encontrei o cara da área comercial, que é reconhecido por todos como alguém com muita lábia. Eu sabia que ele tinha ido pra Califórnia fazia pouco tempo, perguntei da viagem, ele contou, e em algum momento começamos a falar de Estados Unidos nos meses de férias, eu tinha ido pro Colorado e primeiro fiquei preocupada com os relatos de que os parques são lotados e têm filas, mas descobri que eram filas bem pequenas. Ele tinha ido num mês de julho também, e começamos a falar sobre o quanto esses americanos não sabem nada sobre o que é destino lotado “vai pra Ubatuba em qualquer feriadinho pra ver o que é fila e trânsito, peloamordedeus, porque tem uma fila de oito carros pra entrar no parque eles ficam falando que as férias são difíceis”, eu e ele falando as mesmas coisas e fazendo gestos com as mãos, como italianos, aqueles que querem dizer “como pode?” – e rimos e comungamos de um momento de brincadeira e descontração.

 

Não estou te falando como fazer, nem que você é obrigada a fazer. Mas os fatos são:

– pra gente ter uma vida mais rica e com mais significado, precisamos viver, nos relacionar com as pessoas. Gente de 20 e poucos anos tem essa obrigação. Misantropos de 40 anos que ganharam o ticket dourado têm o direito de ficar na torre, mas não vocês. Vocês precisam ir pra rua, quebrar a cara, se dar bem, se dar mal, viver.

– todo mundo de 20 e poucos anos precisa estar vivendo e experimentando muito, misantropos não são exceção. Faça isso agora, ou diminua muito suas chances de ter uma vida boa.

– e meus leitores de 30 e poucos que ainda não têm o ticket dourado, digo o mesmo: vão se relacionar, vão conhecer gente, vão quebrar a cara, se dar bem ou se dar mal, se apaixonar e depois ficarem arrasados, mas vão viver, é preciso. (pedaço novo, das 17h30)

– misantropos têm esse jeito de gente chata, dura, desumana. Porque essa maldita ou bendita super-racionalização do mundo nos leva a isso. Mas somos inteligentes (sempre o mesmo papinho), e podemos ser melhores do que o racionalmente burro. A gente sabe que só racional não é o certo, que o puro racional machuca gente querida e gente inocente.

– ou seja, a gente tem que se cobrir de glacê.

(me ignore, não resisti a ser infame)

– ou seja, a gente tem que desenvolver algo além do duro-racional-autossuficiente. Temos que encontrar o ponto em que podemos praticar, com sinceridade, a ternura, a generosidade, a comunhão, aceitar presentes e gentilezas.

– porque isso vai facilitar muito a tarefa de se relacionar com pessoas.

 

Eu não preciso mais pegar roupas da loja da minha mãe. Mas em geral aceito que ela me faça uma marmita, um pouco do almoço do domingo pra eu trazer pra São Paulo. Se eu não quiser comer no dia, congelo, como outro dia. Ligo pra eles toda semana, num momento que estou sem pressa, focada, conversamos mais de meia hora. Sempre tenho algo pra contar, seja do mundo do birdwatching, ou de viagens, ou alguma história com o Daniel ou o Cris. Tenho um amigo que dizia que não sabia o que conversar com a mãe, e que sentia que ela ficava frustrada. Se ele tentava falar dos assuntos que ele gostava, ela dispersava. Afe, qual  é, somos inteligentes, qualquer um sabe conduzir uma small talk, falei “conte algo do trabalho, alguma situação em que você agiu bem, fale algo pra eles sentirem que criaram um bom filho”.

Você devia aceitar o que sua mãe quiser te dar, mesmo que você não vá usar. E se ela sempre estiver comprando algo pra você, compre algo pra ela também. Pra algumas pessoas, isso é uma das demonstrações de amor. Há situações em que o mais importante é se colocar no lugar do outro, pensar na reação do outro. (Falou a pessoa que ganhou uma bolsa cara da irmã e devolveu pra ela, explicou que não ia usar… mas eu falei com muita delicadeza, e tenho certeza de que ela entendeu, e até gostou de eu ter falado). Mas veja que bolsa cara é diferente de pequenos presentes.

