Só a boa ficção salva

Um tempo atrás (muitos anos atrás, porque este é um dos posts antigos, mas que continuam valendo) reassisti a Lendas da Paixão. E logo reassistirei a O Paciente Inglês. Porque os personagens são bonitos, as situações intensas, as escolhas cruciais. As histórias conversam com minha alma e coração, sou eu lá no deserto, no meio de uma tempestade de areia, fechada num jipinho com um homem lindo como o Ralph Fiennes, ouvindo histórias sobre os diversos tipos de ventos, e ele estende o braço e toca as pontas de uma mecha do meu cabelo com toda delicadeza. Sou uma mulher casada e sei que estou perdida.

E também sou casada com um homem de quem gosto, mas por quem não sou apaixonada, e vou visitar o amor da minha vida na prisão. Um homem que me deixou 6 anos esperando, sendo que a última notícia, 5 anos antes, foi “nosso amor morreu, como eu morri. Case com outro”. Mas ele está lá, lindo de morrer, não temos muito tempo pra conversar, então conto o mais importante, o que está me comendo por dentro. Conto, com os olhos molhados e o sorriso de desalento, que algumas vezes desejei a morte do Samuel, e também da esposa do [Brad Pitt] (dois personagens que acabam morrendo, e que eram obstáculos a eu ficar com o Brad). Ele me olha com aquele olhar de proteção, de dono, de quem cuida, e me diz com firmeza que não tenho nada a ver com a morte deles.

(Sabem, aquele medo de que as coisas ruins aconteceram porque a gente pensou nelas, ou as desejou, que foi a gente que as tornou concretas.)

E eu, estéril, também conto que às vezes também sonho que sou a mãe dos filhos dele.

Ele me olha com toda ternura e pede desculpas. Não precisa explicar, eu sei que são desculpas por ter tido que correr o mundo atrás da alma, por ter escrito aquele maldito bilhete, por não ter dado notícias antes e, finalmente por voltar e eu ter que olhar pra ele e saber que minha vida sem ele não vale nada.

Mais tarde naquela noite bebo bastante, depois vou me aprontar pra dormir, solto o cabelo, corto duas mechas e me mato com um tiro. No filme a gente só ouve o tiro, provavelmente foi na cabeça.

O tempo todo.
O tempo todo devíamos estar em contato com as histórias e os personagens grandiosos. Eles nos devolvem o senso do que é real.

— Adendo de hoje, novembro de 2014

Os portais de notícias, com suas informações cada vez mais superficiais e sensacionalistas, não são reais. Só a boa ficção pra nos devolver o senso de realidade, pra nos lembrar que a vida é muito mais.