Se eu tivesse mais amigos

http://www.quietrev.com/in-defense-of-small-quiet-accomplishments/

“Two days before the New Year, while scrubbing the morning’s oatmeal from its pot, I took stock of 2016 and felt glum. Not because the year was without highlights, achievements, and growth, but because each of those things seemed very small and personal. I made baby steps, not grand leaps ahead—tiny triumphs to tell my wife over dinner but not crow about on Facebook.

Looking closer, I found every shiny success came with a critique hidden within it, like a shadowy worm burrowed inside delicious fruit. Not good enough, that creature whispered. You could have been bigger and better, looking back on the past twelve months free of regret, happy with all you’ve done.

(…)

My anxieties that I’m not living loudly enough are focused through the lens of parenthood and marriage. My anxieties tell me that if I had more—money, success, friends, things—my son and wife would be happier. Which is why, five days before Christmas, I rolled out of bed at dawn and, my eyes watering from the arctic December Brooklyn breeze, headed to Best Buy at a nearby mall.”

Um artigo muito bom no Quietrev. O autor é um escritor, o texto é bom, as conclusões também. Não gosto de todos os textos do Quietrev, de alguns eu discordo, ou acho que terminaram de forma um tanto abrupta. Mas esse é digno de um escritor.

Vivo essa situação peculiar de ser uma mulher sem filhos, que decidiu deixar o trabalho e fazer só o que eu escolho (como o virtude-ag.com e pequenos projetos relacionados com a divulgação da natureza), e tenho um marido que me permite fazer o que eu quiser. Em resposta, esse “o que eu quiser” é bastante sensato. Gasto pouquíssimo em roupas e sapatos, em geral de marcas baratas, e sou capaz de passar meses sem comprar nada. Não vou à manicure (só mantenho minhas unhas curtas, sem esmalte), faz anos que não faço tratamentos estéticos. Corto meu cabelo duas vezes por ano. A maioria das minhas viagens e passeios sem o Cris são pra lugares próximos, não caras, e não viajo sozinha se ele estiver numa fase mais pilhada do trabalho, quando eu sei que minha companhia vai fazer diferença.

Desde a adolescência penso que sucesso profissional não é medida de sucesso de vida. Fora isso sou mulher, e sei que existe uma diferença. Um homem que não trabalha ou que não ganha bem sente um peso muito maior nas costas.

Entre as angústias de Brian Gresko, eu sei o que é pensar “deveria ter mais amigos?”

Já escrevi sobre isso em outros posts. Contando que eu estava aí dois anos atrás. Pensando se eu era chata, com valores errados, desperdiçando minha vida e a prova era o fato de eu ter poucos amigos, não badalar, não ter muita coisa pra anunciar no Facebook.

Em 2014 descobri a palavra misantropia, voltei a blogar, e conheci os Brancos, dois amigos queridíssimos. Essas três coisas acabaram com a minha crise.

Não que eu veja os Brancos com frequência. De lá pra cá eles tiveram filhos (não um com o outro, cada um com seu respectivo cônjuge), o … mudou de emprego e perdeu os dias livres da semana. Às vezes passo meses sem encontrá-los. Mas sempre conversamos pelo WhatsApp. A … é alguém capaz de me mandar mensagem de feliz aniversário de me tirar lágrimas, quase como uma declaração de amor. Não um feliz aniversário, tudo de bom, e sim um desfile de elogios que eu nem sei como responder.

Tenho os MMs. Os tais amigos queridíssimos com quem troco e-mails pra falar das questões mais importantes e íntimas. Um dos MMs nem mora no Brasil, passo bastante tempo sem vê-la, mas isso não diminui o carinho e a confiança.

Tem pessoas bem queridas que eu encontro de vez em quando. Gente com quem eu me sinto conectada, que me falam de coisas pessoais com sinceridade, que perguntam sobre a minha vida com interesse.

Me afastei das pessoas que não me falam com franqueza. Que não são capazes de ser intimistas, que não prestam atenção em mim (no outro, na verdade, você percebe que a pessoa só enxerga a si mesma, não está tendo um diálogo de verdade com você). Ou as que me falam mentiras ou desculpas esfarrapadas e acham que eu vou acreditar.

Tenho poucos amigos. E não tenho uma rotina de ver sempre esses poucos, às vezes passo meses sem encontrá-los, ou eles são capazes de demorar semanas pra responder um email. Mas são pessoas com quem tenho uma ligação tão especial que me preenchem, e depois de tê-los conhecido, não consigo aceitar menos do que isso no conceito do que é ou deveria ser um amigo.

Fora isso sou uma misantropa-introvertida-esnobe-filha-da-puta, casada, e que viaja bastante, então não tenho os tais problemas de se sentir sozinho no fim de semana, não preciso da presença constante dos amigos.

Acho que todo mundo precisa ter amigos. E a medida do Alain de Botton parece boa. A de que você precisa ter pelo menos uma pessoa pra quem você possa pensar em ligar às 4h da manhã, sem medo. Sou muito sortuda, porque consigo pensar em mais de uma pessoa pra quem eu poderia fazer isso.

Todo mundo precisa ter amigos, mas não meça isso em quantidade. Almeje ter bons amigos e cultive essas flores raras.