Devemos ser generosos e bondosos no relacionamento com a família, e isso não significa deixar de ser quem somos. Pense que há algumas coisas pequenas que não fazem muita diferença. É melhor ganhar o creme e não usar, dar pra alguém, do que negar, dizer que não vai usar, e chatear sua mãe, entende?

Com os pais não é tão difícil criar um relacionamento. Deixar eles sentirem que fazem parte da sua vida, que eles te ajudam.

Com desconhecidos, ou gente recém-conhecida que você ainda não sabe se vale a pena, você devia se mostrar aberta. Fazer alguma coisa pra incentivá-los. Lembre sempre que a gente tem esse jeito de eu me basto, e que precisamos fazer algo pra combater isso, pra dar coragem pra pessoa se aproximar.

Pro tal colega, ele tem vários motivos pra acreditar que você não está a fim, então se você talvez esteja a fim, convide-o pra sair.

A sua colega é uma outra história, é um karma. Não sei o que eu faria, eu também não suporto gente carente que precisa de elogios. Você conhece um seriado chamado Boston Legal? James Spader é um advogado na melhor tradição da eloquência americana, ele faz discursos incríveis. Sempre penso que foi por causa dessa atuação que o pessoal do Black List teve certeza de que ele seria a escolha certa. Num dos episódios a empresa está em polvorosa por causa da nova estagiária, uma loira peituda, e todos os caras ficam babando e falando dela, ela nem percebe, mas uma das mulheres fica muito ofendida com isso e a convence a processar a empresa. No final do episódio o que evita o processo é uma conversa honesta do Alan Shore (James Spader), em que ele chega pra estagiária e fala “você é uma mulher alta com peitos grandes, você sempre vai chamar atenção em qualquer lugar que você vá. Mas você não é só isso, você também é uma pessoa (e fala de qualidades dela, não lembro quais eram), mas até então eu não enxergava isso, e lhe devo desculpas por isso”.

Talvez algumas conversas francas com sua colega ajudem? Dizer algo gentil pra ela, sobre as qualidades dela, mas explicar que vocês têm diferenças da forma como vocês enxergam o mundo, que você fica chateada todas as vezes que ela tenta mostrar que você teria que mudar seu jeito de ser. Contar que existem milhões de outras pessoas que são como você, que também não gostam de badalação e que precisam de silêncio e sossego, e que isso não é um defeito. Se não me engano você disse que já tentou falar, mas como ela continua enchendo, eu falaria sempre.

—– mudanças a partir daqui

Minhas experiências em que tive que ter conversas sérias com pessoas que convivo… uma vez foi uma conversa com minha ex-empregada, outra uma bronca no Daniel. Resolveu a situação com a minha ex-empregada, e o Daniel, quando ele começa a sair da linha, só de ouvir a possibilidade sobre ter outra conversa séria ele volta a se comportar. Foram conversas longas, em que mantive a calma o tempo todo, fiz várias perguntas, dei exemplos, mas que o outro estava visivelmente desconfortável. Acho que uma bronca minha é algo do tipo sabugo enfiado no cu, e a pessoa que tem que passar por uma dessas faz qualquer coisa pra nunca, nunca mais na vida ter que viver isso. Acho que uma das coisas que fez o Cris aprender a rapidamente enxergar que está errado e pedir desculpas é a perspectiva de ter que encarar uma conversa chata comigo. Tem alguma chance de você ter uma conversa assim com sua colega pra ver se ela para te de encher? Não vai ser exatamente uma bronca, mas uma conversa pra se falar verdades, como o fato de “você me acha chata, mas você precisa entender que as pessoas têm valores diferentes, e que dependendo dos valores que você usar, você é a pessoa chata. Eu tenho defeitos, todo mundo tem defeitos, inclusive você. A gente convive, precisamos encontrar uma forma de fazer isso com harmonia. Tem várias coisas que você faz de que eu discordo ou não gosto, mas eu não fico falando tudo que eu penso, eu respeito seu jeito de ser, e queria que você respeitasse o meu também”. Quem sabe?

