Remember the King – Elvis é foda, o show no Ibirapuera, nem tanto

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Passei muitos anos sem conhecer o Elvis, na verdade minhas referências não eram boas: tios cantando em karaokê, filmes na Globo, as músicas de estúdio e não dos shows, as fotos da fase gorda ou dele engomadinho. Depois que vimos as imagens dos shows, especialmente o de 1968, e a turnê de 1970 de Las Vegas, tudo mudou. Se tivessem me apresentado Elvis Presley desse jeito desde o começo… acho que eu seria uma tiete.

Em outubro de 2012 teve show no Ibirapuera. Em 2013 também. Dá pra ter uma boa ideia do show nesse vídeo de 2013, filmado no Ibirapuera mesmo:

Mas se tirarem do ar, tem este feito em Sheffield, não mostra o começo, e sim uma das melhores músicas do Elvis:

Fomos num dos dias da turnê de 2012. Depois soubemos que o show agradou fãs, e que foi bem fiel às últimas turnês, mas pra mim e pro Cris foi um início de show muito estranho. “Assim falou Zaratustra” (que depois descobrimos que foi usada em shows reais, como no Madison Square Garden). A música cafona, com imagens no telão que não faziam sentido – o planeta Terra visto do espaço, a câmera se aproximando das Américas, do Brasil, da cidade de São Paulo (o medo de que fosse aparecer o macaco) de repente o ginásio do Ibirapuera e um corte abrupto que dá a sensação de que estão filmando o Elvis e algumas pessoas da banda entrando no estádio, num contraluz grande que não permite ver os rostos, apenas as formas gerais dos corpos, as roupas, o topete, óculos escuro, close rápido nas mãos cheias de anéis, como quem estrala os dedos, se preparando para o show.

Surpreendentemente emocionante! Dava mesmo a sensação de que o cara tinha entrado no ginásio do Ibirapuera.

Vendo o palco de longe, com o recurso do telão, seus olhos se prendem à imagem grandona. E o show abre com imagens tão boas (grande, telona, bem diferente do youtube) que lamentei não estar com uma câmera fora um celular velho. Dá pra acreditar que ele está no palco. Seleção de imagens que mostram uma presença de palco, carisma, expressões faciais, biquinho, sorrisos abertos e sorrisos secretos… Ficou mais claro ainda porque ele é o rei.

É uma ideia boa. É o rei. Por que os caras não conseguiram fazer um show pra empolgar, por quê?? Sou uma lorpa para sensibilidade musical, mas eu estava incomodada com a qualidade do som na primeira parte do show, muitas músicas com a voz do Elvis meio abafada. Na segunda parte o som voltou bem melhor (e eles mostravam trechos dos mesmos shows, ou seja, era a mesa de som desregulada), e abriu com uma música do histórico show de 1968, com o Elvis vestido em couro negro. Mas não mostrou nenhuma outra música desse show.

Sou tão leiga que nunca tinha ouvido ele cantar Bridge Over Trouble Water e You’ve lost that loving feeling, e agora que ouvi, nunca mais vou conseguir ouvir o Simon nem o Johnny. Pesquisando no youtube também descobri que ele cantou Unchained Melody. Talvez haja outras versões, mas a que ficou mais famosa foi a que ele cantou no último show que ele fez, 21 de junho de 1977. Tem um arranjo de piano que soa estranho, mas a voz do homem é de chorar. Na verdade, chorei a música toda. Porque ele tinha aquela voz incrível, porque estava velho e gordo, porque por um segundo ele sorriu aquele sorriso de canto de boca que é capaz de iluminar o mundo inteiro, porque canta como quem está fazendo uma oração ou brigando com Deus, especialmente a partir dos 2:16 do vídeo, porque morreu. Rico, mas não “rico e feliz numa Vila do Mediterrâneo”, como o Rex Stout.

O primeiro vídeo é do último show do Elvis, em 21 de junho de 1977. O segundo é bom, mas de um cover postado como se fosse de um show original. Disseram que é o Lucky Rocket, filho ilegítimo do Elvis.

You’ve lost that lovin’ feeling. O primeiro é uma boa montagem de fotos, interpretação arrepiante. No Hilton em Las Vegas, 1970. O segundo é o vídeo do mesmo momento, mas a música está menos limpa.

No show também escolheram My way, que eu preferia nunca ter ouvido na voz do Elvis, e Gloria, gloria, aleluia, que pode ser um hit nos Estados Unidos mas não aqui.

A ideia do show é muito boa. Mas selecionaram várias músicas que eu não conhecia, e pouco dançantes, e percebi que quando o show se aproximava do fim eu estava brava. “Cadê o editor dessa porra. Puta que pariu, eles têm o material do Elvis, porque fizeram uma seleção assim? É problema com direitos autorais? O que explica isso?”.

O ginásio aplaudiu de pé. Porque é o Elvis e porque somos brasileiros. Mas tínhamos uma boa visão geral da plateia, havia poucas pessoas pulando e dançando. Mesmo que eles tivessem uma seleção limitada de músicas, a ordem estava errada. Não foram capazes de engatar 3 hits dançantes pra você se sentir em clima de show de rock. Tocava uma boa, a outra era desconhecida ou bem mais lenta. Na saída do show também ouvi frases como “tá certo que eu não conhecia a maioria das músicas…”

Havia uma senhora do meu lado muito animada, que gritou “lindo!!” em algumas músicas, e falou baixinho “ouve lá do céu”.

Acho que as pessoas não entendem que Elvis é imortal, um Deus, ou um ser de outro planeta. O que ele fez, o que ele era, nada disso parece equiparável. Mas show com seleção errada de músicas não é culpa do Elvis. Podem xingar o diretor… li algumas críticas do show, todo mundo elogia, provavelmente é só mais uma das minhas frescuras, mas juro que no dia que fui, dava pra ver que não engatou nenhuma sequência eletrizante.

Volta e meia fico revendo vídeos do show de 1968, e da turnê de Las Vegas… o que eu não daria pra ter visto esses shows.