Reparem nas artimanhas do discurso anti-feminista – o caso José Mayer

O ator José Mayer (67) foi denunciado pela figurinista Susllem Meneguzzi (28). “Susllem detalha as investidas do ator, com o qual ela trabalhava, que começaram com comentários como ‘você é bonita’ e escalaram para ‘você nunca vai dar pra mim?’, culminando em um episódio em que o ator colocou a mão na genitália da figurinista, na frente de outros funcionários.”

José Mayer primeiro negou tudo, mas depois se mostrou uma pessoa de caráter e fez o que pouquíssimas pessoas são capazes de fazer: admitiu plenamente o erro, que incluem trechos como este:

“Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são.

Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.”

José Mayer teve a participação na próxima novela da Globo cancelada e foi pra geladeira por tempo indeterminado. Espero que ele volte em breve, quem sabe até no papel de um ex-machista que aprende a respeitar mulheres?

Apesar de ser um raro caso em que o acusado admite a culpa sem ressalvas, sem colocar a culpa na moça, não falta gente dizendo que ninguém é santo, que não estava lá pra checar o que realmente aconteceu, que não coloca a mão no fogo por ninguém. Típico discurso cínico chauvinista, e com a tristeza adicional de vir de uma mulher:

“Mexeu comigo, mexeu comigo. Eu não estava lá, não tenho como saber o que aconteceu”

“Eu acredito em duas coisas: primeiro, que não existe gente santa, nem homem, nem mulher. E homens e mulheres são capazes de prejudicar o outro (…)

Eu não estou dizendo que o que ele fez foi certo ou errado, porque eu não estava lá. Mas o fato de as mulheres só defenderem mulheres, isso mostra que elas não olham os seres humanos como seres humanos, elas estão selecionando sua raiva. Então elas escolhem se mexeu com uma mulher, mexeu comigo. Mas e se uma mulher mexe com um homem? (…)

Em um caso de assédio eu acho que é mais capaz de um homem me defender, do que uma mulher. Eu estou pensando em cenários que já presenciei várias vezes, de situação de abuso, em que homens foram defender, mas as mulheres não”

https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/04/05/mexeu-com-uma-mexeu-com-todas-ativistas-pro-e-contra-a-campanha-opinam.htm

Eta tristeza. Reparou nas várias artimanhas de retórica tosca?

1 – “Não existe gente santa, nem homem, nem mulher.”

É verdade que não existe gente santa, mas ela coloca o argumento pra dizer que a mulher sempre terá culpa. Usando aquele comprimento de saia, estava pedindo pra ser estuprada. Com aquele decote, queria o quê? Você viu o jeito que ela sorria? É claro que ela estava pedindo pau.

Não existe gente santa, mas existem situações em que a mulher não tinha culpa nenhuma. Não pediu pra ser assediada, bolinada, estuprada ou assassinada. A não ser que você acredite que o fato de ser mulher é o pecado original.

2 – “Eu não estava lá, não tenho como saber o que aconteceu”

Esse é outro argumento (desculpem a irritação), mas é outro argumento de merda. Então sua filha de 8 anos chega da escola chorando e conta que um garoto a agarrou e enfiou a mão dentro da calcinha dela. O que você faz?

“Você tem um vídeo, filha, provando o que aconteceu? Não? Desculpe, não posso fazer nada, não estava lá, não tenho como saber o que realmente aconteceu”.

Que absurdo, é minha filha, é claro que eu acredito nela! Mas no caso dessa figurinista, é uma desconhecida, como saber se ela não está mentindo, se aproveitando da fama do ator pra se projetar?

Idiota, idiota… Você não repara como “feminista” é um dos piores rótulos que existe? Por acaso você não percebe como é não-cool, tãaaaao-chato ai que chatice, mimimi, frescura ser feminista? Que tipo de gente quer ser chamada de feminista, associada a feministas, ter divulgado em tudo quanto é lugar que um homem enfiou a mão na buceta dela?

Infelizmente existem sim malucas que inventam histórias de abuso e de estupro, e sempre que vejo um caso desses tenho vontade de eu pessoalmente ir lá torturar a filha-da-puta que faz um desserviço tão grande pra humanidade.

Mas são poucos. A maioria dos casos é verdade, e a maioria deles você nunca vai saber, são histórias que nunca serão contadas.

No caso em questão, Susllem podia estar sozinha e seria só palavra contra palavra, mas não foi assim, tinha mais gente na sala e eles viram e ouviram o que José Mayer fez. E depois o próprio escreveu uma carta admitindo e se desculpando. E nada disso impede o discurso “não sei o que aconteceu, não vi com meus próprios olhos, ninguém é santo”.

3 – “Se uma mulher mexe com um homem?”

Outra burrice enooooorme. Fia, entenda o seguinte: a essência do abuso é a diferença de poder, seja estrutura física ou status, cargo.

Se o cara te fala “aí, gostosa, deixa eu lamber a sua buceta, quando é que você vai dar pra mim?”, e você pode dar um soco na cara dele, isso não é abuso, é uma relação entre iguais, e na verdade, inexistente. Ninguém é folgado se pode sofrer consequências. Tanto que, se a mulher está acompanhada de um cara forte, ninguém é folgado. Mas se ela está sozinha você pode falar e fazer o que quiser, porque não acontece nada. O homem pode falar o que quiser e, dependendo da situação, pode fazer o que quiser: pode bolinar, pode agarrar e estuprar, pode matar.

“Se uma mulher mexe com um homem?” – se é a mulher que fala “e aí, pauzudo, vem enfiar essa delícia inteirinha aqui no meu cuzinho pra me fazer gritar de prazer” – a não ser que seja uma situação bem surreal, ele ou vai rir dela, ou dar um tapa na cara dela, ou então vai aproveitar a oportunidade de sexo imediato. Mas não consigo imaginar uma situação normal em que a mulher mexe com o homem,  e poderá boliná-lo a força ou forçá-lo a fazer sexo contra a vontade ou matá-lo depois.

Percebeu a leve diferença entre homem mexer com mulher e mulher mexer com homem?

4 – “Em um caso de assédio eu acho que é mais capaz de um homem me defender, do que uma mulher.”

Idiota, idiota… peloamordedeus, é claro que sim. É claro que em geral é mais fácil um homem ir peitar um outro homem, do que uma outra mulher ser capaz de ir peitar um cara folgado.

Mas quem está querendo mudar a cultura, a forma como as mulheres são vistas, pra que parem de acontecer essas situações? Há homens no grupo, mas a maioria é de mulheres. Lutando todos os dias, tendo que combater as lutas mais absurdas, inclusive o fogo amigo de mulheres que lutam contra o feminismo.

 

A carta de José Mayer pode ser lida aqui:

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/jose-mayer-admite-assedio-e-pede-desculpas-eu-errei

Carta aberta aos meus colegas e a todos, mas principalmente aos que agem e pensam como eu agi e pensava:

Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora

Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço.

Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, nao sou.

Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são.

Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.

Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi.

A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança.

Espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar.

Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta mudança. Dolorosa, mas necessária.

O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho, marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor.