Saber sobre o que você é boa, tirar selfies, ser capaz de dançar sozinha

Passei como lição de casa pra uma amiga com quem almocei nesta semana. Estava contando pra ela sobre uma conversa com uma outra amiga que tem um defeito comum a muitas pessoas, principalmente mulheres: incapacidade de reconhecer suas qualidades, especialmente as grandes.

Essa amiga com o tal defeito é uma super-especialista numa determinada área. Quando falei “você tem um grande conhecimento e experiência”, ela nem deixou eu terminar a frase, me cortou pra falar “tenho nada”. Eu “repara no que você acabou de fazer. Você nem deixou eu terminar de falar, tem algo dentro de você que te impele a negar que você tenha, mas o fato é que você tem, ou o tal fulano não teria te convidado pra participar do grupo de trabalho”.

Você é assim também? Nega que seja muito boa em alguma coisa? Se você faz isso, tem que mudar.

Sei que a gente tem horror a soar arrogantes, e provavelmente também temos uma insegurança de nos imaginar questionadas, ou verbalmente atacadas. Mas combata isso. É mais uma fraqueza pra gente se livrar.

Sabe como você aprende a lidar com situações desconfortáveis? Lidando. É uma mistura de alimentar o conhecimento sobre si, sua autoconfiança, e também ir pra arena brigar.

Já contei pra vocês que sou boa de briga (dentro dos limites da civilidade. Não sei lidar com a violência gratuita, ou o foda-se o que eu prometi, não vou fazer e pronto… mas acho que se tivesse que lidar com essas coisas com frequência, aprenderia técnicas brutas). Mas pra argumentar não tenho problemas, mesmo quando pego pessoas tensas, no agressivo-defensivo, irônicas. Quem me deu clareza sobre isso foi o Cris. Estávamos discutindo porque ele me disse que eu fico ansiosa demais com idas pra aeroportos, e eu tentando explicar que não sou ansiosa, eu sou é traumatizada (de tantas vezes que quase perdemos, ou que perdemos mesmo um voo, e mesmo assim o Cris insiste em não querer chegar adiantado), e ele tentando me convencer de que eu sou ansiosa sim, e daí, todo mundo é ansioso por algum motivo, que por exemplo ele ficava ansioso quando tinha uma reunião com pessoas possivelmente hostis, mas que isso não era um problema pra mim.

E eu pensei que era verdade. Não sobre eu ser ansiosa, isso eu vou continuar defendendo que é trauma, mas sobre em geral não ter medo ou preocupação de lidar com qualquer grupo (dentro dos tais limites). Leio artigos que contam as dicas do FBI sobre negociações sob tensão, e acho tudo óbvio.

Como fiquei assim? Desde a adolescência lembro de diversos embates verbais, às vezes com plateia, às vezes com crueldade das frases de efeito, só pra fazer a plateia rir. Depois que fui pra faculdade, e comecei a frequentar chats (o início da internet, 20 anos atrás), eu também participava de diversas discussões, inclusive com gente hostil. E depois quando comecei a namorar o Cris e a gente brigava tanto no começo, tanto, mas tanto… Sei lá. Me sinto temperada a ferro e fogo. Sem medo.

É uma habilidade que recomendo a qualquer um cultivar. Saber conversar e não fugir de situações difíceis é uma grande vantagem.

Poderia dar uma lista de coisas que eu sou muito boa, mas não é o caso do post de hoje. Vou só continuar explicando sobre a lição de casa pra minha amiga.

Os selfies fazem parte da nossa confiança sobre quem nós somos. A gente precisa ter uma imagem sobre quem a gente é, e se não tirarmos selfies, como disse o guruzinho (que também estava no almoço), ficamos sujeitos às imagens que os outros tiram da gente. E a maioria das pessoas não é fotogênica o tempo todo, mesmo gente linda pode ser pega num ângulo ruim, ou mastigando, ou numa pose estranha.

Precisamos dos selfies. E nem precisa compartilhar em Facebook ou Instagram, fotografe pra você, pra fortalecer o seu amor por você.

Peguei meu celular e mostrei vários selfies, e fotos com o Cris e o Daniel, e essa minha amiga soltava exclamações “oh, que lindos”, e estávamos lindos mesmo. E eu não sou linda. Mas numa foto com luz boa, e na companhia de pessoas queridas, posso ficar linda, e essa é a imagem pra eu guardar e cultivar como uma auto-imagem.

Essa amiga me contou que ainda não consegue dançar sozinha. Acho que foi uma outra lição de casa que eu tinha passado. Está tudo relacionado. Contou que tem vergonha de tirar selfie. Que não consegue dançar sozinha. E que não consegue xingar, gritar, ou falar palavrão. Que ela só grita um pouco de susto, mas que nunca gritou de raiva. Perguntei se ela já tentou o “porracaralhoputaqueopariu” quando está brava, ela falou que não consegue, porque é muito feio falar palavrão. Falei pra ela que eu também não costumava falar no dia a dia, mas que às vezes só um palavrão expressa nossa raiva ou frustração, e que se negar isso é um mau sinal, como se ela precisasse manter uma imagem de alguém muito perfeitinha. Ela entendeu, e disse que vai tentar. Não garantiu sobre os palavrões, mas que vai tentar falar pra si sobre o que ela é boa, tirar selfies, e conseguir dançar sozinha.