Sobre a carta que não escrevi pro Obama

A ideia não é minha, é do Guilherme, ou melhor, acho que foi da cunhada do Guilherme (Se entendi direito, é alguém com um nome lindo, algo como Sky). O Guilherme é um dos ornitólogos que eu conheci em Natal neste ano. Falávamos sobre os Estados Unidos, o quanto eu tinha gostado das viagens, das pessoas, e ele contando como tudo batia com o que a Sky tinha contado do tempo que passou em Nebraska. Inclusive a crise de choro ao pensar no Brasil, mas acho que pra ela foi até pior. Eu estava em frente à Sierra Nevada, chorando no ombro do Cris, pedindo pra gente se mudar pra América. Ela teve o choque de voltar da América, pegar um ônibus pra ir pra faculdade no horário do rush, e ter que ficar pensando-lembrando-sofrendo.

“Ah, como é doído”, “A Sky me falou. Quase escreveu uma carta pro Obama pedindo ‘Obama, deixe-me ficar aqui’” – ouvi essa frase com aquele sotaque bonito do pessoal do Rio Grande do Norte. Pensei na hora “Gênia. Uma carta pro Obama”.

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Óh Óbaama, deixa eu e todo mundo de quem eu gosto se mudar pros Estados Unidos.

Óh Óbaama, somos honestos, trabalhadores, criativos, gentis, pacíficos, não-moralistas, amamos a natureza.

Óbaama, além de eu e todo mundo de quem eu gosto poder se mudar, será que vocês poderiam assumir o Brasil? Eu sei que vocês também têm seus problemas de corrupção, violência, xenofobia, lobby, escândalos, Trumps e trumpistas. Mas é como se vocês tivessem conseguido fazer as coisas de um jeito que o bem venceu pra uma parcela grande da sociedade.

Óh Óbaama, vem assumir o Brasil pra que a gente também tenha tantas cidades com casas sem muros, lugares em que você pode andar sem medo de ser assaltado, sem medo de arrombarem seu carro, sem medo de ser roubado, estuprado e assassinado numa trilha. Vem assumir o Brasil pra que a gente também tenha supermercados com self-checkout, parques em que não há um fiscal na entrada – há um lugar em que as pessoas vão passar o cartão e pagar o ingresso, ou então elas mesmas vão até o centro de visitantes, e ninguém precisa ficar checando se tem alguém enganando. Nos parques ninguém vem te dizer que é proibido fotografar, todo mundo sorri, é gentil e simpático.

Óbaama, traz pra gente o desenvolvimento turístico em que é tão fácil ir de cidade em cidade, e todas elas têm vários hotéis bons e baratos, várias opções de restaurantes, vários parques e passeios estruturados, organizados, eficientes, divulgados. As estradas são excelentes, tudo é sinalizado, a gasolina é barata, há tantas opções de lazer na natureza.

Óbaama, vem mostrar pro Brasil que o ser humano faz parte da natureza, que é possível vivermos em harmonia, que a exploração pode ser racional e que os parques podem e devem receber bem os visitantes.

Óbaama, mostra que as pessoas podem se mobilizar e ser ouvidas e que há justiça e esperança.

Óh Óbaama.

Faz um passe de mágica e mude 500 anos de história brasileira. Faz desaparecer os trolls, orcs e demônios que infestam e dominam essa terra tão bela em que há tanta gente boa mas é um mar de lama, óh Óbaama. Como é difícil manter a esperança. Cada enxadada uma minhoca. A corrupção e a mentalidade da corrupção, do roubo, da extorsão, da violência, das quadrilhas, da máfia, das milícias se estende em todas as esferas, parece que tudo que tem potencial de render lucro, poder ou influência, aí estão os demônios.

