Sobre a discriminação contra japoneses

Não contei aqui, mas por motivos de crise econômica deixei de fazer análise. Eu gostava. Quem sabe volto quando a situação melhorar, acreditando que vai melhorar.

Tentando aplicar a técnica da minha analista, que ficava bem feliz nas poucas vezes que me viu chorar, e às vezes tentava fazer um tom de voz pra ver se me fazia chorar, vou seguir a lógica de que se te faz chorar, é algo importante que você deveria dar atenção. No meu caso, preciso dar mais atenção ainda, porque ela me explicou que eu sou uma pessoa muito dura e fechada, muito difícil mexer comigo.

Quando fui escrever a resposta ao texto fajuto que incentiva as posturas de ódio pelos muçulmanos, e estava descrevendo o que as pessoas faziam comigo em Limeira, me vi chorando. Já falei sobre isso com pessoas em outras ocasiões… conversava com meus pais umas semanas atrás, e eles me falaram que antigamente era pior ainda, azucrinavam mais ainda os japoneses. Lembro que quando falei disso, não foi doído. Talvez porque parecesse coisa do passado, de muitos anos atrás. Talvez a diferença de agora foi a situação em Brotas, pensar na moça puxando os cantos dos olhos, achando que aquilo era engraçado, ou os condutores achando que não tem problema algum ficar falando, na nossa frente, que somos pessoas sem individualidade. Que não somos pessoas.

Ah, como doi. Minha analista ia adorar esse assunto.

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Estou trocando e-mails com o amigo que tinha encaminhado o texto fajuto. Ele me ajudou a organizar uns pensamentos sobre o assunto:

“Pra ficar no Japão, mesmo, meu filho é fã de carteirinha das coisas japonesas. Adora músicas, filmes, mangás, animes em geral, assiste tudo que é do Naruto, sonha em ir ao Japão andar no trem bala e, claro, adora comida japonesa.
Quando eu tinha a idade dele, não era assim. Tinha mesmo aquela coisa de dizer que “japonês é tudo igual”, sushi era nojento, National Kid era ridículo, e tudo que se fazia no Japão não tinha qualidade. Mudou muito de lá pra cá. Japão é referência no que faz.
A única coisa que sempre se reconheceu entre os japoneses era a capacidade de tirar notas boas na escola. Quando a PUC e a USP colocavam os nomes dos primeiros colocados no vestibular,
não tinha pra ninguém.  Só dava sobrenomes japoneses. Meu filho mesmo comentou outro dia que no noticiário policial raramente você vê um descendente japonês entre os criminosos.”

Acho que há uma grande questão de imagem. Quando eu era criança, os japoneses eram ilustrados como garotos dentuços, de pele bem amarela, com cabelo de corte de cuia, olhos que eram só uns risquinhos, tamanco de madeira, e havia piadinhas nos livros didáticos que diziam coisas como “o japonês tem olhos apertados porque tem que ficar caçando o arroz na tigela com palitinho”.

Tentei encontrar uma imagem como essa no Google, não achei.

Mas acredite, era assim. E era esse tipo de coisa que alimentava os comportamentos de bullying contra japoneses.

Tanta coisa mudou nas úlitmas décadas. Inclusive pros japoneses, principalmente por meio dos animes e mangás, hoje deve ser impossível encontrar alguém jovem que despreze o Japão, que nunca passou por nenhuma fase de se interessar por um anime, mangá ou game japonês. Sushi, então… essa é uma informação que eu não tinha, de que o sushi era considerado algo nojento, quem diria.

Hoje em dia imagino que também dá um bom status namorar uma oriental, ainda mais se ela tiver cabelos longos, usar saias curtas e meias até o joelho. Acho que eu ainda tinha cabelo curto, mas uma das memórias especiais foi ter ganhado uma secada do Angelli, numa Bienal, e eu estava de minissaia e meiões. Ah, por que não se aproveitar da mítica das colegiais japonesas.

Se eu não fosse comprometida há tanto tempo, eu ia deitar e rolar. Tenho uma amiga, descendente de japoneses também, que odeia os jappers – os caras tarados por japonesas. Se eu estivesse no mercado ia aproveitar muito. Provavelmente pelo menos em alguns casos ia dar uma de Lucy Liu vestida de couro preto, com o chicotinho na mão, estalando as ordens pra cima dos nerds. E hoje em dia isso só é possível porque nos filmes, desenhos animados, historias em quadrinho, as representações do que é uma japonesa são muito diferentes do passado.

A Lucy Liu é chinesa, não japonesa, mas já é a segunda vez que ela me ajuda. Teve um episódio do Ally McBeal que brigam com ela, ela fica brava, e fala “eu vou… eu vou… eu vou fazer compras!!”, e a gente incorporou. Tem uns dias ruins que a gente fala “vou fazer umas compras pra ver se desestresso”, são umas compras bobocas, como passar num mercado e comprar umas Rogues, ou dar uma volta na livraria, mas é o conceito de que as compras curam.

E pelo menos hoje, lembrar dela com o chicotinho me ajudou a sair da deprê de pensar nas discriminações contra orientais.