Sei que vou morrer / não sei a hora

Sou uma ostra que vive numa torre. Uma ostra, ou outro molusco qualquer, não é por causa da pérola não, é só pela expressão “esse cara é uma ostra”, ninguém fala “esse cara é um vôngole / marisco / mexilhão”. E a torre é pelo isolamento do mundo, um apartamento num lugar alto.

Ermitão é outra palavra, que até o Tarot me diz muito bem.

O Cris, que aprendeu a ser muito esperto nos elogios (alguém capaz de me encontrar e dizer “foi uma Claudia e voltou meia… Você não comeu nada durante a viagem?” – homens, aprendam) me falou que quando leu a Elegância do Ouriço, pensava em mim. A personagem de 12 anos que quer se matar. “Por que pensou em mim?” “O desprezo pelas demonstrações vazias de cultura”, ou talvez tenha falado “pelas demonstrações de cultura vazia”, nesse caso, as duas são sinônimos no efeito.

Vivo como um ermitão e ganhei a fama de evitar lugares com mais de três pessoas. Não gosto de festas. Nos churrascos na cidade do interior, há muitos anos, conversava com meus amigos um por um, mas apenas um diálogo de duas pessoas. Não existe uma conversa real com mais de três, e três já está no limite.

Muitos anos atrás, antes do Cris, na época em que ainda saía na noite paulistana e encontrava pessoas do círculo dos blogueiros, sempre me doía a leviandade. Às vezes me ocorria que eu era a errada, que não é possível viver com franqueza e intensidade o tempo todo. Mas pensava por que raios as pessoas se reúnem para falar coisas que poderiam estar escritas numa coluna de jornal? Análises cultas, cheias de referência e conhecimento histórico, de livros, filmes.

A leviandade de analisar livros e filmes, ou de comentários espirituosos? A leviandade por não falar de si mais do que sua máscara social, da sua imagem para os pares. Nada de real stuff, nada de verdadeiramente humano, que não soasse culto, descolado, sagaz, inteligente. Imbecil, pra mim. E sempre uma vontade de falar, não de ouvir.

Não acho que as pessoas só podem falar de coisas intensas, pessoais e importantes. Imagine. Eu sou o chevette 1.0. Mas quando você não fala nada de realmente pessoal, de algo íntimo e verdadeiro, por que se dar o trabalho de encontrar alguém pra conversar, ou mesmo de manter um blog?

Na época da noite paulistana havia alguém diferente. Famoso pela extrema cultura, pela escrita perfeita, mas que me chamou a atenção por demonstrar carinho pelo mundo, uma face terna ao falar dos outros. Conheci-o e o catei. Nas noites dos pubs. Olhos incríveis, e um rosto muito severo, mas que mudava inteiro quando sorria.

Ele tinha um encosto. Não me pergunte como eu sabia disso, apenas sabia. Encosto mesmo, no sentido de espírito obsessor. Meu melhor amigo concordava comigo, num momento de glimpse soube até o nome do encosto. E eu sei que foi o encosto que nos afastou. O encosto, mais o meu orgulho. Numa noite em que nos encontramos e ele começou a falar os maiores disparates, dizendo que eu estava zombando dele, humilhando-o, por que falei tal coisa para fulano. Olhei pra ele e vi a loucura, e o encosto. Tentei pegar no braço dele, abraçá-lo, mas o encosto era esperto e sabia que isso quebraria a loucura, ouvi só um “sem contato físico, por favor”, e continuou falando, falando, até me fazer chorar, sorria, mas no final do discurso começou a voltar a si, e terminou a frase com “mas diga que estou errado, me convença de que estou errado, como você sempre faz”.

Foi a última coisa que ouvi dele. Peguei minha bolsa, levantei, falei tchau pra todos os outros da mesa, exceto ele, fui embora. Nunca mais o vi.

Meus amigos às vezes quase topam com ele, mas dizem que ele foge, evita cruzar caminho. Uma pessoa brilhante, com um raro entendimento do mundo, mas com um encosto muito bem sucedido e a crença estúpida no fatalismo. Ainda assim, sinto saudade.