Roubados pela polícia da Cidade do México

Inspirados pelas histórias de injustiças que acontecem no Brasil, não fizemos nada, só aceitamos a extorsão

Nosso voo de US$ 500 SP-São Francisco era pela Aeroméxico. O segredo desses voos baratos são conexões pela Cidade do México ou pelo Panamá, no caso da Copa Airlines. Claro que é mais chato, mas a gente acha que a diferença de preço compensa.

Voo de ida no dia 2/out/16. A viagem começou com más notícias. O web check in não estava disponível, e no balcão do aeroporto tivemos a informação de que o voo estava 1h40 atrasado, e que portanto perderíamos a conexão na Cidade do México e teríamos que pegar o voo seguinte, 8h depois. Assim, em vez de chegar em São Francisco na hora do almoço, chegaríamos depois das 23h.

Fazer o quê? Paciência. Ainda no Brasil o Cris alugou um carro baratinho e decidimos que iríamos dar um passeio nessa espera. Na viagem anterior em janeiro pra Los Angeles a gente também tinha pegado uma conexão pela Cidade do México, e fomos conhecer a Plaza Mayor e o Museo de Antropologia. Incríveis. Mas pra não repetir, desta vez decidimos ir pra Pirâmide do Sol e da Lua, a cerca de 1h30 do aeroporto. Diziam que os taxistas cobravam uns R$ 600, mas alugamos um carro por menos de R$ 100.

Pegamos a van pra locadora, pegamos nosso carro depois de uma certa burocracia, ligamos o GPS do celular, estávamos rodando há menos de 10 minutos quando passamos por uma batida policial que nos mandou parar.

Estávamos ingenuamente tranquilos. Falamos bom dia sorrindo, entregamos os documentos, e daí começou “Onde estão os outros documentos do carro?”, “Que outros documentos, a gente acabou de sair da locadora, são estes aí que estão na sua mão, estão todos aí”, “Tá. Então cadê a sua carteira internacional de direção?”, “Não precisa de carteira internacional pra dirigir no México, vale a brasileira”, “Precisa sim”, “Não, não precisa, a locadora não exigiu”, “É uma lei nova, que as locadoras não conhecem, foi publicada dia 1º de janeiro de 2015. Quem não estiver de posse da carteira internacional paga uma multa de 15.000 pesos e tem o carro apreendido”, “Isso não é possível, não existe multa tão alta assim, me mostre na internet onde isso está publicado”.

E foram alguns minutos de tortura desse papinho.

O que eles queriam? Propina, é claro. 15.000 pesos são US$ 800. Depois de alguma discussão, e o Cris querendo peitá-los, dizer que ia ligar pro consulado, ou então falar algo como “então apreende o carro, vamos lá”, eu pedindo pra ele não fazer isso, fechamos por US$ 200.

Tinha uns 8 policiais jovens ao nosso redor. Eu só pensava nas histórias lidas e ouvidas sobre policial ou funcionário público que diz que você foi rude, agressivo, ou que bateu nele, como aconteceu naquele parque estadual em que os seguranças tentaram proibir birdwatchers de fotografar, a história foi pra ouvidoria e quando chegou na ouvidoria, virou um “eles foram rudes e agressivos conosco”, sendo que eu falei por telefone com um dos birdwatchers abordados no dia do quiproquó, ele me contou a história com detalhes que provavam que a conversa tinha sido civilizada. Mas quando a merda chega no ventilador, a coisa mais fácil é dizer que o cidadão foi rude ou agressivo. Se o policial que falava com a gente dissesse “essas pessoas me xingaram, cuspiram em mim”, ou algo do tipo, os outros 7 testemunhariam que “sim, é verdade, eu vi”. E pior, é claro: policiais corruptos facilmente plantam drogas, armas ou qualquer porcaria no seu carro e dizem que encontraram isso com você. Como aquele caso do publicitário que foi morto com 7 tiros por policiais que confundiram um celular com uma arma. Não só o mataram, como depois tiraram os cartuchos de bala do carro dele, plantaram maconha, e depois foram julgados e absolvidos. A absolvição dos policiais aconteceu agora. O caso aconteceu a umas quadras do meu prédio. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/10/justica-de-sp-absolve-tres-ex-pms-acusados-de-matar-publicitario.html

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/10/1827079-nove-pessoas-sao-mortas-por-policiais-a-cada-dia-no-pais.shtml 

Também lembrava da vez em que um carro da Rota bateu no nosso carro, em plena Av. Angélica em Higienópolis. Havia suspeita de um assalto no Itaú, estava cheio de carros de polícia, todos nervosos, um deles deu ré em cima do nosso carro e acabou com a lateral. Tivemos que pagar a franquia do seguro. Não só deram ré em cima do nosso carro, como no boletim de ocorrência mentiram, o policial disse que desceu do carro e fez sinal pros carros pararem, o Cris disse que não fizeram isso (eu não estava com o Cris, só soube à noite). E mesmo que fosse verdade, quer dizer que você pode dar ré sem olhar pra trás? E se fosse um pedestre, uma pessoa com carrinho de bebê? http://claudiakomesu.club/quando-precisar-de-solidariedade-conte-que-a-rota-bateu-no-seu-carro/

Umas semanas depois do ocorrido, o Cris começa a receber ligações e depois até uma carta, pedindo pra ele comparecer à delegacia. O departamento tal de esclarecimentos queria ouvir a versão dele sobre o que aconteceu. No dia que a carta chegou estava com um amigo em casa, que o cunhado é policial. Ele nos falou “não vá. Meu cunhado é policial e ele conta cada história, você não faz ideia de como tem gente mafiosa na corporação. É claro que tem pessoas boas e honestas, mas também tem os mafiosos, e se o seu depoimento respingar num desses caras, ele vai fazer de tudo pra te ferrar de algum jeito”.

Também lembrava das reportagens de manifestações, em que as pessoas são presas e alguma reportagens têm a versão do policial e da pessoa presa. O cidadão preso dizendo que não fez nada, que eles chegaram batendo e que depois plantaram paus e pedras dentro das mochilas deles. Também lembro da história de uma estudante da FFLCH que estava fotografando uma manifestação, isso muitos anos atrás, não as de agora, a polícia chegou de capacete abaixado, sem plaquinha de identificação no uniforme, baixando o cacete em todo mundo. Entre os vários golpes de cassetete, um quase a deixou cega. Também ficou com síndrome de pânico e não conseguia mais morar sozinha, teve que ir morar com a irmã. Não é história de jornal, era amiga de um amigão meu.

Então foi isso. Pensando em como é fácil a polícia ou qualquer autoridade mentir, sumir com documentos seus, plantar drogas ou armas no seu carro, não deixei o Cris fazer nada, mandei ele aceitar a extorsão. Eles pediram US$ 800. Quando as negociações começaram, eu teria deixado por US$ 400. O Cris queria forçar a barra pelos US$ 100, o cara não queria aceitar, no fim ficou por US$ 200.

Também pensei que não tinha como eu tirar o celular e gravar a situação sem o caldo engrossar, e lamentei não termos algo como aquelas câmeras gravam tudo, tão comuns em carros da Rússia. Mas imagino que eles não gravam som, então talvez não adiantasse. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/10/cameras-em-veiculos-flagram-acidentes-forjados-na-russia.html

Quando fomos devolver o carro na locadora (onde ainda passamos por mais um perrengue, o cara tentado nos cobrar duas diárias em um carro que tínhamos usado por menos de 5h), o Cris contou o ocorrido, confirmou que é mentira a exigência da carteira internacional, e perguntou “O que podemos fazer?”.

Resposta: “Nada. Não tem nada pra se fazer. É a polícia. É o governo”.

Fiquei pensando que a situação do México é ainda mais triste do que no Brasil. Se fosse no Brasil, me animaria a mandar a história pra algum portal de notícias, compartilhar no Facebook. Volta e meia a gente não vê essas coisas funcionando, a imprensa indo tirar satisfação, ou uma equipe que vai pra região e flagra com uma câmera escondida?

Mas dizem que no México não tem nada a fazer.