Requisitos para ser una persona normal

No avião. Assisti inteiro sem pular trechos, o que já é bastante coisa. É bonitinho, engraçadinho, com mensagens positivas, inclusive algumas importantes que andei falando pra amigos queridos, algo difícil dada a minha etnia, mas disse com sinceridade pra uma amiga parar de pensar que enquanto ela não tiver trabalho ela não tem direito de ser feliz.

As mensagens são corretas, os personagens são simpáticos, há uns diálogos interessantes, a ousadia de escolher o peidar embaixo do cobertor e ficar apreciando o cheiro como algo que une os dois.

Mas é bobo. É raso.

Sei que foi esse o objetivo. Um filme bem leve, leve com os balões, algo só pra afagar a alma de tanta gente de 30 anos que não tem emprego ou tem emprego precário, que tem que morar com os pais ou com desconhecidos, que não tem um hobby, que come muita porcaria e não consegue emagrecer, que não sabe o que quer da vida.

É um afago. Mas será que mesmo as pessoas que se identificaram com os personagens não sentiram falta de cenas mais reais, diálogos mais reais? Tudo é tão leve com os balões, e nenhum problema é sério, doído ou difícil, tudo se resolve, não há angústia, não há insônia, não há questionamentos realmente sinceros sobre si, sobre traumas. Não há dor.

A protagonista tem a lista do que ela deveria cumprir pra ser uma pessoa normal. Trabalho, casa, vida social, vida familiar, namorado, hobbies, ser feliz. E ela vai ticando item por item, daquele jeito irreal. Não há momentos pra pensar nos itens dela, na lista dela, nos quartinhos fedorentos dela, como o trauma de ter tido um pai violento que batia na mãe.

Talvez isso torne o filme mais verossímil, porque imagino que muita gente faz isso. Se apega à lista padrão do que deveria cumprir mas não quer olhar mesmo pra si e descobrir quais são os requisitos pra você, o que você deveria resolver em você. Não pra ser uma pessoa normal, mas pra ser a pessoa que você quer ser. Lembrando que não precisa nem ter como objetivo ser feliz, você pode escolher outros objetivos na vida (por exemplo, alguém pode escolher conhecimento, domínio sobre um tema, como algo mais importante do que ser feliz. Não estou dizendo que é o certo, nem que é errado, é só uma escolha e na verdade muita gente faz isso. Decide que a satisfação e o orgulho técnico e profissional é o que você quer, mesmo que isso te afaste de família, amigos, lazer).

É um filme bonitinho, mas não gostei. Não traz o gosto de verdade.