Sangue do Ombro de Palas

Na HQ Watchmen, do Alan Moore. O Alan Moore, do V de Vingança, Monstro do Pântano, Constantine. Em 1989 ele escreveu esse texto sublime, descoberto só porque estou com um original. Quem comprou da Abril encontrou uma tradução horrorosa na edição encadernada, e uma bem melhor na edição em fascículos de 1999, mas que ainda assim não seria a minha tradução. Jotapê Martins fez uma tradução bastante fiel, mas que às vezes deixava as frases estranhas. Eu, infiel, amoral e agnóstica, não tenho problemas em traduzir coisas que eu gosto para o jeito como as coisas soam na minha cabeça.

A tradução abaixo não é muito fiel. Em vários trechos aproveitei da tradução do Jotapê, e em outros adaptei quando soava estranho em português. Queria compartilhar com outros apaixonados pelas aves esse inspirador artigo ornitológico escrito pelo personagem Daniel Dreiberg. Esse é um texto que eu gostaria de ter escrito.

“O seguinte artigo foi reproduzido do Journal of the American Ornithological Society, outono de 1983

Sangue do Ombro de Palas

Daniel Dreiberg

É possível, eu me pergunto, estudar uma ave tão de perto, observar e catalogar suas peculiaridades com tal minúcia, a ponto de torná-la invisível? É possível que na incansável tarefa de medir a envergadura de suas asas ou a extensão de seu tarso, de alguma forma nós percamos de vista sua poesia? Que em nossas prosaicas descrições de plumagens de mármore ou vermiforme não sejamos capazes de enxergar as telas vivas, cascatas de marrons cuidadosamente pintados, dourados que envergonhariam Kandinsky, explosões enevoadas de cor para rivalizar com Monet? Eu acho que é o que fazemos. Acredito que ao nos aproximarmos de nosso objeto de estudo com as sensibilidades de estatísticos e vivisseccionitas, nos distanciamos cada vez mais do maravilhoso e fascinante planeta de imaginação cuja gravidade nos atraiu no início.

Não estou dizendo que deveríamos parar de estabelecer fatos e verificar informações, apenas sugiro que, a não ser que esses fatos estejam imbuídos com a clareza da percepção poética, eles serão apenas joias opacas; pedras semi-preciosas que não valem a pena coletar.

Quando fitamos a catatônica pupila negra de um periquito é preciso que nos eduquemos a enxergar o lampejo da fria e alienígena loucura que Max Ernst percebeu quando decidiu paramentar suas noivas nuas com penas escarlates e transplantes de cabeças monstruosas de aves exóticas. Quando algum falcão ou andorinha migratória é capturada pelo olhar azul e aguçado de nossa lente Zeiss, é preciso que sejamos capazes de enxergar o vôo quadro-a-quadro das gaivotas em sépia das antigas fotografias cinéticas de Muybridge, traçando com suas asas brancas uma lenta linha osciloscópica pelo tempo e espaço.

Ao olhar para um falcão, vemos as pequenas diferenças na largura das penas onde os egípicios outrora viam Hórus e seu olhar flamejante que encarnava a vingança sagrada. Até que transformemos esses avistamentos em genuínas visões; até que nossa audição seja capaz de perceber uma sinfonia a partir do pandemônio do aviário; até lá nós teremos um hobby mas não uma paixão.

Quando eu era criança, minha paixão eram as corujas. Nos longos verões do início dos anos 1950, enquanto todo o país parecia observar o céu a espera de discos voadores ou mísseis soviéticos, eu corria pelos campos da Nova Inglaterra tarde da noite, tênis roçando a grama seca e samambaias em volta do meu posto, onde eu ficaria sentado, alerta, na esperança de um espetáculo diferente, meus ouvidos buscando o grito selvagem que anunciava uma velha coruja caçando na escuridão, um grito poderoso de um ermitão, diferente do sibilo de uma coruja mais jovem.

Em algum lugar com o passar dos anos; em algum momento no espaço de um bocejo entre aqueles anos incríveis que vão do entardecer de uma guerra bem ganha e os dias de hoje, sob a sombra de uma guerra impossível de vencer; em algum ponto minha paixão se perdeu, inadvertidamente convertida de seu brilho original para um sistema banal e enfadonho de classificação. Essa corrosão gradual corria desapercebida, desconhecida, finalmente se calcificando em um hábito impensado. Faz pouco tempo que consegui captar um lampejo do meu primeiro entusiasmo através da poeira acumulada dos estudos metódicos e acadêmicos: após visitar um conhecido no hospital de Maine, cruzando o estacionamento escuro e minha mente reduzida a um vazio devido aos eventos do dia, de forma repentina e inesperada ouvi o grito de uma coruja caçando.

