Sobre a terrível arte de lidar com seres humanos

Pra provar que eu não estou só passarinhando ou vadiando, vou colar aqui um texto comprido, mas com boas ideias 🙂

Faz parte do livro que eu tenho que publicar em algo como Kindle ou ISSUU, até dia 31 de dezembro, sob a pena de ter que escrever e divulgar um texto de duas páginas, explicando por que eu não deveria falar mal das pessoas que passarinham muito mas não se preocupam com a preservação da natureza. A ideia da promessa é de um post do Wait But Why, sobre como combater a procrastinação. Eu não costumo procrastinar minhas tarefas, mas achei que valia a pena aceitar algum desafio pra tirar da gaveta coisas que não sairiam de outra forma. http://waitbutwhy.com/2013/11/how-to-beat-procrastination.html

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Sobre a terrível arte de lidar com seres humanos

Listo aqui alguns conselhos sucintos, simples e que funcionam. Não estou querendo dizer que lidar com seres humanos se reduz a isso, mas, acredite: se você seguir esses conselhos a maioria dos seus relacionamentos com as outras pessoas vai melhorar muito.

1 – Ouça com atenção

Se você está conversando com alguém por quem você tem um mínimo de consideração, ouça com atenção. Ouça as palavras, o tom de voz, o que está sendo dito e o que foi omitido, a escolha dos temas, a postura corporal, ouça o olhar do outro, se ele está lhe contando algo importante, valorize ainda mais se for um daqueles momentos em que as palavras nem saem direito, porque ele está pensando e falando ao mesmo tempo, e não apenas repetindo um discurso que ele já falou pra muitas outras pessoas. Ouvir é uma qualidade cada vez mais rara, a maioria das pessoas não quer ouvir, elas só querem saber de falar, vomitar palavras e historias, não seja alguém assim.

Uma conversa é um diálogo, uma interação entre pessoas. O certo seria que as duas partes falassem e ouvissem, mas hoje em dia a maioria das pessoas só quer falar. Mesmo assim, se você gosta da pessoa, ou no mínimo se você precisa ter interações com ela, ouça com atenção.

Se você conseguir quebrar sua ansiedade de falar e assumir a postura de ouvinte, de alguém confiável, que realmente tem interesse em ouvir o que o outro tem a dizer, a qualidade das suas interações com os outros melhora, e você aprende muito mais. Mesmo que a pessoa seja uma chata, repetindo as mesmas historias, se você precisa se relacionar com ela ouça e faça perguntas.

 

2 – Interaja sempre – faça perguntas diretas olhando nos olhos das pessoas

Como eu faço para não ser um babaca chatonildo que só vomita historias e ideias repetidas dezenas ou centenas de vezes? É muito fácil: não fale por muito tempo, e sempre interaja com o seu interlocutor. Faça perguntas sinceras olhando nos olhos das pessoas. Pode contar de alguma coisa que você tem pensado ou refletido, mas envolva os outros, pergunte o que eles acham de tal coisa, como é com eles. Faça perguntas diretas e que exigem respostas elaboradas. Se houver intimidade suficiente faça até mesmo perguntas difíceis que exigem a pessoa expor valores e fraquezas.

A coisa mais incrível da socialização é nossa oportunidade de termos a mente fecundada por outras visões de mundo, outras experiências. Encontrar pessoas e só discursar é desperdício e burrice.

 

3 – Esteja sempre atento à reação das pessoas com quem você está conversando

Mude de tema se o assunto não for do interesse, lembre-se sempre que o objetivo é interagir, e não discursar. É muito simples: basta olhar pra cara das pessoas e checar se elas estão interessadas em conversar sobre aquilo, o interesse ou desinteresse é muito evidente. Se há desinteresse, tudo bem mudar de assunto ou até ninguém mais falar nada. Não deveríamos ter medo do silêncio. Ou melhor, estou falando das pessoas mais especiais, com quem não há obrigatoriedade do tempo todo haver conversas de salão.

Se não for uma pessoa especial, dessas que vocês gostam da companhia um do outro mesmo que não haja conversa, vá embora. Por que conversar com alguém que não está interessado no que você está falando? Estou falando de conversas de verdade. Pra papear socialmente há uma outra dinâmica, sempre há uma miríade de trivialidades ou assuntos seguros, como viagens, restaurantes, filhos, e nessas situações em geral as pessoas se atropelam pra ver quem fala mais – isso é outro caso.

 

4 – Deixe as pessoas à vontade

Quebra gelo pra papear socialmente numa roda de desconhecidos (não totalmente desconhecidos, estou supondo um evento em que você conhece pelo menos o dono da festa): aproxime-se da roda, sorria, fale oi pras pessoas ou acene com a cabeça, ouça sobre o que estão falando, e assim que possível conte alguma historia curta sobre algo idiota que você fez, falou, confundiu. Ou de alguma bebedeira, ressaca. Isso deixa as pessoas sorridentes, geralmente elas também vão contar de alguma gafe ou bobagem, e até misantropos se sentem inseridos.

Claro, você precisa ver qual é o assunto vigente, sua historia não pode parecer algo forçado e deve ser no mesmo nível da conversa vigente. Se a conversa for algo ingênuo, conte alguma gafe ingênua. Se a conversa for algo mais papo de adultos, não conte a gafe ingênua, e sim procure alguma história com um ex-namorado ou algo do tipo. Também vale a pena compartilhar algum podre de um conhecido – principalmente se é alguém querido, famoso por ter tal característica de ser esquecido, ou desencanado, ou folgado, ou cara de pau. Não maldades, apenas se forem historias que fazem parte do folclore de quem ela é, e que com certeza vão puxar outros causos.

Evite qualquer assunto em que você possa parecer pretensioso ou arrogante. Ou se o assunto surge, você dá um jeito de logo inserir elementos de simplicidade e humildade, e até desviar o assunto para outro rumo. E sempre evite falar muito tempo, não conte nada comprido, bate papo social é interação, lembre-se de sempre cuidar para não ser um babaca chatonildo que fica repetindo as mesmas historias.

Por exemplo, algumas pessoas sabem que eu e o Cris já fomos várias vezes fotografar na África do Sul. Se o assunto surge, no mínimo a gente conta que é num esquema barato, e se a pessoa realmente está interessada em saber como é a viagem, daí a gente conta detalhes. O teste pra saber se a pessoa quer mesmo ouvir é “ah, mas não são aqueles safaris de luxo, não, é um esquema muito simples, a gente pega um carro, fica nuns chalés dentro do parque, preparamos nossa comida, lavamos nossa louça, fazemos nossos horários. Mas vocês viajaram pra tal lugar neste ano, não? Como foi?” E a pessoa vai falar da viagem dela. Ou, se ela estiver mesmo interessada em saber da sua, ela vai dar uma resposta curta sobre a viagem dela, e começar a fazer perguntas sobre a sua.

 

5 – Escolha suas lutas

Vale a pena discutir? Pense nas vezes em que você já debateu algum assunto. Você e a pessoa com quem discutiu ampliaram seus horizontes, foram influenciados pelo conhecimento e vivência do outro? Ou só tentaram provar que eu estou certo e você está errado?

Na maioria dos debates, seja ao vivo ou por escrito, a discussão é só uma exibição de retórica. Você pode se envolver em discussões, se nunca perder de vista que dificilmente você vai mudar a opinião do outro. Às vezes me envolvo em algumas discussões que sei que não vão dar em nada, mas por serem numa rede social, deixo lá como pedra sinalizadora da minha opinião sobre o assunto, como parte da minha imagem pública. Fica desgastada pra quem não me interessa, pode ser interessante pra quem me interessa.

Claro que é possível haver discussões em que há trocas de ideias. Mas é fácil reconhecer alguém disposto a trocar ideias: a postura da pessoa é receptiva e de curiosidade genuína, não é de alguém pronto pra duelar com palavras.

 

6 – Não é difícil evitar discussões estéreis com desconhecidos, mas muitas vezes você precisa ter discussões pesadas com gente querida. O que fazer?

