Sem desculpas sinceras, o melhor é o silêncio

Estou há uns dias escrevendo textos sobre os problemas de não ser bonita. Mas fui sobrepujada pelo Dia das Mães e os envolvimentos familiares.

Aonde essa historia de ter um samurai aqui dentro vai me levar? Não muito longe, eu sei.

Os samurais foram extintos por burocratas, o mundo não precisava mais de gente com espadas afiadas degolando os indignos, e sim homens administrativos capazes de negociar soluções.

Tenho meu lado diplomata. Mas também tenho o samurai, aparentemente cada vez mais revoltado com o mundo.

Rompi mentalmente com meus colegas birdwatchers e só não postei porque amigos me disseram “É Wesak, espera”. Uns dias depois xinguei meu irmão por zapzap quando soube que ele estava pensando em passar o dia das mães longe da nossa mãe, com palavras do tipo “quer aumentar sua fama de pau mandado, o caixão é seu”. E hoje fui capaz de quebrar o pau por telefone com o meu pai, porque ele sempre compra presentes pro meu sobrinho, e eu tentava explicar que é errado estimular o consumismo. Não foi uma discussão suave, teve direito a trechos de “daí vocês não quiseram levá-lo pra comprar o brinquedo que eu prometi e ele ficou doente” (mudou o tempo, tem um monte de crianças com dor de garganta, mas meus pais têm essa crença japonesa de que é por causa de um desejo não atendido. Tudo bem, eu sou capaz de ficar com dor de garganta quando passo raiva, não questiono a doença, só não dou bola pra ela), “ficou doente, mas e daí, você acha que ele vai morrer por isso?” “talvez sim” (imagina como meu pai estava puto da vida comigo pra responder uma idiotice dessas).

Logo devo escrever algum post falando da responsabilidade dos adultos em estimular vaidade e consumismo em crianças.

Mas hoje.

Hoje só estou cansada. Que porra. Como cansa essa historia de querer sempre andar no fio da navalha, não se omitir, não fazer parte do silêncio dos bons, de não achar que cada um vive como quer, faz o que quer, mesmo quando isso afeta diretamente a vida de pessoas ou de criaturas amadas.

Já pedi desculpas sinceras pro meu irmão pelas palavras pesadas, e agradeci por ele ter decidido passar o dia das mães com a nossa família. Agora tenho que procurar algo bom e humilde pra falar pro meu pai, mas ainda não consegui encontrar, tudo que penso não são desculpas de verdade. Dizer “desculpe pelo o que lhe falei. Mas saiba que se fosse meu filho, eu te proibiria de ficar dando presentes fora de datas comemorativas” ou “desculpe pelo jeito com que falei com você, mas saiba que o que você está fazendo provavelmente fará com que o … [o nome do meu sobrinho] tenha uma vida pior, você o está incentivado a ser um jovem e depois um adulto consumista e com dificuldade em lidar com não e com frustração”, “desculpe pelo o que falei, mas você reparou na irracionalidade do que você disse? Você critica a mamãe quando ela diz que não precisa ir ao médico, mas você foi capaz de me dizer ‘fique com suas pedagogas’, você acha que sabe mais do que todo o conhecimento acumulado da humanidade sobre o comportamento das crianças, quero ver você achar um texto que diga que é saudável ficar comprando e comprando coisas e sempre alimentando a expectativa de um presente novo da loja de brinquedos” – bom, se eu só tiver essas coisas pra falar pro meu pai, melhor não falar nada e deixar a poeira assentar.