Se você debocha do feminismo, você não faz ideia do que é ser mulher

“Quero saber se você é boa de meter” – uma das minhas melhores amigas do colegial, quando a gente tinha 16 anos, teve que ouvir isso de um cara na rua. Ela estava voltando da escola, de dia. Andou apressada quase correndo, e depois ficou com a impressão de que ele ainda estava seguindo-a.

Quando eu fazia tratamento de pele, minha esteticista contou que uma vez estava voltando pra casa e um homem tentou estuprá-la. Agarrou-a pelo pescoço, falou que tinha uma faca, começou a arrastá-la pra uma área baldia, meteu a mão entre as pernas dela – e sentiu o volume do absorvente. Daí ele empurrou ela com nojo, e assim ela conseguiu escapar.

Eu tinha uns 20 anos, era a época em que eu ainda comia no McDonald’s. Um McDonald’s da Av. Paulista que não existe mais, um que era uma casinha pequena com uma varandinha e mesas externas. Procurei e acho que era este de uma reportagem da Folha, agora é um Santander e fecharam a varanda com vidros. Av. Paulista, fim do dia, ainda tinha luz. Eu estava sozinha nessa varanda comendo meu lanche, um cara chegou e sentou numas mesas pra lá. Depois de um tempo olhei pra ele por acaso, e num primeiro segundo achei que ele tinha uma deformidade no dedão. Daí entendi que não era uma deformidade, ele estava com o pau pra fora batendo punheta. Não sabia se eu gritava, fugia, como ia sair de lá, tinha que passar perto da mesa dele. Antes de eu decidir o que fazer ele se levantou e saiu.

No Chega de Fiu-Fiu li uma história parecida. Uma moça estava no ponto de ônibus, o cara atravessou a rua na direção dela com o pau pra fora, batendo punheta e olhando pra cara dela. Ela chegou em casa chorando, foi contar pra mãe, a resposta foi “mas o que você fez pra provocá-lo? Alguma coisa você deve ter feito, ele não faria isso de graça”. E tenho uma amiga super querida, ela era adolescente, estavam no interior de São Paulo ela e o pai pescando juntos. De repente ela repara que tem um cara na margem do rio olhando pra ela e batendo punheta.

E você sabe por que nos trens existem vagões só pra mulheres? De tantos casos em que os homens bolinam, se esfregam, ou então ficam batendo punheta lá quietinhos até jorrar porra na roupa da mulher-objeto-infeliz que está na frente dele. Ou muito pior.

Eu devia ter 11 anos. No saudoso Playcenter, estava no Cine180 graus, com aquelas imagens estonteantes, você assistia de pé. De repente um homem me abraça pelos ombros. Quando eu senti o contato achei que era algum dos meus primos, mas olhei e era um desconhecido. Só me afastei, dei uns passos pro lado. Ele tentou de novo, eu me afastei de novo e comecei a olhar em volta procurando meus primos, e então ele se afastou e sumiu.

Mas o cara da punheta e o pedófilo não eram o pior. O ruim mesmo era andar na rua. Tensa, com medo, envergonhada. Eu sofria bullying por ser uma oriental numa cidade do interior de São Paulo. Meus amigos paulistanos não entendem isso, mas infelizmente era e provavelmente ainda é verdade. Homens e garotos passavam por mim e gritavam “banzai”, “arigatô”, “e aí, japoronga”, “ihhh, japonês, nééee?”, ou então me seguiam andando do meu lado puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. Lembrar disso me faz rir e chorar.

Eu menstruei com 11 anos, ganhei peitos cedo. Sou peituda pra uma japonesa. Além de quem mexia comigo por eu ser japonesa, começaram a aparecer as secadas, os sons nojetos de sugar o ar entre os lábios, ou mandar beijo, sibilar. Passar por você, invadir seu espaço, se aproximar pra murmurar no ouvido “tesão”, “delícia”.

Tive uma época de só usar roupas largas, cortar o cabelo, largar a lente e voltar a usar óculos. Tive uma época de desencanar e andar com roupas normais, como bermuda no meio da coxa e camiseta. Lembro de uma vez que estava andando assim, com minha bermuda marrom de veludo favorita, uma camiseta grande, óculos de sol, e um garoto passou por mim e falou “parabéns por ser tão gostosa”, num tom de raiva. E de uma outra vez que ia ter que passar por dois garotos que vinham no sentido contrário. Decidi que dessa vez não ia atravessar a rua como costumava fazer (às vezes voltava pra casa em zigue-zague, só pra não ter que passar perto de nenhum homem ou garoto e correr o risco de ouvir bosta). No momento que passei por eles caiu uma gota de telhado na minha cara, no meu olho. Eles começaram a rir, um deles falou “você secou tanto a japonesa que até caiu água na cara dela”.

Eu tenho uma marca dessa época. Não sei olhar pra gente. Tenho olhos bons pra ver aves, insetos, objetos. Mas não reparo em quase nada de pessoas, e sou capaz de passar por um amigo e não ver que é a pessoa. Se ela não falar comigo, simplesmente não vejo.

