Resoluções de aniversário

Num dos dias de janeiro eu completei 40 anos. Um tempo atrás li no WhatsApp meus colegas do colegial lamentarem a chegada aos 40, e eu sei por que não é assim pra mim. Não me sinto velha porque sempre fui velha. Eu não era mais ágil, forte e resistente, não era mais impulsiva ou mais alegre, não agia de forma inconsequente, não bebia todas.

Alain de Botton disse que todo mundo que não se sente envergonhado de quem era um ano atrás não está aprendendo o suficiente. Frases impactantes. Mais impactantes ainda pra quem acha que está sempre certa.

Sentir vergonha não será fácil porque nunca faço coisas impensadas, tudo está sempre ancorado, relacionado, medido. Tudo tem suas explicações e vejo o presente como fruto do passado. Não costumo fazer coisas idiotas, e quando machuco tinha objetivos de que não me arrependo.

Mas sou capaz de pensar o que mudou e ver que prefiro o agora ao passado.

Tenho uma lista de coisas sobre mim e sobre a minha vida pra me orgulhar, mas não sei em como transformar isso, hoje, neste momento, em algo bom pro blog, algo que não pareça besta.

Mas acho que tem uma coisa que eu posso fazer. Posso escrever e, portanto, assumir um compromisso moral comigo mesma, que eu quero cada vez mais esquecer as coisas ruins do passado. Quero parar de ficar lembrando das coisas que o Cris me fez e me magoaram, quero que isso fique tão distante como se fosse em outra vida. Também quero parar de ficar pensando no meu desgosto com a comunidade dos birdwatchers, tanto por ações individuais, como na resposta em grupo (a tal falta de comprometimento com assuntos sérios).

Vou pensar em estratégias pra me purificar deles. Há pelo menos duas coisas que me ocorrem agora:

– Pro Cris eu tenho que me proibir de pensar ou falar “você sempre faz tal coisa”. Ou eu vou não me importar, ou vou falar pra ele “não faça tal coisa dessa forma, por causa disso e disso. Eu gostaria que você fizesse assim”.

– Pros birdwatchers, já faz um tempo que eu não me sinto mais chateada com as tais pessoas. Consigo me imaginar conversando com elas, passando um tempo com elas (quando estou brava com alguém não suporto nem a ideia de ter que ver a pessoa). Como grupo que não quer agir, apenas dar likes, é mais do que na hora de eu reconhecer que a humanidade é assim e se eu ficar brava com isso vou ficar brava minha vida toda.

E de forma geral, tenho que incorporar de verdade o reconhecimento de que as coisas são difíceis e morosas, seja pra mudar pessoas (e eu sou do tipo que acredita que as pessoas podem aprender e mudar, porque vejo o quanto Cris mudou, como eu mudei), seja na relação com grupos ou organizações.

Acho que não contei que no final do ano eu estava bem chateada com o Inaturalist, e pensando se eu queria continuar subindo minhas fotos lá. No meio de dezembro escrevi uma mensagem pra três das pessoas que mais me ajudaram e foram gentis comigo, pra desejar Boas Festas e explicar minha ausência. Um deles, o Jakob, conseguiu me fazer ver como eu estava sendo infantil. “Você tem ideia de quantas vezes eu fui c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e ignorado nas dúvidas e problemas que eu postei? (…) Sei como é difícil quando a gente é apaixonado por algo”.

E isso me fez ver que eu estava mesmo sendo uma cretina mimada idiota. Chateada de pensar que era porque são questões do Brasil, e que se fossem problemas no mapa dos Estados Unidos, eles consertariam. Idiota. É claro que sim. O Brasil não é nada pro site ainda, há pouquíssimos registros. Quando o Brasil tiver pelo menos tantos registros quantos dos Estados Unidos, e eles continuarem não se importando, daí eu posso começar a pensar em discriminação.

Mais paciência.

Mais compreensão.

Mais fortaleza.

Mais gentileza, mais amor, tanto na forma de pensar o mundo como na hora de me relacionar com ele, e com as pessoas.

Ainda não é uma rotina budista de compaixão e bondade, não me sinto próxima do momento de largar a espada. Mas sei que seria uma pessoa melhor se pudesse temperar os dias com mais gentileza nas palavras e no coração.