Era uma ave velha, seu guincho como um ancião insano rodopiando como um louco pela escuridão e céu gelado, sua forma entrecortada pelas nuvens noturnas, e o som me fez congelar. É uma falácia supor que as corujas gritam para afugentar suas presas dos esconderijo, como alguns sugeriram; o grito de uma coruja caçadora é a voz do inferno, transforma ratos em estátuas, enraiza fuinhas. No meu instante de paralisia naquele asfalto brillhante, no meio de automóveis adormecidos, eu entendi o propósito do grito com uma clareza arrebatadora, da forma como eu entendia quando era criança, deitado de costas sentindo a terra morna do verão. Naquele longo e interminável instante, compartilhei a pura sensação de medo, junto com outras criaturas muito menores e mais vulneráveis do que eu, e que também tinham ouvido o grito como eu ouvi, tão imóveis como eu. A coruja não estava tentando assustar sua presa e fazê-la se revelar. Empoleirada com desconcertante imobilidade por horas em seu galho, bebendo na escuridão através de suas pupilas dilatadas e sedentas, a coruja finalmente avistou seu jantar. O grito serviu meramente para petrificar o petisco, prendendo-o ao chão em cego e inútil terror. Sem saber qual de nós seria o escolhido, me mantive imóvel junto com os roedores do campo, meu coração batendo como se esperasse pelas repetinas e afiadas garras que indicariam que eu fui a vítima escolhida. As penas de uma coruja são macias e felpudas; elas não fazem som algum enquanto mergulham pelo céu negro. O silêncio anterior ao ataque de uma coruja é um silêncio de Bomba-V, e você nunca ouve até que ela lhe atinja.

Em algum lugar longe da escuridão do pôr-do-sol, além da terra iluminada pelas luzes amarelas do hospital, achei ter ouvido o som de alguma coisa pequena que emite seu derradeiro squick. O momento passou. Eu podia me mover de novo, junto com todos os outros seres alivados e invisíveis na grama alta. Estávamos a salvo. Ela não havia gritado para nós, não desta vez. Podíamos continuar com nossas tarefas noturnas, com nossas vidas, em busca de uma refeição ou de um parceiro. Não éramos nós a nos debater na escuridão fétida, a cabeça enfiada na goela de um horror alado, nossas caudas oscilando de forma patética para fora daquele bico em forma de cimitarra durante horas, até que nossas patas traseiras fossem regurgitadas, nossa pele vazia e curiosamente virada no avesso durante o processo.

Ainda que eu tenha recuperado minhas habilidades motoras após o grito da coruja, descobri que meu equilíbrio não fora tão facilmente reconquistado. De alguma forma a experiência havia tocado uma corda dentro de mim, criando uma conexão entre o meu eu adulto e embotado, e a criança que corria sob a luz das estrelas enquanto os caçadores da noite desempenhavam dramas repletos de fome e morte no ar cima de mim. Uma necessidade de experimentar ao invés de meramente registrar foi retomada em mim, iniciando um processo de auto-avaliação que me levou a escrever este artigo.

Como eu pontuei anteriormente, não estou propondo me livrar de todo o empenho acadêmico e pesquisas de campo, e correr para abraçar alguma experiência primal nas florestas. Pelo contrário: mergulhei no meu objeto de estudo com uma fé renovada, capaz agora de ver os fatos crus e as descrições áridas sob a mesma luz mágica que me guiava quando eu era criança. Uma compreensão científica da beleza sincronizada e articulada dos movimentos das penas de uma coruja durante seu vôo não impede uma apreciação poética do mesmo fenômeno. Ou melhor, uma visão melhora a outra, um olhar mais lírico emprestando aos dados frios uma paixão da qual há muito eles tinham se separado.

Mergulhando com avidez em empoeirados e há muito tempo intocados livros de referência, encontrei passagens que me tiravam o fôlego, livros de aparência entediante mas que se reveleram tesouros de um brilho maravilhoso. Redescobri joias esquecidas entre teias de aranha, trechos antigos de prosa descritiva que ainda assim revelavam com facilidade a violência e a essência terrível do tema.

Topei mais uma vez com o denso relato de T.A. Coward sobre o encontro com um bufo-real: “Na Noruega vi uma ave que havia sido retirada do ninho, mas ela não se limitava a assumir a pose típica de tentar assustar, ela também investia contra a grade, atacando-a com as patas. Estufava as penas, erguia a cabeça e as asas, disparava um voleio de sons com seu bico cortante, mas o que mais me impressionava era o brilho dos seus enormes olhos laranja”.

É claro, também temos o trecho em que Hudson fala da Magellanic Eagle-Owl que ele feriu na Patagônia: “Suas íris eram de um laranja brilhante, mas sempre que eu tentava me aproximar eles se transformavam em grandes globos de uma incandescente chama amarela, as pupilas negras cercadas por uma luz cintilante que emitia minúsculas fagulhas no ar”. Nesses trechos há muito esquecidos, vislumbrei um pouco da intensidade apocalíptica e apaixonada que experimentei no estacionamento em Maine.

Hoje quando observo um Carine noctua, tento olhar além do belo cinza de suas garras, ver mais do que as manchas brancas ordenadas em linhas, como se fossem uma exibição de fogos de artifício sobre suas penas marrons. Tento ver a ave que os gregos cunharam em suas moedas, sentada pacientemente sobre o ombro da deusa Palas Atena, compartilhando com ela em silêncio sua sabedoria imortal.

Quem sabe, em vez de medir as penas que cobrem suas orelhas, deveríamos imaginar o que essas orelhas ouviram. Quem sabe, ao considerar a forma como ela se empoleira, com os dois dedos para frente e o reversível para trás, deveríamos parar por um momento, sabendo que aquelas mesmas garras podem ter vertido, pelo menos uma vez, sangue do ombro de Palas. “