Se você não conhece detalhes sobre o sofrimento alheio, faça um favor pro mundo e não opine

Ninguém é obrigado a ser entendido sobre todos os assuntos. Tudo bem. Afinal, quando você não conhece um assunto e decide opinar sobre ele, provavelmente você vai falar muita besteira. Certo? Por exemplo, eu não sei nada de mecânica de carros e outros aparelhos. Sobre química. Sobre física. Matemática. Por que eu me meteria em conversas sobre o assunto. Isso faz sentido, não?

Mas daí eu vejo gente que aparentemente não sabe nada sobre o que é ser mulher, mulher comum, não estou falando da Ivanka Trump que falou que nunca foi desrespeitada por nenhum homem no trabalho, portanto, assédio não existe. Ou a Brigitte Bardot, que parece ter alcançado a fama num patamar que ela nunca precisou ter medo de estupro, e declarou que gostava quando os homens falavam elogios pra bunda dela e que as mulheres que reclamam de assédio e abusos são umas hipócritas.

Ou homens e, infelizmente, também muitas mulheres que discursam com bastante autoridade sobre o tema, reclamando das lutas feministas. Como se não existissem os 4.600 assassinatos de mulheres por ano (só no Brasil), os 49 mil estupros registrados, com estimativa de ser algo como 60 mil ou 400 mil. A violência doméstica, as mulheres que apanham de porrada todos os dias. Estupros coletivos, inclusive em lugares como o Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Estupros de crianças. Uma dificuldade excruciante pra fazer um boletim de ocorrência, mais ainda pra conseguir abortar se você tiver engravidado do estuprador.

Veja, estou falando só do Brasil, mas os abusos contra as mulheres acontecem em todos os lugares do mundo. Em vários países subdesenvolvidos vai ser comum a mulher se sujeitar a ser estuprada todos os dias por um marido, pra não ser estuprada por qualquer um da aldeia, e nos países desenvolvidos como a Inglaterra há vários relatos de violência doméstica, estupros e abusos, com os números subindo nos últimos anos. https://www.theguardian.com/society/2016/sep/05/violent-crimes-against-women-in-england-and-wales-reach-record-high. E vocês sabem que os Estados Unidos têm uma cultura de estupro. A Wikipedia traz uns números de 2012, mas é na casa de 67 mil estupros de mulheres registrados. https://en.wikipedia.org/wiki/Rape_in_the_United_States, e alguém como a Lady Gaga já foi estuprada e fez uma música e um clip bem comoventes: https://www.youtube.com/watch?v=ZmWBrN7QV6Y

Historicamente as mulheres e qualquer outra minoria sofrem muito.

Vocês sabem que até há pouco tempo atrás um marido podia matar a esposa, alegar “defesa da honra – ela estava me traindo”, e ser inocentado? Pouco no nível, poucas décadas. Na década de 1970 as mulheres faziam campanhas de “Quem ama não mata”, e ainda em 1998 houve um assassinato de uma esposa em que a defesa usou o argumento de defesa da honra. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209200009.htm

Qualquer minoria pasta. Algumas pastam mais do que as outras. Entre os 9 e 18 anos eu sofria bullying por ser japonesa, uma cidade do interior de São Paulo. Desconhecidos que se achavam no direito de me abordar na rua, gritar coisas que eles achavam que soava como japonês, me chamar de japoronga, andavam do meu lado puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. Era bem ruim e na verdade quando penso no assunto meus olhos ainda enchem de lágrimas. Mas nunca apanhei por ser japonesa, nunca tive medo de ser assassinada só por ser japonesa. Mas um homossexual, um transgênero, um travesti, têm muitos motivos pra ter esses medos. http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/04/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo-diz-pesquisa.html http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/05/17/dia-internacional-combate-homofobia-transfobia-gay/. E isso falando de assassinato. Porque se for pra falar de discriminação, piadas ofensivas, abusos, gente que reduz uma relação homossexual a sexo anal, isso é rotina pra qualquer um que não é straight.

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Você tem noção do que é ser mulher? Mulher comum, não Ivanka, não Brigitte. Mulher que tem que pegar trem, ônibus, andar a pé na rua, às vezes tarde da noite. Ter que andar com medo de que a qualquer momento pode aparecer um cara, ou um grupo de caras, com facas, armas, ou basta um soco, e além de te roubarem ainda vão te estuprar. Mulher que termina o namoro ou o casamento, o ex-não aceita, e vai na sua casa tirar satisfação, matar com facada, tiros, fogo, ácido, esganada. 43% das mortes de mulheres foi na própria casa. Você sabe o que é ser mulher e saber que você ganha menos do que seu colega, apesar de você ser tão ou mais eficiente do que ele? Ou ser mulher e ter que fazer a dupla jornada, e se você acha que cuidar da casa e dos filhos é um trabalho banal, o convite é você assumir essas tarefas durante um mês, ou talvez bastem duas semanas, e diga o que acha. Você sabe o que é ser mulher e ter que pensar mil vezes antes de sair pra viajar sozinha, ou só com uma amiga, que também é considerado viajar sozinha, e correr o risco de serem estupradas e assassinadas?

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Aparentemente desde que o ser humano existe, as mulheres são rotineiramente abusadas. E não acho que seja uma questão cultural da ideia de que a mulher é o mal, o pecado original, como Contardo Calligaris escreveu, num texto bem simpático às mulheres. Mas o fato é que locais não cristãos também abusam de mulheres e qualquer minoria.

Sair do “eu abuso porque posso e nunca sou punido por isso”, e chegar no “essa pessoa é um ser humano e merece ser tratada com respeito, não farei pra ela algo que eu não gostaria que fizessem comigo” é um longo e tortuoso caminho. A humanidade caminha devagar. E, tenha certeza, as mudanças nunca são naturais, elas não decorrem de um lampejo de consciência do abusador. As mudanças só ocorrem porque as vítimas se unem e protestam, por anos, por décadas. Assim são as mudanças culturais.

Se você está reclamando do feminismo, do #MeToo ou de qualquer outra ação pra diminuir a violência e os abusos contra as mulheres, eu pergunto:

– por que você não se importa com o sofrimento das mulheres?

– ou, caso você se importe, me conta como vamos diminuir os abusos, violência, estupros, assassinatos, diferenças de salário que não têm relação com desempenho e sim com gênero. Como as mudanças vão acontecer se não for pelo embate?