Não deixe a conversa cair no campo da raiva e das farpas, nessa vibe não se chega a lugar algum. A única forma de reconciliar, ou de chegar a um novo entendimento, é se as pessoas estiverem ouvindo com o coração. Quando estamos com raiva e machucados, ficamos cegos à razão.

Eu e o Cris já tivemos DRs terríveis, mas elas tinham que ser feitas na cama, um de frente pro outro, abraçados, sem chance de alguém sair pisando duro ou batendo portas. E eram conversas em tom de voz ameno, em que se reconhece que lá é um terreno de paz, pra falar do que magoou, pro outro explicar por que falou ou fez tal coisa. Se a conversa era muito tensa, podia ter uma tentativa minha de levantar e sair do quarto, mas o Cris nunca deixava, me prendia e ficava falando as frases de encantador de bestas “sou eu, olha pra mim. Não precisa se sentir desse jeito, você sabe quem eu sou…”

Também vale fazer em duas etapas: primeiro faça as pazes, peça desculpas sinceras, deixe a ferida cicatrizar. Num outro momento vocês falam do problema.

 

7 – Como pedir desculpas

Peça desculpas de todo coração. Você está entrando no terreno de alguém que você machucou e ofendeu. Lembre-se de Confúcio: “aonde quer que você vá, vá com todo o coração”, e poucas situações exigem tanto coração quanto ter que reconhecer um erro, tentar restabelecer um laço, recuperar uma parte da confiança perdida.

Peça desculpas com sinceridade, franqueza, humildade. Ou então não peça. Um pedido de desculpas fajuto, que você vê que a pessoa de fato não lamenta por nada, não acha que fez algo errado, e está apenas cumprindo um ritual para poder dizer que ela já se desculpou só piora a situação.

Você precisa fazer um bom exercício de empatia e se colocar no lugar do outro, entender o que magoou e ofendeu. E você nunca pode minimizar sua culpa. Tentar dizer pro outro que o que você fez não foi tão grave assim é jogar gasolina na fogueira, você está conseguindo pisar na bola duas vezes: primeiro por ter falado ou feito alguma bobagem, depois, ao dizer que o que você fez não foi assim tão grave, você está dizendo que o que a pessoa sente é irrelevante, ou que ela está fazendo tempestade num copo d´água.

No campo pessoal você pode imaginar ene exemplos, especialmente na relação entre casais. E posso citar um outro exemplo que li num artigo da Carta Capital: um membro de uma banda fez um comentário racista numa entrevista pra uma revista pra adolescentes. Os editores manés publicaram. Um tempo depois o caso repercutiu, e o que o autor da frase racista fez? Publicou o pior tipo de desculpas possível “aconteceu um negócio aí em que fui mal interpretado, não tive a intenção, quem me conhece sabe que sou da paz”, o que deixou o pessoal mais ofendido ainda. O que ele deveria ter respondido? Algo na linha de “Na edição tal da revista tal apareceu uma entrevista em que eu falei uma grande idiotice. Falei tal coisa, sem pensar no contexto, que é uma entrevista para uma revista lida por milhares de adolescentes e que meu comentário idiota contribui para a ideia de que é preciso haver um padrão de beleza e que as meninas que não estão dentro desse padrão precisam mudar quem elas são. Lamento muito ter falado isso, eu falava isso como brincadeira entre amigos, mas depois das críticas que recebi, vi que as pessoas que me criticaram estão certas. Como figura pública, é uma grande irresponsabilidade da minha parte contribuir para essa situação em que tantas meninas vivem infelizes porque não estão dentro de um padrão tão artificial e cruel. Peço desculpas a todos que ofendi, e tenham certeza de que terei muito mais cuidado pra que minhas palavras e ações não só se distanciem dessa visão estereotipada, como também promovam o reconhecimento de que a beleza tem muitas formas, e que não precisamos seguir um padrão que contraria quem nós somos”. Viu a diferença?

