Se não fôssemos tão tapados

Acho que minha musa foi o Card. Orson Scott Card. Com seus livros do pequeno gênio (que não era nada orelhudo no livro) determinado, solitário, maldito. Eu devia ter uns 14, 15 anos, e os livros do Card me ajudaram a ter essa clareza sobre o quanto estamos prontos para temer e odiar o desconhecido, o outro, o estrangeiro, o alienígena. E como tudo muda quando somos capazes de sentir um pouco como o outro sente e vê o mundo. Com um pouco de compaixão.

Foi uns poucos anos depois que o Luisão comentou sobre o Programa Erasmus. Ele falou assim: “um programa de intercâmbio entre universidades, inventado para evitar a terceira guerra mundial”.

Olhando o site hoje do Erasmus, em português, é difícil acreditar que algo simplório assim tivesse pretensão de evitar a terceira guerra mundial. O Programa não se propõe a isso, mas entendo que o Luisão tenha interpretado e explicado dessa forma.

Não tenho conhecimento suficiente para analisar o quanto estamos próximos ou distantes de ter uma terceira guerra mundial. Mas o que tenho certeza, e guardo esses pensamentos comigo o tempo todo, é o quanto é gostoso não estranhar o mundo. Olhar para os outros e nunca achar algo estranho demais, seja de cores, formatos, roupas, costumes, comida. Volta e meia lembro de desenhos animados em que há pessoas com pele azul, roxa, laranja e lamento que os seres humanos também não tenham sido bem coloridos desde o começo, que nunca houvesse essa absurda distância de julgamento entre a pele clara ou escura.

Claro, não pretendo aqui tentar falar de coisas muito complicadas, como a violência contra as mulheres em tantas culturas… nas que há uma pretensa igualdade ainda dá pra lutar, e mesmo assim perdemos de forma feia e silenciosa na maioria das vezes. Mas nas outras em que mutilar, estuprar, espancar, cercear fazem parte da rotina… o que fazer?

Fazendo esse recorte para evitar questões cabeludas, o objetivo de hoje é apenas celebrar a diversidade num pensamento cândido e quentinho como bolinho de chuva de vó em dia frio. A delícia de imaginar que somos capazes de expandir horizontes. Que pelo conhecimento científico, histórico, cultural, as pessoas fossem capazes de deixar de ser homofóbicas, machistas, racistas, tapadas, idiotas.

Lembram de uma Super Interessante que mostrou sexo entre dois leões? O amigo Robson Bento compartilhou este programa produzido por Silvio Tendler em 2012. Neste link há entrevistas com vários fotógrafos brasileiros de natureza. Fiquei com preguiça de procurar o nome, mas o fotógrafo que flagrou os leões está aqui, aos 5:56

http://tvbrasil.ebc.com.br/cacadoresdaalma/episodio/nas-trilhas-da-natureza-0

Pouco tempo atrás, num dos meus passeios para ver aves, por algum motivo a gente falou sobre sexo entre os animais, e uma das pessoas do grupo falou “entre os animais há vários exemplos de casais gays, não?”, e falamos “sim, vários”, ele disse “eu não sabia. Soube há pouco tempo”.

A pessoa que falou isso não é gay, e não escarafunchei o assunto. Mas gostei de imaginar que saber sobre os animais a faz olhar o homossexualismo com mais naturalidade. A alegria de pensar que determinadas informações são capazes de confrontar tranqueiras moralistas.

Verdades que libertam, um mundo mais humanizado, só porque somos capazes de olhar além do próprio umbigo e descobrir que o mundo é muito maior do que a gente imagina.