Sem um pau a gente não é nada?

Um assunto que tenho pensado há umas semanas, mas o comentário do Wagner no post sobre o #itwasnerveradress, o problema das mulheres serem educadas para casar e ter filhos, deu o impulso final.

Se a gente nasceu pra casar?

Ninguém nasceu pra viver sozinho. Acredito que a é sociabilidade fundamental aos seres humanos, foi o que nos tornou a espécie dominante no planeta (e também nos concedeu o prêmio abacaxi da biodiversidade). Entretanto, ser solteiro não é sinônimo de viver sozinho – assim como ser casado não é sinônimo de não se sentir só.

Os seres humanos vivem melhor quando têm boas companhias. Mas quem disse que companhia significa viver dedicado durante 60 anos a uma pessoa do sexo oposto? A vida é mais gostosa quando temos companhia, mas viver casado – e casado do jeito tradicional, papai-mamãe, não é o único jeito de se viver, tanto pra homens como pra mulheres.

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Eu sei. A gente descende de macacos, e é natural pra todos os seres vivos buscarem o crescei e multiplicai-vos. Como espécie existimos há uns 2 milhões de anos. A ideia de que a função primordial da nossa existência não é gerar descendência provavelmente contraria alguma programação genética, mas quem liga pra programação genética? Ainda que métodos para tentar evitar concepção e abortos existam desde sempre, a pílula e a camisinha industrializada são bem mais recentes. Absurdamente recentes. A consciência de que o crescimento populacional de seres humanos vai implodir o planeta também é bem recente. Tudo são coisas de décadas.

Eu entendo que como grupo, como espécie, seja difícil assimilar essas coisas e abandonar com toda a alegria a concepção de que nascemos pra casar com alguém do sexo oposto e gerar prole. Mas como indivíduos, não. Nosso cérebro é prodigioso. Qualquer pessoa está totalmente habilitada para ser apresentada a novos dados, a um novo cenário, e decidir mudar suas crenças, concepções e diretrizes de vida. Qualquer pessoa deveria ter obrigação, como gente, em ser capaz de identificar o que ela quer, e o que vem de velhos costumes, da vontade dos outros, de imposições. Eu adoraria que as pessoas conseguissem resistir ao bullying e pressões sobre o que você precisa parecer, sobre como você precisa agir. Mas sei que às vezes é bem pesado, e nunca vou dizer que a vítima é o culpado.

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Nem homens nem mulheres nasceram pra casar e ter filhos. Pelamordedeus, se você apelar pra aspectos anatômicos ou pros animais (ou pior, pra Bíblia), eu cuspo na Bíblia e te elenco uma lista de atrocidades cometidas pelos animais que incluem pedofilia, infanticídio, genocídio, massacres diversos, estupro seguido de assassinato, pirataria, assassinato de bebês pra plantar o seu bebê. E fora da lista das atrocidades, mas com exemplos na natureza: homossexualismo.

Ter filhos é um impulso forte pra muita gente, talvez pra maioria das pessoas. Alguns dizem até que quem manda em tudo é o seu DNA: ele é imortal, se perpetua, você é só o meio.

Mas o fato é que temos um cérebro incrível. O cérebro humano deve ser a coisa mais fantástica que existe na face da Terra, e ele nos permite ir muito longe (tanto pro bem, quanto pro mal) e atingir esferas incríveis nos campos artísticos, tecnológicos, medicinais. Graças a essa massa cinzenta transcendemos doenças antes fatais, amputações, distâncias, o que eram limites passa a ser barreiras superadas. Temos a mágica da internet, dos celulares, dos aviões. Em pouco tempo teremos as superinteligências artificiais mudando tudo, tudo mesmo.

E tem gente que realmente acredita que precisamos obedecer cegamente o chamado da natureza para ter filhos e parir.

Tenho 38 anos. Nunca quis ter filhos e provavelmente não vou ter, ainda que isso gere umas discussões feias de vez em quando com o Cris – que queria muito ter outro filho. Adoro crianças, adoro meu enteado. Mas ser mãe é outra coisa, e é uma outra coisa que não estou disposta a abraçar de livre e espontânea vontade.

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Amor romântico pra vida toda?

É um sonho bom, e felizmente neste campo há vários casais não-hetero, e até nem dupla, que já mostraram como é gostoso e possível.

Estou com o Cris há 10 anos, e acho que é pra vida toda. Estamos sempre trocando frases carinhosas que falam de amor pra vida toda, e quando parece que não tem como sermos mais caramelados e grudadinhos, acontece algo que nos faz sentir mais unidos ainda.

Me sinto muito unida com ele. Mas de forma alguma precisamos fazer tudo juntos, ficar o tempo todo juntos. Já passei várias noites de fim de semana sozinha ou com amigos, porque ele está no poker, ele já ficou sozinho durante vários fins de semana porque eu viajei pra passarinhar, às vezes só eu e um guia. Ele tem programas só com os amigos dele, eu tenho programas só com os meus amigos. Considero isso fundamental pra saúde do casal.

O Cris é meu amor pra vida toda. Mas, e se não fosse?

Como falei, essa historia de não ser obrigatório procriar é algo muito recente na historia do ser humano. Mas o ser humano é prodigioso. E tenho fé que não vai levar muito tempo para prosperarem estilos de vida em que as pessoas possam viver solteiras e felizes, misantropas e felizes, muito-gays e felizes, transexuais e felizes, no poliamor e felizes, ou sei-lá-como e felizes. Mas o mais importante: cada vez terá menos gente se preocupando e fantasiando sobre quem dorme com quem, quem come quem, quem faz o quê. A vida íntima das pessoas deveria ser algo que só diz respeito a elas, mas graças à miséria sexual da humanidade, qualquer coisa que sai um pouco do formatinho deixa o povo ouriçado.