Outro exemplo: eu sempre presto atenção em roupas com estampas de animais. Uma vez encontrei uma camiseta da Hering com estampas de aves, acompanhadas dos nomes científicos, mas os nomes estavam todos errados. Quem montou a estampa não se deu o trabalho de jogar no Google os nomes, ou teria visto que estava montando uma estampa absurda. Escrevi pra Hering com gentileza e educação, falei sobre a importância das aves brasileiras, disse que se eles precisarem de consultoria para fazer estampas sobre as aves eu poderia indicar nomes de ornitólogos que poderiam ajudá-los. Recebi uma resposta de 4 linhas, de uma assessora de imprensa terceirizada, que agradeceu minha mensagem, e disse que eles estarão mais atentos aos detalhes. Uma empresa que usa a ideia de ser brasileira como parte do marketing não dá o menor valor para a natureza do país, e permite que alguém que fala em seu nome diga que nome científico errado é apenas um detalhe. Coincidência ou não, nunca mais consegui comprar roupas na Hering, olho pras vitrines e tudo parece sem graça. E provavelmente uma parte disso é porque o valor da marca diminuiu aos meus olhos.

São raras as pessoas que acham que todo mundo tem que ser perfeito. A maioria das pessoas entende erros. A diferença é o que as pessoas fazem frente aos erros. Quando você recebe uma crítica, ou alguém diz que você fez algo errado, é hora de mostrar do que do que você é feito. Você é capaz de reconhecer seu erro e sair da situação como alguém honrado, digno, humilde, humano, e aumentar assim o seu valor? Ou você tenta fazer de conta que não foi nada demais, sem enxergar que cada mancada é um laço rompido?

 

8 – Como pedir desculpas se eu não estou errado?

Ok, preciso ser sincero no que vou falar. Mas como pedir desculpas se eu não consigo ver onde estão os erros do meus argumentos ou das minhas ações? Eu só sei que chateei a pessoa, mas não consigo ver o que fiz de errado, ou então não consigo aceitar que tenha sido errado o que eu falei.

Você pode pedir desculpas mesmo assim, basta não entrar no mérito dos argumentos, aja com o coração. Se é alguém de quem você gosta, peça desculpas por ter chateado a pessoa. Isso é algo que você pode se desculpar sinceramente.

Outra coisa importantíssima: o objetivo do pedido de desculpas é reconciliação e paz. Não dá para fazer pedido de desculpas com ressalvas, as ressalvas só reacendem a discussão. Você não está lá pra ganhar uma discussão, você está lá pra voltar a se sentir bem e conectado com a pessoa. A discussão sobre os méritos dos argumentos deve ficar pra outra hora.

Se houver clima, você pode tentar entender o que aconteceu. Pedir para a pessoa explicar o que a chateou.

 

9 – “Me desculpe” e “Muito obrigado” deveriam ser palavras recorrentes em qualquer interação entre pessoas

Não tenha receio de se desculpar, e acostume-se a sempre agradecer. Faz bem pro karma, faz bem pra alma. Você verá como sua vida fica mais leve se você não tiver receio de se desculpar ou de agradecer com sinceridade.

 

10 – Procure a companhia de quem te faz bem, afaste-se de quem te faz mal ou não te valoriza

Parece óbvio, mas não é. Muita gente alimenta relacionamentos doentios, em que a pessoa não consegue enxergar que tem sido alvo de maldade, malícia, desprezo, humilhações. Não gaste tempo com quem não te merece, quem te deixa pra baixo, ou quem só te procura como segunda opção, quando não tem outras coisas pra fazer. Entre numa sintonia de bondade, generosidade, bom humor, leveza, se valorizar, e veja como isso atrai pessoas nessa sintonia também.

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Falei das coisas que são certas. Mas quero dizer que nem sempre ajo assim. Eu sou uma pessoa pra quem justiça, honra, responsabilidade, caráter são coisas que pesam muito. Quando as pessoas agem de forma que a meu ver demonstra arrogância, leviandade, mesquinharia, moralismo, argumentos toscos, é comum eu usar minhas palavras como uma espada. Mas daí são situações em que não tenho qualquer interesse em manter uma relação, escrevo ou falo pra chutar o pau da barraca mesmo. Sei que estou cortando os laços com aquelas pessoas, mas é uma escolha.