Relacionamentos intensos e duradouros – parte 3 – como identificar o que é um assunto que precisa ser conversado. E um dos problemas mais comuns entre casais: homens que não demostram carinho

Tudo que incomoda devia ser motivo de conversa. Desde que você não parta do princípio de que tudo precisa ser do seu jeito, que só você está certa – essa é difícil, eu sei, mas tem formas de pensar assim e não agir como idiota. Basta lembrar sempre que temos origens diferentes, jeito de pensar diferentes, valores diferentes, e também lembrar das vezes em que você fez cagadas.

Também é importante que sejam diálogos pra falar como você está se sentindo, o que te incomodou, por que você ficou brava. Se a conversa puder ser feita num tom ameno e civilizado, ótimo. Se não puder – porque você ficou muito brava, então fale num tom bravo, quebre o pau. Mas fale. Não engula sapo e deixe se envenenar. Cada sapo engolido é um pequeno laço que se rompe. Não é divertido ter discussões e quebra-paus. Mas as discussões são feitas por pessoas que querem se acertar. A alternativa é ir engolindo sapo, se anulando, e de repente um dia você olha e se pergunta por que continua com aquela pessoa.

Se você não engole sapos e resolve na hora ou pouco tempo depois é mais fácil ter conversas. Se você engole sapos e deixa quieto, antes de chegar no estágio de sentir que não há mais nada conectando vocês, talvez você passe por um estágio de ter um rosário de reclamações sobre o outro. Reclamações que você pode fazer para outras pessoas, ou às vezes para a própria pessoa, mas é comum que as reclamações entrem naquele esquema de efeito nulo. O outro se acostuma a ouvir você reclamando, mas nem se importa. Um rosário de reclamações não é uma conversa. A conversa exige diálogo e muitas vezes compromissos com mudanças.

Pasta de dente destampada, sapato no meio da sala, quebrar o moedor de pimenta, deixar vazar a loção cara, não conseguir lembrar de manter a porta dos armários fechadas, nunca conseguir achar a chave do carro, ir pro supermercado e sempre esquecer de comprar alguma coisa, sempre chegar com pequenos atrasos – pense bem, tudo isso são coisas pequenas e sem importância. Você pode conversar, você pode pedir, mas se não rolar, não rolou, aceita.

Se você não consegue aceitar, é preciso pensar se você está sendo intolerante, ou se a sua irritação é sinal de que há algo mais sério.

Pense no outro. Como você o descreveria com toda a franqueza? É uma pessoa incrível, cheia de qualidades, que você não se imagina vivendo sem, que mudou sua vida, de quem você se sente muita saudade quando está longe? Mas tem essas coisinhas pequenas e chatinhas? Ótimo. São apenas detalhes. Você tem o direito de tentar acertar isso, basta fazer de um jeito bom. De preferência paciente, criativo, generoso, bem humorado. Mas nunca tirânico.

Mas se você pensar no outro e a primeira coisa que aparece é o rosário de reclamações? Ou, mesmo que o primeiro pensamento seja de tantas coisas boas que vocês têm juntos, o quanto você gosta dele e sente saudades dele, mas as coisas que incomodam não são no nível de tampa de pasta de dente, e sim em não se sentir valorizada, amada, desejada. Neste caso com certeza há motivos sérios e importantes para vocês conversarem.

Eu falei que não caracterizo grupos. Não digo o que são os evangélicos, o que são os japoneses. Mas pra mim há comportamentos masculinos e femininos, coisas que são mais comuns homens fazerem, mulheres fazerem. Vou falar de comportamentos típicos, com a grande ressalva de que falo apenas de coisas que já vi e ouvi falar em vários casais, mas é claro que nada determina que todo homem ou mulher seja assim.

É comum o homem ter mais poder na relação, ainda mais se é um casamento e não só um namoro. Às vezes vem pelo fato dele ter o poder econômico, mas mesmo que não tenha, os dois podem estar acostumados com a ideia de que é o homem que decide as coisas, que os desejos e prioridades do homem valem mais do que das mulheres. A vida do casal é direcionada para aquilo que o homem considera importante, seguindo os valores do homem. Se vão comprar uma casa ou ter uma alugada, quantas vezes por ano vão viajar, o quanto devem economizar por mês, padrão de vida e de gastos, vida social, o carro, frequência de encontro com familiares e amigos, intensidade de dedicação à carreira, filhos.

É comum os homens serem mais práticos, objetivos, áridos, racionalistas.

É comum os homens acharem que o amor não precisa ser externado. Essa é muito triste, porque sou capaz de pensar em tantos casais de pessoas boas, mas que a mulher vive tristonha ou insatisfeita porque ela não se sente querida o suficiente, valorizada o suficiente, desejada o suficiente. Deve ter um grande peso cultural, todos esses filmes e livros falando das grandes historias de amor, cenas românticas, jantar à luz de velas, Paris, presentes surpresa, sexo avassalador. Mas muitas mulheres sentem o mundo assim, gostariam de viver com mais romance. Você pode achar que isso é algo que faz mal pro mundo e combater esse comportamento, como nós feministas combatemos o machismo manifestado nos produtos culturais. Ou você possa entender e talvez até acreditar que a grande diferença entre machismo e querer romance é que o machismo é opressor. Tolhe, inibe, limita. Enquanto querer romance não é algo pra limitar o relacionamento ou impedir que o homem faça algo, mas incentiva a vontade de fazer mais coisas juntos, de se sentir mais conectados e amorosos.

Tantos canalhas prosperam e destroem relacionamentos porque muitos homens de caráter são incapazes de acreditar na necessidade que a mulher tem de sentir-se desejada e amada.

Aprenda: pra mulher não basta o “você me ama, eu te amo, nós dois sabemos disso, por que precisamos ficar trocando frases ou gestos amorosos?”

Essa é uma das maiores idiotices que um homem pode fazer. Quer matar seu relacionamento? Quer que ela vá embora fisicamente, ou então que o foco da vida dela vá pro trabalho, família, amante, ou qualquer outra coisa que não seja você? Vocês podem até continuar vivendo juntos, mas ela já não se sente conectada de coração com você? Basta ser um desses racionalistas filhos-da-puta, bom coração, bom caráter, mas totalmente idiota pra reconhecer anseios femininos.

Amor não é algo racional. Não basta saber. É preciso sentir, vivenciar no dia-a-dia. Comecei a fazer uma lista de coisas que as mulheres esperam dos homens, e acabou virando o post “Aprenda com os canalhas”.

http://claudiakomesu.club/relacionamentos-intensos-e-duradouros-parte-1-conversas-francas/

http://claudiakomesu.club/relacionamentos-intensos-e-duradouros-parte-2-como-diferenciar-assunto-importante-de-capricho/