Remorso no cu

Diálogos 1

O … leu o Tarot pra mim e falou que estou numa fase boa, que estou no controle e posso tomar decisões, sem nada do passado impedindo. Que posso seguir em frente sem remorso ou culpa.

O quê????

Falou que eu posso seguir sem remorso ou culpa.

Ah, que susto. Achei que tinha ouvido “sem remorso no cu”.

“Remorso no cu” é coisa de quem queria ter dado o cu mas não deu?

Claro que não, remorso é sempre por algo que você fez, não que você deixou de fazer. Remorso no cu é coisa de quem deu o cu e se arrependeu.

É verdade… não existe remorso por não ter dado, seria arrependimento por não ter dado.

— x —

E parece que 2016 será assim. Poderei me aposentar da aposentadoria. Consertar minha asa quebrada. Descansar. Praticar minha nerdice no campo das ilustrações e dos jogos. Jogar muito com o Daniel. Comprei um monitor 21:9, nem está configurado direito mas já fico pensando como pude passar tanto tempo sem um negócio desses. Amanhã deve chegar meu desktop gamer, desses com placa Asus, placa de vídeo GTX 950, 16GB de RAM. E HD de 4TB por causa das fotos. Muito mais tempo de misantropia, silêncio, sossego, leitura, escrita, desenhos, arte. E, segundo o guruzinho, sem remorso ou culpa, ou como pensou o Cris, sem remorso no cu.

 

Diálogos 2

Descendo o elevador, só nós dois, nos olhando no espelho. Falei “meu cabelo cor de abóbora” — não contei, mas depois da crise do fim do ano, a primeira coisa que fiz em São Paulo foi o que as mulheres tipicamente fazem quando precisam marcar alguma coisa: mudei o cabelo. Voltei a ser ruiva, mas ruiva como nunca fui, de ter cabelo descolorido e quase loiro.

O Cris cantarolou “meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora” — e completou: “a gente pode tirar uma foto assim e postar no Instagram… não, não pensando bem é melhor não, porque é música de corno”.

Eu: “é. Essa de Às vezes ela pinta a boca e sai / fique à vontade eu digo / take your time”.

“Já pensou? Jogador de poker já tem fama de corno”

“E eu de vez em quando viajo sozinha só com um guia. A gente não precisa mesmo disso”

“Tem um pessoal do H2 que fala ‘minha mulher pode fazer o que quiser, é só me deixar jogar’, ou ‘agora é 5h, não posso voltar pra casa senão topo com o Ricardão. Melhor ir só lá pelas 8h, que daí o Ricardão já saiu pra ir pro trabalho’  — qualquer coisa é desculpa pra jogar”.

E, apesar de ser péssima pra contar piadas, fui capaz de conseguir umas risadas de uns amigos pra quem contei outra história típica de jogador de poker “minha mulher vivia reclamando que eu nunca estava em casa. Mas daí comprei uma bicicleta ergométrica pra ela e agora está tudo resolvido, ela está sempre na bicicleta. Eu ligo, ela atende “alô? É, amor, estou na bicicleta” — voz ofegante”. E pior que já aconteceu do Cris me ligar enquanto eu estava na bicicleta ergométrica — de verdade, sem metáforas, atendi e falei a mesma frase, e a gente riu muito.