Síndrome de Secretária

É coisa de peão, tenho quase certeza e faz todo sentido, certo? A alta cúpula não precisa desenvolver esse tipo de habilidade, porque sempre tem quem faça as coisas, resolva as coisas.

Num outro patamar, é como a minha incapacidade de lidar com gente rude e desonrada. Em geral, simplesmente não precisei, então quando topo com isso não sei o que fazer. Mas se levasse coice  o tempo todo desde a infância, de alguma forma você aprende a se virar.

Ontem eu estava desolada porque chegou a nossa sexta multa. Sexta multa em dois meses. Por estar a 70 em lugares em que o limite é 60, ou a 60 em lugares que o limite é 50.

Não importam as placas, não importa o quanto eu fale: simplesmente não entra na cabeça do Cris a ideia de que mudaram os limites de velocidade na cidade.

Assim como não importa quantas vezes eu fale, não consigo fazê-lo apertar o botão que destrava as quatro portas, ele só destrava a dele, e se eu tenho algo pra pegar no banco de trás cabe a mim sempre falar “você pode destravar a porta de trás?”. Quando são coisas que ele precisa pegar, ele também esquece. Eu o vejo sair do carro, tentar abrir a porta, ver que está travado, ter que destravar pelo controle ou ter que voltar pra porta para apertar o botão geral. E mesmo assim ele não consegue aprender a apertar o botão que destrava as quatro.

Além da sexta multa, umas horas mais tarde fico sabendo que o livro do Caras do Poker que eu embalei com plástico bolha e ele mandou pro correio não chegou. “Mas o que o código de rastreamento diz?”, “Não sei”, “Pega e coloca no site”, “Não sei onde está o papel. Me entregaram o papel, mas eu não sei onde coloquei. E não me olhe assim, a culpa não é minha, não fui eu que extraviei o livro, a culpa é dos Correios”.

Ontem eu só estava desolada-acabada e não muito brava. Conversamos, ele se desculpou, expliquei pra ele que os Correios não são infalíveis e é por isso que existe um código de rastreamento, pra tentar descobrir onde falhou a entrega. Claro que ele sabe disso, ele só não se importa, e sabem por quê?

O Cris já fez trabalhos subalternos e de estagiário, mas acho que foi por pouco tempo. No mínimo, não foi por tempo suficiente pra desenvolver a síndrome de secretária, que peões como eu e meus amigos desenvolvem. Você aprende a ser organizada e a guardar papéis.

Mandou algo por Sedex? Você guarda a nota, e hoje a coisa mais simples teria sido fotografar a nota e mandar pro destinatário. Você está lidando com pessoas levemente ou profundamente desonradas, ou bagunçadas, atrapalhadas? Você conversa por telefone ou ao vivo, e depois manda email, com várias pessoas copiadas, registrando o que foi combinado, e nem pede pra ela dar ok, você diz “então combinamos que a entrega fica pra tal data nessas condições”, e quando dá merda, porque com esse tipo de gente sempre dá, no mínimo você tem o email pra poder mostrar que não é culpa sua, que sim, você vai tentar resolver, mas que não foi aquilo que vocês combinaram.

Ou às vezes é preciso uma resposta, e em geral a pessoa não responde. Nesses casos você diz “se você não responder em x dias, significa que está autorizado fazer tal coisa”.

Estratégias de sobrevivência que você aprende quando você é a ponta mais fraca.

Tenho uma amiga cujo marido vem de uma família rica, mas no trabalho tem que lidar com gente desonrada. Clientes filhos da puta que falam algo numa reunião, depois mudam o escopo, e depois dizem que a culpa é sua. Ele já se fodeu com isso várias vezes, mas não conseguiu incorporar a atitude secretarial de registrar pra se proteger.

O Cris é distraído da porra. Às vezes dá vontade de morrer, ou de matar. Mas nunca xinguei muito ele, e nunca brigo muito com ele. Não consigo evitar de ficar arrasada, mas o que eu posso fazer? Acho que seria o mesmo dele brigar comigo porque eu tenho dificuldade em aprender novas línguas. Ele fala inglês, romeno, espanhol, francês. Foi e voltou da China, da Coréia, da Rússia, da Ucrânia. E eu mal entendo português e inglês.

Participo de reuniões e escrevo atas, reporto todos os envolvidos. Essa vem desde a adolescência…

E só depois descobri que a maioria das pessoas não faz reportes.

Acho que tem uma parte de história de vida, uma parte de personalidade, uma parte de cultura. Responsabilidade nipônica. Ter que cumprir aquilo que a nosso ver foi uma responsabilidade assumida, ou que é muito importante.

Mas principalmente, é a necessidade de se proteger. Coisas que o alto escalão não precisa aprender.

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E sobre o Secretária, com a Marggie Gyllenhaal e o James Spader, é um filme muito bom. Sadomasoquismo sem julgamento de valor, personagens cativantes, cenas bem engraçadas. 

“Síndrome de Secretária” como título do post é só brincadeira com o nome de um filme bom. Ser peão e aprender a se proteger não tem nada a ver com o filme.