“Só engravida quem quer”

Eu tinha topado com esse dado de uma pesquisa de uns 10 anos atrás, e depois não achei mais. Agora a Fiocruz divulgou o resultado da pesquisa feita com 24.000 mulheres que tinham acabado de dar a luz, em 191 municípios brasileiros.

Sabe quantas engravidaram por um oops, não porque queriam? Mais de 55%.

“Os dados mostram, ainda, que 25,5% das entrevistadas preferiam esperar mais tempo para ter um bebê e 29,9% simplesmente não desejavam engravidar em nenhum momento da vida, atual ou futuro. (…)

A gente encontra o que é visto em tudo com relação à saúde na nossa população. Quem não consegue planejar? São as mulheres sempre com maior vulnerabilidade social. Então, são as meninas mais jovens, as adolescentes. São as mulheres pretas e pardas. São as mulheres de baixa escolaridade. São as mulheres que não têm uma relação ou uma situação conjugal estável’, disse Theme.

De acordo com os pesquisadores, os dados foram cruzados com base em procedimentos estatísticos onde se busca um desfecho, no caso, saber quem faz o planejamento da gravidez.

‘O que a gente encontrou é que o fato de a mulher ser negra aumentava a chance de ela de ter uma gravidez indesejada. Independente dela ser negra, jovem e sem companheiro, o fato de ela ter muitos filhos já fazia ela não querer ter outros filhos. São fatores que, independentementes dos outros, vão se associando ao fato de ter uma gravidez não planejada’, completou a pesquisadora.

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/mais-de-55-das-brasileiras-com-filhos-nao-planejaram-engravidar.ghtml 

Como eu sempre escrevo, é isso que as políticas públicas brasileiras relacionadas a planejamento familiar e direito de abortar fazem com as pessoas e com o país: tornam quase impossível essas jovens mães negras e pobres conseguirem estudar, obter melhores empregos e mudar de faixa social, porque estão atoladas no pesadelo de ter que criar filhos muitas vezes sem apoio do pai da criança, que simplesmente some.

E os filhos vão crescer nesse ambiente que torna tão tentador ir pro único caminho onde há possibilidade de dinheiro rápido (ou simplesmente dinheiro): o crime.

A recusa dos políticos em promover o planejamento familiar e o direito de abortar não pode ser só uma questão de crenças religiosas. Só pode ser parte do plano pra manter as pessoas no cabresto, o país no terceiro mundo perpetuando a violência, o medo e a corrupção.

Há uma luz no fim do túnel. Nesta semana três ministros do Supremo Tribunal Federal mandaram soltar pessoas que tinham sido presas por trabalhar em uma clínica de aborto. Olha que lindo alguns dos argumentos do ministro Luis Roberto Barroso:

“Como pode o Estado – isto é, um delegado de polícia, um promotor de justiça ou um juiz de direito – impor a uma mulher, nas semanas iniciais da gestação, que a leve a termo, como se tratasse de um útero a serviço da sociedade, e não de uma pessoa autônoma, no gozo de plena capacidade de ser, pensar e viver a própria vida?”, escreveu o ministro Luís Roberto Barroso, autor do voto vencedor.

Além desses fundamentos, o ministro também considerou o impacto da criminalização sobre mulheres pobres.

“O tratamento como crime, dado pela lei penal brasileira, impede que estas mulheres, que não têm acesso a médicos e clínicas privadas, recorram ao sistema público de saúde para se submeterem aos procedimentos cabíveis. Como consequência, multiplicam-se os casos de automutilação, lesões graves e óbitos”, escreveu no voto.

http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/11/turma-no-supremo-derruba-prisao-de-equipe-medica-de-clinica-de-aborto.html

Mas veja a reação da câmara, que vai tentar reverter a decisão e incluir na constituição uma frase clara pra dizer que aborto é crime:

“Revogar o Código Penal, como foi feito, é verdade, num caso concreto, trata-se de um grande atentado ao Estado de direito. O aborto é um crime abominável porque ceifa a vida de um inocente”, disse o líder do PV, Evandro Gussi (SP).

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-stf-descriminalizou-o-aborto-entenda

É sempre a mesma hipocrisia. Aborto é crime abominável porque ceifa a vida de um inocente. Falar que a mãe é vagabunda e não conseguiu ficar de pernas fechadas, e agora ela que se vire, não é crime abominável (argumento já usado em salas de tribunal e falado com frequência nos postos de atendimento de saúde). Bolsa família que garante um dinheirinho mas pára nisso, nada de montar um plano pra que aquelas pessoas possam estudar, ter creches boas, acesso a empregos melhores e assim perpetuamos a pobreza, isso não é abominável. Deixar esses jovens pobres numa situação tão desalentada que entrar pro mundo dos crimes, sabendo que é tão fácil levar um tiro, é a melhor opção (59 mil assassinatos no Brasil por ano. 59 mil. A maioria jovens da periferia), isso não é crime abominável.

A vida só é sagrada enquanto está dentro da barriga da parideira. Depois que nasceu, foda-se. Sou um bom cristão.

 

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/08/18/internas_polbraeco,495139/gravidez-precoce-brasil-tem-indice-de-pais-que-permite-casamento-infa.shtml 

“A quantidade total de crianças nascidas de mães adolescentes caiu, mas proporcionalmente, chegamos ao Top-50 em casos de gestação em jovens com menos de 18 anos, próximos a nações como o Sudão do Sul (…)

De acordo com o relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), divulgado em 2013, foi constatado que, no Brasil, 12% das adolescentes de 15 a 19 anos têm pelo menos um filho. Na mesma pesquisa, 19,3% das crianças nascidas em 2010 são filhos e filhas de mães menores de 19 anos.

A manicure Nicelly Nascimento foi mãe aos 13 anos, e hoje, com 26 anos, conta as dificuldades que passou na época. “Ter que me posicionar perante aos outros foi bem difícil. Mudou bastante os rumos da minha vida. Tive que parar os estudos e, quando meu filho tinha dois anos, tive que começar a trabalhar, o pai não ajudou com nada. Foi bem complicado”, lamenta.”

http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/11/gravidez-na-adolescencia-passa-de-20-em-areas-mais-pobres-de-curitiba.html

A foto do post é desta reportagem da Reuters: http://blogs.reuters.com/photographers-blog/2012/10/02/the-cycle-of-poverty-and-pregnancy/