Silêncio, solidão e magia

“Amanhã, aqueles cujas ânsias o inimigo acumula despertarão num mundo moderno, isto é velho e desencantado. Mas temos esperanças em tempos de aliança e perseguiremos a ilusão dos poetas antigos.” Muriel Barbery, A Vida dos Elfos

A magia acontece o tempo todo em qualquer lugar. Na maior parte do tempo, pra maioria das pessoas, simplesmente somos tapados demais para vê-la, mas ela está lá pra qualquer um capaz de mudar levemente a sintonia e entender como a densidade das coisas depende principalmente de quem olha.

Pra mim uma das grandes manifestações da magia são as mensagens. De anjos, talvez às vezes demônios ou outros mensageiros. Não precisamos de aparições em estradas empoeiradas, basta uma pequena mudança no nosso grau de percepção e qualquer filme, livro, música ou frases ouvidas ao acaso são nossas mensagens.

Uns dias atrás fomos a uma livraria procurar um presente, e foi o Cris que encontrou o livro novo da Muriel Babery, autora de A Elegância do Ouriço, que me rendeu posts diversos. Ele achou que eu ia gostar e comprou pra mim. A Vida dos Elfos.

Elfos que definham, sem saber bem o porquê. Se tem relação com a destruição que os humanos têm causado na natureza, se é porque antes viviam com os humanos e depois se separaram, e toda separação enfraquece. Elfos que se apaixonam pelos humanos. E duas meninas, que são a ponte entre os dois mundos, e a última esperança dos elfos e dos humanos.

Uma narrativa numa linguagem rebuscada, arcaica, mas não cansativa. Capaz de despertar uma melancolia por vivermos tão desconectados da natureza. Quase um sentimento de injustiça, dor, porque nunca vivemos essa relação de amor com a terra que o velho mundo viveu. Eu sei, eu sei que houve uma destruição imensa, que antes de 1.800 a maioria das florestas da Inglaterra já havia sido devastada. Mas também há uma história de amor genuíno, laços fortes com a terra de onde se tira seu sustento, a terra que traz um trabalho árduo mas ao mesmo tempo é a sua terra, seu aconchego, que te acolhe e é justa na maior parte do tempo. Uma relação amorosa que me parece não ter sido possível no Brasil, talvez porque nossa ocupação agrária já aconteceu num período em que a maioria das pessoas não queria uma vida rural , era visto como um trabalho temporário para a vida na cidade. Ou talvez porque a forma como o trabalho era estruturado não permitia que se desenvolvesse essa relação com a terra, fazia você se sentir principalmente um peão.

Meus avós chegaram no Brasil na década de 30 e trabalharam na lavoura de algodão e café. Depois meu avô foi caminhoneiro, e depois teve uma pequena loja de materiais de construção em sociedade com dois irmãos. E se aposentou, vendeu sua parte na sociedade, comprou uma chácara pequena onde plantou café, mandioca, manga, goiaba, milho. Gostava de ir pra chácara, cuidar das plantas, colher, carpir (ele tinha mais de 60 anos e conseguia carpir uma manhã toda. A gente tentava ajudar e depois de 20 minutos estávamos com bolhas nas mãos, cansados). As tarefas não tinham nenhum objetivo econômico, eram só o hobby dele. Minha avó adorava ficar sentada numa cadeira ao ar livre, no fim da tarde, vendo as aves cruzando o céu, em direção ao lugar onde passariam a noite.

Duas pessoas tão amadas, que carregavam um pouco dessa bondade e crueza dos personagens do livro da Barbery, mas que já não moravam em meio à natureza.

Não tenho fantasias sobre o que é morar em meio à natureza. Entendo plenamente o que é não ter internet rápida, mercado e farmárcia por perto, tudo ser longe, ter que manter uma casa, lidar com goteiras, insetos. Eu não sei se prestaria a viver num lugar isolado. Mas essa consciência não diminui a melancolia, a reverência a essa Europa que nunca aconteceu no Brasil, o respeito às pessoas que vivem da terra, conectadas com a terra, em um profundo respeito pela Terra.

Essa consciência urbana não diminui a sensação de que a ficção da Barbery tem tantos laços com a realidade quanto qualquer história pode ter, entremeada, nascida de inspirações e visões, influenciando a realidade.

O livro tem uma segunda parte, ainda não lançada nem na França. Terminei de ler agora há pouco, sozinha no apartamento, o ar abafado que precede a chuva e agora o ar fresco que vem de fora, ainda o barulho da água.

Faz tempo que me sinto abrindo espaço na minha vida pra alguma coisa nova que ainda não sei o que é, me desconectando emocionalmente de pessoas e situações, deixando crescer um vazio que não é o vazio de angústia ou solidão, mas o vazio limpo e confortável de uma sala ampla, limpa, cheia de luz. Quero acreditar que este livro é uma peça desse novo cenário.