Somos pessoas chatas e difíceis. O que não dá o direito das pessoas ficarem falando isso, porque na verdade, quem nos diz “você é chato”, “você é difícil”, também é chato e difícil. As pessoas legais, as easygoing, os santos em que penso que pra mim são os exemplos de bondade, simpatia, esses nunca me falaram, nem me falariam nada, e acho que talvez nem pensem nesses termos. Eles parecem ter uma visão mais ampla e generosa sobre a vida e sobre as pessoas.

Só quem tem o direito de nos falar que estamos extrapolando no lado chato ou difícil é algum amigo querido. Alguém que vier falar isso não pra reclamar, mas porque nos ama e acha que estamos indo pra algum mal caminho. Eu posso me irritar de ouvir “onça”, na hora estava cansada e fragilizada a ponto de sentir refluxo quando pensava na história (meus tais blops, que às vezes tenho quando como algo que caiu mal, ou quando estou brava com pessoas, e sinto o refluxo só de ouvir o nome da pessoa. Quando o Daniel descobriu que eu estava tendo isso só de ouvir “onça”, me perguntou se eu já pensei em procurar um psicólogo). Mas não fui lá tirar satisfação com a carioca. Se eu tivesse ido, alguém próximo de mim teria que me falar que eu estava exagerando, provavelmente realmente precisando de tratamento.

Somos chatos e difíceis, com uma grande tendência a sermos duros e desumanos. Mas também está em nossas mãos combater essa tendência, de cultivar brandura, doçura, bondade, generosidade. Sou capaz de xingar muito alguém que tenha feito coisas ruins, seja atropelar um esquilo, ou me caluniar no Facebook porque (sei lá, acho que era porque não gostou de me ver numa posição de destaque). Mas é algo momentâneo, eu não fico pensando nessas pessoas, elas não me ocupam. No geral, o que tento cultivar são as ideias de que não conheço as dores dos outros, de que todo mundo tem um lado bom. Orson Scott Card me deu essa ideia: a de que se realmente pudéssemos conhecer as pessoas (ou outros seres, era um livro de FC), é impossível não amá-los. Não sei se eu iria tão longe, mas sei que todo mundo tem um lado adorável e que é possível se conectar com ele, se a gente não estiver traumatizada ou de saco cheio demais do lado ruim.

Tenho uma conhecida que uns amigos queridos adoravam falar mal dela, naquela maledicência inconsequente  e tão comum nas rodinhas. Pedi pra eles pararem. “Por que vocês ficam falando da …? Não tem por que a gente falar dela, a gente desperdiça nosso tempo falando dela, ela fica ocupando nossos pensamentos e tempo por quê?”.

Eu estava falando da questão do uso do tempo, mas também por achar injusto. E talvez um dia eu consiga fazer isso pela bondade. Tenho uma amiga que admiro muito, uma dessas que tem bondade genuína, e vejo que uma das coisas que ela não deixa é falarem mal de alguém que ela gosta. Mesmo que todo mundo do grupo tenha algo ruim pra se falar dessa pessoa, eu já vi ela falar “não falem assim dela, ela é minha amiga e eu fico triste de ouvir as pessoas falarem mal dela”. Guardei essa história, e agora presto atenção, quando alguém fala algo negativo sobre uma pessoa de quem eu gosto, e eu sei de algo que em parte explica o comportamento daquela pessoa, eu sempre falo sobre o motivo, e sobre as coisas boas que eu sei daquela pessoa.

E quero cada vez mais cultivar em mim a capacidade de ver as pessoas com doçura. Provavelmente nunca vou deixar de analisar, de perceber, de ver quando elas estão fazendo coisas idiotas, tentando me enganar ou se enganar, e posso até xingá-las muito na hora. Mas queria conseguir manter o tempo inteiro a consciência de que somos todos peregrinos na bolota azul, que todos temos nossas buscas, nossas dores, nossos sonhos.

Falei muito!

Me diga se algo do que te disse faz sentido, e pergunte o que quiser.

Beijos e abraços,

Claudia