Uma terra tão rica com tantas riquezas e tanta gente trabalhadora, inteligente, criativa. Rendemos tanto. E em vez de todo esse esforço ser revertido em qualidade de vida pra todo mundo, é essa realidade bizarra em que as decisões são tomadas visando os interesses pessoais dos políticos e os grupos que os apoiam.

Por que não tivemos uma revolução na educação, como a China ou Coréia tiveram? Porque pros nossos políticos conhecimento e cultura são ameaças. Porque é preciso manter os currais eleitorais.

Por que milhões de mulheres pobres são torturadas todos os anos, e algumas milhares morrem na tentativa de fazer abortos? Por que o aborto não é descriminalizado, por que não há investimento em planejamento familiar, políticas de prevenção? Porque as crenças religiosas de vários políticos conseguem sobrepujar a força de um Estado teoricamente laico. E porque a pregação religiosa que torna o aborto crime também mantém as pessoas pobres no círculo vicioso da pobreza. Mulheres jovens que têm que parar de estudar, filhas de outras mulheres que também engravidaram jovens. Há muito pra se lucrar com pobreza e violência. Mas quando há mais riqueza, educação, cultura, é mais fácil fiscalizar, acompanhar, cobrar.

Por que o meio ambiente não é fiscalizado e valorizado? Por que não estamos lucrando com patentes em remédios e cosméticos, explorando nossas riquezas de uma forma sustentável, desenvolvendo o turismo, e em vez disso a gente faz a coisa mais uga-buga que é desmatar e queimar tudo? Porque há muitos políticos que lucram horrores com a exploração uba-buga.

Por que há tantos estupros e assassinatos no Brasil? 50 mil assassinatos em 2012, 59 mil em 2014. 47 mil estupros registrados em 2013, com certeza de subnotificação, e a possibilidade de serem 500 mil por ano. Você pode imaginar os diversos motivos que levam pra essa situação, mas no geral dá pra falar: porque a maioria das pessoas que morrem (homens pobres jovens) são pessoas sem representação ou importância social (muito diferente da comoção pela morte de um ator global, por exemplo); e porque a maioria dos estupros é de mulheres – que em geral não conseguem nem denunciar, de tanto trauma, medo, raiva, vergonha. Os casos notificados no geral são de adolescentes e crianças, que um adulto fica sabendo e notifica, mas as adolescentes e crianças também conseguem fazer pouco.

Óbaama. O Brasil é um paraíso tropical. No geral sem terremotos, maremotos, furacões ou pragas. As secas e enchentes acontecem, mas teriam efeitos bem menores com a estrutura e tratamento corretos. O Brasil é um dos países em que mais chove, com a maior reserva de água doce do mundo, com a maior biodiversidade do planeta, com a Amazônia – e a gente tem jogado tudo isso pelo ralo, a troco do lucro de um punhado de orcs que não têm a menor preocupação com o futuro.

Óh, Óbaama.

Óh, Óbaama.

O passe de mágica pra desaparecerem os orcs é difícil, eu sei.

Sou uma covarde filha-da-puta em me sentir tão desalentada? Em não me sentir forte e otimista de que verei um Brasil diferente, e em vez disso fico pesquisando passagens baratas pros Estados Unidos, ou imaginando algum jeito de, daqui a uns anos, quando o Daniel não precisar mais da gente por perto, morar em algum país mais civilizado?

Brasil ame-o ou deixe-o. É tão fácil amar o Brasil. Mas como é difícil não se importar e não doer e não se revoltar com tantos pedaços podres.

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O mês de ausência de postagens foram férias na Califórnia. Monterey, Point Reys, June Lake, Yosemite. Passeio de barco com avistamento de baleias e 2 mil golfinhos. Yosemite… ainda bem que eu não tinha lido nada mais aprofundado, foi embasbacante. Saí de lá como quem é obrigado a deixar Valfenda. Compartilho nos próximos dias. Desculpe se prometi falar com você quando voltasse de viagem e ainda não falei, é que estou sofrendo a descompressão, mas logo consigo.