Os anos em São Paulo me ajudaram a relaxar, consigo passar por homens e não sentir os músculos tensos, respiração presa. Mas não sei enxergar gente na rua.

Ser mulher também é ir pra uma balada e correr o risco de topar com desconhecidos que se acham no direito de te pegar pelo braço, passar a mão no seu cabelo, no seu ombro, e não é tão incomum um desconhecido que chega metendo a mão na bunda, no peito ou na buceta da desconhecida, ou dar beijos forçados.

Quando eu era adolescente e ia pra baladas nunca sofri nada mais pesado, só os desconhecidos que passavam a mão no cabelo, no ombro, tentavam te pegar pelo braço. Mas eu simplesmente não olhava na cara deles e continuava andando.

E veja bem: eu não tenho nada de especial. Sou uma japonesa baixinha. Aprendi a gostar de mim, mas tenho feições comuns, nunca tive corpão. Não é que só as beldades sofrem: homem mexe com qualquer mulher.

Responder, xingar, reclamar de quem mexeu com você ou pegou em você? São poucas as mulheres que fazem isso. A gente vive com medo. No mínimo ele vai te xingar de vaca, vadia, mocreia nem era com você, tá se achando é?, ou ele pode te dar uma bofetada na cara, ou pode resolver te espancar mesmo. Ou te furar com uma faca. Ou te dar um tiro.

Uma vez estava voltando do almoço com meus amigos, na época que ainda trabalhava na consultoria. Um cara veio pedir dinheiro, falamos não.  Uma das minhas amigas tem o corpo lindo (e só ela não enxergava isso), cinturinha e quadril, o que os homens chamam de bundão. Ele falou pra ela “sua calça está caindo”. Não estava. Era só um jeito de dizer que ele tinha reparado na bunda dela. Tomei coragem e falei “isso é muita falta de respeito, você não pode falar assim com as pessoas”, ele respondeu “fica na sua aí japonesa, não estou falando com você”, e então chegaram os taxistas do ponto, cercaram ele, e ele parou de falar. Eu nunca teria respondido se estivesse sozinha. Na verdade, mesmo em grupo (três mulheres e um homem) talvez eu tivesse ficado quieta, você não sabe quem é o louco do outro lado. Confesso que eu só falei porque era de dia, numa rua movimentada, e eu reparei no ponto de táxi. Senão só teria engolido a raiva.

Vocês viram o post de José Pires? Contando as experiências de ter montando um perfil falso, com foto de mulher jovem, bonitinha. Não decotada nem safadinha. Mas só por ser jovem bonitinha, experimentou um pouco do que as mulheres sofrem.

O dia em que fui mulher no Facebook

Muitos homens falam que feminismo é mimimi. Então faz um teste comigo: imagine uma realidade alternativa, um mundo bem parecido com a Terra. O mesmo cenário da Terra, os mesmos animais, os mesmos países, as mesmas pessoas, homens e mulheres. Só tem uma diferença: as mulheres têm pau, os homens não. Elas têm pau, são mais fortes do que os homens, são agressivas, muitas acham que têm todo o direito de enfiar o pau no cu do homem que elas quiserem, e que podem falar qualquer coisa pros homens porque eles são mais fracos e não podem revidar. Mesmo quando não estupram com violência, com hematomas, ossos quebrados, cortes profundos, dentadas, mutilações, ou um estupro que termina com assassinato, mesmo quando é só porque ela é mais forte e portanto pode fazer o que quiser, sempre ficam as marcas, o pavor, o medo constante. Pode não ter acontecido com você, mas com certeza você terá um conhecido que já foi estuprado por uma mulher, e há todas as histórias divulgadas na imprensa, os filmes, os livros. Imaginou? Imaginou bem, com detalhes?

Se você tem o mínimo de conexão com a realidade, sabe que violência doméstica, estupros e assassinatos de mulheres são corriqueiros em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil, inclusive coisas como estupros de crianças, estupros coletivos. Leram o caso da menina amarrada numa árvore do Ibirapuera enquanto um grupo se revezava pra meter? Ou do caso de um casal de jovens num trecho afastado de uma praia, o cara chegou, matou o rapaz, atirou na barriga da moça da moça, achou que ouviu gente chegando e fugiu, mas não tinham ninguém chegando, então ele voltou e a estuprou, com o ferimento de bala e tudo? Aquele caso famoso da Índia, do estupro da estudante de medicina dentro do ônibus, vocês conhecem os detalhes? Eles não só a estupraram como pegaram uma barra de ferro e enfiaram dentro dela, pela vagina, várias vezes, até abrir um buraco na barriga grande o suficiente pra saírem pedaços do intestino. Depois a jogaram do ônibus. E ela não estava morta, sobreviveu pra ser internada, passar uns dias agonizando no hospital. Vi uma entrevista com alguns dos autores, que declaram “num estupro, a mulher é tão culpada quanto o homem. O que ela estava fazendo aquela hora da noite (20h) fora de casa? Foi culpa dela também”.

E isso pra falar só de uma das lutas do feminismo, que é pelo direito de não ser estuprada, mutilada, espancada, assassinada — só porque você é mulher.

Fale de novo que feminismo é mimimi.