Será que tem relação a proibição do aborto com país subdesenvolvido?

“Dizendo-se defensor da vida e da família…”

Dizendo-se defensor da vida e da família, um professor universitário considerou totalmente normal e dentro do seu direito chamar de vagabunda e sapatão doida uma doutoranda que tinha feito uma palestra falando sobre a importância de se conversar sobre gênero no direito, e sobre a descriminalização do aborto.

Se você ainda não viu a notícia, dá uma olhada http://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2016/10/professor-universitario-diz-em-aula-que-palestrante-da-unb-e-vagabunda.html

E se você entende a gravidade da situação, pode assinar o abaixo assinado: https://secure.avaaz.org/po/petition/Universidade_Federal_de_Rondonia_Responsabilize_Samuel_Milet_por_postura_abusiva_em_sala_de_aula/?pv=4

Ah, defensores da vida e da família. Não importa que vida, nem que família. Que seja violenta, desestruturada, pobre, amarga, com mãe solteira tendo que se virar de qualquer jeito, com repercussões estruturais pra sociedade, não só pra ferrar individualmente a vida do casal ou da mulher que teve que lidar com uma gravidez que diminui muito a chance de estudos, trabalho melhor e ascensão social.

37% dos lares brasileiros são responsabilidade exclusiva de mulheres, nas casas ocupadas por apenas uma família. No caso da família morar com uma outra família, essa taxa é de 53%.

75% das adolescentes de 15 a 17 anos que engravidaram abandonaram a escola. Mulheres que têm filhos têm mais dificuldade de conseguir voltar ao mercado de trabalho.

Mulheres com maior renda e escolaridade adiam a maternidade pra depois dos 30, e o número de casais sem filhos pulou de 13% para 18% das residências (2014).

“Das mulheres com até 3 anos de estudo, 51,4%, tiveram filhos com menos de duas décadas de vida e das que têm de 4 a 7 anos de estudo, 69,4% foram mães com menos de 20 anos.”

Estimativa de 850 mil abortos clandestinos por ano, ou seja, os abortos acontecem, mas quem não pode pagar – em geral mulheres pobres, jovens e negras, fica à mercê dos açougueiros.

“ Um estudo inédito da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que países com leis que proíbem o aborto não conseguiram frear a prática e que, hoje, contam com taxas acima daqueles locais onde o aborto é legalizado. Já nos países onde a prática é autorizada, ela foi acompanhada por uma ampla estratégia de planejamento familiar e acesso à saúde que levaram a uma queda substancial no número de abortos realizados. (…) O resultado do levantamento indica que, nos países ricos, os abortos caíram de 46 casos por cada mil mulheres em 1990 para apenas 27 em 2014. Nos países em desenvolvimento, a redução foi insignificante, de 39 para 37 casos.”

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Você já viu o mapa que mostra os países que permitem e os que proíbem o aborto? E já reparou que nos países de primeiro mundo é permitido, e nos de terceiro é proibido? Será que faria alguma diferença pro país se alguns milhões de pessoas tivessem acesso amplo e fácil a métodos contraceptivos, podendo assim escolher o momento de ter filhos, podendo focar em estudo e trabalho, tendo o direito de abortar se acontecer uma gravidez num momento indesejado? E quem diz que só engravida quem quer ou é virgem idiota que não tem a menoooor ideia de como os bebê são feitos, ou está defendendo motivos escusos com os argumentos mais malignos. Dráuzio Varella falou: “até médicas ginecologistas engravidam sem querer”.

Nossa, será que um país em que as pessoas conseguem decidir o momento de ter filhos seria um país com menos desigualdade social e menos violência?

70% das mulheres com menos de 8 anos de estudo tiveram filhos com menos de 20 anos. Entre os jovens que não estudam e não trabalham, no grupo de 18 a 24 anos 68% são mulheres e 51% tinham pelo menos um filho. Não existe dúvida de que filho e pobreza estão diretamente ligados a abandono escolar e diminuição das chances de ascensão social.

Mas os defensores da vida e da família não podem nem ouvir falar de descriminalização do aborto, de campanhas efetivas de planejamento familiar, porque tudo isso é coisa de vagabunda sapatona.

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A violência no Brasil cresce e cresce. Em 2014 atingimos o primeiro lugar no mundo em números absolutos de assassinatos: 59 mil por ano. Uma análise dos dados de 2011 (quando eram 49 mil assassinatos), indicava 71% de negros, a maioria na faixa de 15 a 29 anos. O assassinato de mulheres negras cresceu 54% em 10 anos, e o de brancas diminuiu 9%. Não há um perfil de assassinos, porque em geral nem chegam a ser identificados ou presos. Entre os 622 mil presos, 61% são negros, 40 mil foram presos há menos de 1 ano, tráfico e drogas são os principais motivos de prisão. 0,5% da população carcerária tem ensino superior.

Mas dane-se tudo isso, quem se importa? A única coisa que importa é defender a vida e a família.

 

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/11/29/um-em-cada-cinco-jovens-de-15-a-29-anos-nao-estuda-nem-trabalha-diz-ibge.htm “Há uma relação muito forte entre não estar trabalhando ou estudando e a maternidade”

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/08/1671609-gravidez-precoce-e-baixa-escolaridade-continuam-relacionadas-aponta-ibge.shtml “A maioria das grávidas atendidas são negras, oriundas de favelas da região, por volta dos 18 anos”.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/10/121016_ibge_censo_fecundidade_jc Trabalho, renda e estudo levam brasileiras a ser mãe mais tarde – (…) Mas quando são considerados os grupos de mulheres com maior escolaridade e renda, vê-se que a maternidade hoje se concentra entre os 30 e 34 anos, sobretudo em áreas urbanas. “A ascensão social é mais fácil de ser realizada quando a mulher tem uma família pequena ou mesmo não tem filhos”, diz Albuquerque. “As mulheres de classe mais baixa que têm muitos filhos provavelmente param de estudar e têm mais dificuldade de entrar no mercado de trabalho.”

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160201_drauzio_aborto_rs “Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro’, diz Drauzio Varella

http://oglobo.globo.com/brasil/tabu-nas-campanhas-eleitorais-aborto-feito-por-850-mil-mulheres-cada-ano-13981968

http://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2014/10/29/noticias-saude,191292/ “De acordo com o estudo, a mudança no perfil está atrelada à taxa de escolaridade. Quanto mais anos de estudo, mais tardia é a opção pela maternidade.”

http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2012/10/numero-de-familias-sob-responsabilidade-exclusiva-de-mulheres-passou-para-37-3

http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/no-brasil-75-das-adolescentes-que-tem-filhos-estao-fora-da-escola.html

http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2013/08/mulheres-que-tem-filhos-encontram-dificuldade-para-conseguir-emprego.html

http://oglobo.globo.com/economia/numero-de-casais-que-decidem-nao-ter-filhos-aumenta-no-pais-18626853

http://www.brasilpost.com.br/2015/11/09/morte-de-mulheres-negras_n_8508912.html “O Mapa da Violência conclui que a população negra é vítima prioritária da violência homicida no Brasil, enquanto as taxas de feminicídio contra a população branca tendem, historicamente, a cair.”

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/07/bjovens-e-negrosb-sao-maiores-vitimas-de-homicidio-no-brasil.html

https://noticias.terra.com.br/brasil/homicidios-no-brasil-714-das-vitimas-sao-negras,6e8009c39f0f5410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/10/08/brasil-registra-585-mil-assassinatos-em-2014-maior-numero-em-7-anos.htm

http://www.valor.com.br/brasil/4493134/brasil-lidera-em-numero-de-homicidios-no-mundo-diz-atlas-da-violencia

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/30/numero-de-casos-de-estupro-no-brasil-pode-ser-10-vezes-maior.htm

http://www.conjur.com.br/2010-abr-03/maior-parte-presos-brasileiros-responde-trafico-roubo-qualificado

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/mais-de-60-dos-presos-no-brasil-sao-negros

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054 “70% das vítimas são crianças e adolescentes”

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/21/politica/1442871349_074158.html “67% dos casos de violência entre as mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das famílias; 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes e apenas 10% dos estupros são notificados. A maioria dos agressores não é punida.”

http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,paises-que-liberaram-aborto-tem-taxas-mais-baixas-de-casos-que-aqueles-que-o-proibem,10000050484